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terça-feira, 26 de setembro de 2006

Entre um filamento e outro

Encaixa-me num jogo de luz, daqueles bem foleiros, vendidos numa loja de caras de limão. Servirei de ornamento, uma vez por ano para tua felicidade.

Caramba, esta minha mania de me achar importante. Sou apenas um filamento luminoso, no meu universo de 50 iguais a mim. Eu, por sinal sou vermelha. O meu grande Criador asiático assim o destinou.

- Tu! Vais ser vermelha!

Não faço parte de nenhuma estatística. Ninguém faz estatísticas de quantas lâmpadas se fundem numa árvore, de um 3º esquerdo na periferia da grande cidade. Apenas gosto do sorriso das crianças, e brilham como nós.

Passa a época festiva. Sou enfiada numa caixa de sapatos. O meu universo torna-se escuro, medonho. Viverei tanto do meu reduzido tempo de vida, bem no cantinho, ao fundo do armário. No ano seguinte pode ser que ainda funcione. Isso nem Deus (o meu Criador) saberá.

A festa que te é imposta, por certos valores culturais que eu, na minha pequena (mas justa) significância na tua vida, não consigo entender. Enches a casa de gente a que chamas família, com quem não falas durante 51 semanas. Não consigo entender. Só é bom quando cá estão, porque me deixas ligada o dia todo. E as crianças, ai as crianças…

Preferias que fosse uma lâmpada do teu espelho? Ficar ali, ver-te horas a fio. Naqueles dias em que nada deveria existir, eu ilumino-te, e nunca me agradeces.

Gosto quando acaricias o teu rosto à minha frente. As tuas mãos, engelhadas da água, passeando, sentindo a pele ainda húmida. Sim, és bela, e eu uma lâmpada.

Oiço os teus lamentos, expressos no teu olhar triste. Revives esse passado do que nunca foste. Nunca o serás, apenas passado de ti mesma. Estiveste sempre ausente. Até lá, assim como aqui, agora. Não estás!

Poderia ser a luz da tua cozinha. Ali, cravada no tecto, enclausurada numa caixa metálica, cor de branco electrodoméstico. Sou luz fria, tubular e sem piada.

Entre os vapores dos teus cozinhados dietéticos, o fundamentalismo dos preparados orientais, as manhãs despidas de palavras com os teus bocejos matinais. Sem falar de teres embirrado com os fritos, o mau feitio com que acordas, quando te irritas e trespassas a coitada da laranja. O meu momento de paz, é quando me apagas e sais de casa.

A tua presença, por vezes é insuportável. Sempre com a pressa de qualquer coisa, como se o teu horário estivesse preenchido as 24 horas. Ambas sabemos que não é nada assim.

Mas eu… eu sou apenas uma lâmpada fluorescente. Nem sou das modernaças, poupam um disparate de energia. Vou chatear-te daqui a uns tempos, quando o arrancador falhar. Vais jurar-me de morte e ditas a sentença. Tudo porque comecei a fazer um barulho horrível e irritante.

Eu, como lâmpada que sou, oiço todo o tipo de disparate. Até quando falas sozinha para a televisão. E tanta verborreia mental já ouvi de ti, e nunca te falhei. No dia que falhar… já sei o que me dirás.



- Merda da lâmpada, tinha de se fundir!

Não tenho vontade própria, dizem! Apagas-me quando já não sou necessária. Mas sou a primeira coisa que procuras, quando te sentes completamente às escuras. Nos meus 60 watts, vou ferir por segundos, esses teus olhos, lívidos de paixão.

Tanta vez te iluminei, e tantas mais optaste pelo caminho errado. Fui luz de cortesia no teu primeiro carro. Impressionada com as vezes que abriste as pernas a quase estranhos.

- Espera! Deixa ficar a luz acesa.

Naquele teu ar de ainda jovem, sabias muito bem o que fazias. Olhavas fixamente para mim, como um ponto de referência. Através de mim, expulsavas os teus demónios. No fim de tudo, sorrias. Não para mim, mas para ti.

Ainda hoje o farias assim...

Quis o teu Deus que te fundisses primeiro que eu. No entanto, nunca me passou pela cabeça pensar sequer, que a tua condição era tão igual à minha. Agora atrevo-me a pensar que nasceste já fundida, ou que tens um grande problema de corrente eléctrica. Não sabes funcionar, não funcionas mesmo… é pena, porque quando eu te faltar no escuro, não saberás para onde ir, tal como agora. Enquanto é dia, não me culparás de nada.



Caramba… apesar de tudo, como gosto de ser este filamento incandescente.

6 comentários:

Anónimo disse...

já tinha saudades destes teus passeios ao interior da imaginação. muito bom o texto. original. ;)*

A.

Cereza Maria disse...

A lampada parece uma pessoa! parece a nossa vida.Uns servem para iluminar, outros para serem iluminados.

Tenho andado ausente, mas tu conheces bem a minha opinião sobre o que escreves.

continua.

kiss

Marta disse...

uau está espectacular. Se me ponho no lugar da lampada, caramba as coisas que não devo testemunhar! Da proxima vez vou ter cuidado, e olhar par a cima com desconfiança: ó tu lampada, fecha lá os ouvidos ao que eu vou dizer.. ou os olhos ao que vou fazer... tss ainda bem que as minhas lampadas não falam como a tua.

Boganga disse...

As has been said before, let there be light!

.*.Magia.*. disse...

Opá...quase chorei de emoção!!!!

Também queria ser um filamento assim...não me perguntes porquê...queria porque queria, porque gosto de querer e porque me apetece querer...
Mas atenção, só quero agora! Quando clicar naquela cruz do canto superior direito da tua casa(vulgo, interruptor do hall de entrada do teu blog) já não quero ser filamento, prefiro ser outra coisa qualquer...depois penso no quê...agora estou a curtir este desejo incandescente de ser filamento!!!!

Bom, vou-me apagar daqui

Asta lá vista, lampada mervelha!

JRibeiro disse...

Nos afilamentos das alampadassss
tadinhos tadinhossss
dus amosquitinhosss
nos afilamentos oh yé!

lole lembrei-me!

[]s