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segunda-feira, 22 de maio de 2006

Azul, porque gosto


Lá fora chove. Uma chuva que até sabe bem ouvir. É suave. Está uma noite magnífica, boa para os amantes e propícia para aqueles em que toda a sua vida se desvanece e cai em ruínas. Está uma noite para todos. A noite também é minha.
Cá dentro está seco. A atmosfera está algo melancólica e, para variar, a sós. Habituei-me facilmente a estar assim. Faz-me mal, faz-me bem...já nem sei. Mas gosto, e não gosto...porque sim? Porque não? Enfim...uma encruzilhada da tanga para alguns, uma tempestade para outros.

Hoje sonhei contigo, contigo que nem sei realmente quem és e como és. Sei e não sei. Azul é o céu que piso todos os dias, todas as manhãs quando acordo. Os espelhos do céu reflectem o que é a vida realmente, e o que não é também. Seja como for, as dúvidas continuam a existir. Há dúvidas? Não sei, acho que sim e acho que não.

Pura é a água que todos os dias bebo na nascente a caminho da (ir)realidade. Lindo é o teu sorriso mas que não é a mim dirigido. Magnifico deverá ser a tua forma de ser e amar sem sequer uma ínfima parte dirigida para mim. Aqui estou eu onde sempre estive. Lá vão todos os que pelo meu caminho passam e tu já quase estás de saída. É a vida. Morrerei por isso? Não, é a vida, simplesmente é a vida.

Gostaria de ter dado o meu melhor, um dia que fosse eternamente gratificante para ambos. Decerto que seria, pelo menos para mim. Saberia que tinha tentado. Assim, como já deixei passar quase por completo o pequeno trecho do caminho que temos em comum, nunca saberei realmente quem e o que és. Faltou-me coragem, iniciativa, credibilidade causada por impressões precipitadas. Nunca me deste oportunidade, nunca dei oportunidade. Mas do que estou a falar? Isto são coisas que nunca deveriam ter sido sequer pensadas. Isto são daqueles segredos que deviam ser eternamente guardados dentro de mim. Esconder está-me no sangue...esconder de mim próprio. Nunca tomei iniciativa porque nunca quis mudar o rumo dos acontecimentos. Não tenho força suficiente para reescrever a história. Se calhar há algo de medo misturado.

Basta-me fechar os olhos e aqui andas. Consigo sentir o teu calor, ouvir o teu riso. O teu perfume é doce e suave. Basta-me abrir os olhos e ver-te a sorrir mas não para mim, estou no lado oposto onde deveria estar para me veres, estou mesmo por trás de ti. O meu caminho é diferente do teu, é mais lento, onde os sentimentos por vezes transbordam a barreira que delimita o caminho do precipício e do real..

Acho que perdi algo de mim pelo tempo. Não sei exactamente onde e quando mas sinto que algo me faz falta. Algo que me pertencia mas que perdi algures. Algo de mim ficou pelo caminho, já não sou o que era. A tradição já não é o que era.

A descida causa-me vertigens, mas pior é a subida. A amargura do mesmo caminho de casa. A monotonia de bater na mesma tecla, comer na mesma mesa, dormir na mesma cama. Posso desaparecer por tempo indeterminado? Alguém que me desligue ou que me mande para as montanhas no Paquistão ou para o meio dos indígenas da selva amazónica. Queria ser coiote e vaguear pelo deserto. Queria saber quem és e passar os meus dedos pelos teus lábios. Queria saber como não são estas palavras meros conjuntos de caracteres. Queria saber porque escrevi isto. Bastava estar calado mais um pouco para nunca mais te ver até um dia mais longínquo onde na tua vida nem papel de figurante de rua faço.

Nunca primei pela capacidade de ser notado entre multidões, até mesmo se estiver sozinho. É natural que seja assim. Compreendo porque nunca reparaste em mim sem ser pelas idiotices. Somos diferentes, somos iguais. Tu, o ser completamente normal, proveniente da mesma tribo que eu, sonhadores, viajantes das estrelas e adoradores da Lua. A nossa tribo disfarçou-se muitíssimo bem nesta sociedade actual. Nem nos reconhecemos uns aos outros, nem a nós próprios...

Eu, o ser não menos normal mas com um escudo protector das agressões externas...não é só a falta de camada de ozono que nos mata, há palavras bem piores que o buraco na camada do ozono. Sou o eterno idiotazóide tarado, estupidamente ridículo por vezes. Escolhi esta forma de protecção das agressões dos nossos queridos membros da sociedade que são bem piores que eu e que o são realmente. Nós sempre temos tendência de ver coisas que não existem, e ficar cegos para o que está realmente diante dos nossos olhos.

Estou perto de cometer o maior de todos os pecados: o arrependimento. Se não escrevesse isto cometeria à mesma. Não tenho alternativa. Quem quer que sejas, espero ver-te um dia mais tarde, e mais dias se seguirão a esse. Numa próxima reencarnação pode ser que eu tenha mais argumentos favoráveis e que consiga conhecer-te.

Boa sorte na tua cruzada, eu fico por aqui.


24-09-99

11 comentários:

_SecretSmile_ disse...

Especatcular. Nada mais a dizer *

Flashlight disse...

Queria eu arrepender-me desta dor, que não revelo, para que nenhum deus se lembre do meu nome.

marseven disse...

Este grito de alma, que ecoa na prosa sofrida da tua conflitualida emocional,toca profundamente todo o leitor desprevenido.É um cenário espantoso do transfigurado teatro da vida,onde se cruzam e aglutinam
as mais extremadas dicotomias inerentes à luta entre o ego e o círculo espacial que nos delimita a existência.
Retratarmo-nos,aberta e descomplexadamente,questionarmos a amálgama dos nossos sentimentos,é um acto de grande coragem e mérito
Teu texto,Meguinha,merece que eu o analise com mais profundidade.
Sempre contigo e com o mundo!
Um abraço alentejano...rs...rs...

marseven disse...

corrijo:
...conflitualidade...

muneka disse...

abel tanto sofrimento... nao devia ser permitido... mas parabens pela sinceridade, nao e costume

Lampâda Mervelha disse...

Cara muneka, já agora quem é o Abel?

PatanisKa disse...

Mega, se eu tivesse a tua capacidade para por no papel os sentimentos, os afectos e as emoções, decerto q já teria escrito algo parecido a este teu grito azul.
Marseven.....analizar um texto destes?? Para quê??? Está tudo lá...Textos destem n se analizam, sentem-se com a alma e com o coração.
Marco, beijocas

empadinha disse...

Encontrei-te.
E agora??

Marco Neves disse...

Os mortais.. os mortais..

marseven disse...

«pataniska»

...para quê analisar um texto destes?...
Pois estes é que merecem ser lidos,
analisados e revistos,até à exaustão,pela sua bela densidade, pela lição de luta interior,pela capacidade de expressão,por tudo o que nele possamos absorver.
Além do mais,ninguém poderá senti-lo e entendê-lo,de alma e coração, com mais intensidade e rigor,do que eu.Nossa amizade é um pacto de vida,uma aliança inquebrável.
Finalmente,analisar um texto,é dar o crédito do merecimento,é adir-lhe
valoração...jamais,retirar-lhe seja o que for.

Anónimo disse...

Super color scheme, I like it! Keep up the good work. Thanks for sharing this wonderful site with us.
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