Espinho meu, espinho meu
que me picas em ardor que não vejo
tanto sabor, guardado no copo
rasgo o tecido, na roupa que guardas
Teu cálice tomo por sagrado
liquido que me tolhe a fala
entorpecida escrita por desejo
espinho bravo, em botão de rosa
No abraço que tens
igual ao que se oferece
já nem me lembro de esquecer
tudo o que nem fui
Bradada será a voz da agrura
desbotada ao tempo que a fez
na minha tez, a secura de não beber
espesso sangue, tinta de viver
Espanto meu, que nem palavras bastam
espelho meu, espelho meu
espinho sou eu, e nem vejo quem sou
porque já não vou, fico-me no beber
Abraçar, liquefeito é o sentido
das palavras enegrecidas na vontade
espinho meu, espinho meu
sem rosto que tenho no fundo do copo
Soluço desfeito, à tua fonte desço
em espera dissoluta, absoluta envoltura
as curvas que inventas, na visão espinhosa
de tanto beber-te, nem veneno me vale
Assobio, rodopiando nas garras do sentimento
chega-me em bom tempo, com perfume em frescura
será chamar-te em tão bom nome, tecer-te
a teia, ladainhas de amor, brancura que me purga
Espinho meu, espinho meu
flor que te colho, espetando no coração
a dor de te amar, vestir-me de ti
espinho meu, crava-me em mais doer.