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segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Eu Gosto!

Chego a casa. Entro sem fazer ruído. As mãos quentes tocam o mármore frio, desprovido de qualquer rugosidade. Bem sabe como gosto de lhe tocar, enquanto subo, degrau a degrau. Conto-os de forma inconsciente. Apesar de todos os dias me deparar com os mesmos, nunca soube ao certo quantos são. Contei-os em tempos. Esqueci-me, ou algo fez com que me esquecesse. É simples.


Percorri ruas, no meu compasso. O vento com promessa de chuva, oferece-me o cheiro a terra molhada. Forte, intenso, único. Revejo-te em tudo. Acompanhas-me. Embebedas-me em qualquer rua. Prossigo no meu compasso, tropeçando por vezes na calçada irregular.

Agrada-me o vazio, o despojo da presença humana, desnecessária. Por mais que passe por estes recantos, viciei-me há muito em sorrir para estas cores pardas, quase soturnas.

Sento-me nas escadas da igreja. Acendo um cigarro. Preparado para assimilar e consumir toda a crueza da noite. Estes meus pequenos momentos, preenchem-me, revigoram-me. Não somente por mim e para mim. Tento transportá-los para o papel, porque gosto. Gosto muito, gosto de gostar. Gosto do simples e simples que é gostar. Basta que se goste. Porque gosto, com muito gosto! Por mais que me repita, não deixo de gostar. E volto a dizê-lo, gosto! Gosto de cada vez que o escrevo.


Assim como todas as coisas pequenas que me fazem grande. Assim como as minhas fraquezas me tornam forte. Assim como o teu olhar me cega de amor. Assim como a tua voz me torna mudo. Assim como o teu cheiro me faz ter fome. Assim como o mármore me lembra a tua pele nua e fria. Assim como os degraus me lembram outros. Assim como o meu coração me lembra o teu. Assim como o vento que traz majestoso perfume, me lembra o teu respirar.


Assim como o não estares me deixa tão perto, tão dentro de ti, e tu em mim. Tudo isto se desenrola durante os cinco minutos e meio que dura o cigarro.

A verdade é que já não sei onde acabo e tu começas. Já não sei onde começa a névoa que se apodera do fim da rua. Tudo se transforma no que sou, e o que sou em tudo o que me rodeia. Completas-me.


Sejas tu mulher, chuva, encanto, delírio, tarde de Outono, sorriso de Primavera, flor de laranjeira. Sejas tu parte de mim, desse teu mundo e do meu, da terra de cheiro acre, do mar que nos salga a boca e a pele. Sejas tu as notas soltas na eterna melodia, meu devaneio, lirismo de uma tarde morna, a tela que pintas em mim. Sejas tu a causa da queda do meu império, a minha vitória ao raiar de cada dia, o declínio do sol até tocar no mais fundo horizonte. Sejas tu o pequeno momento que não é mais que esta vida.


Quero e porque assim tens de ser, única. Quero e porque assim te sinto, minha. Quero e porque assim te sinto, em mim. Quero, porque querer-te é mais que escrever, mais que qualquer palavra. Emociono-me de cada vez que me olho, vejo-te em mim. Vibro de cada vez que penso o teu nome. Estremeço de cada vez que me abraças com força, e tão forte me sinto.


Agora vou subir pelas ruas, com uma música na cabeça, sinto-me bem. Delicio-me neste sorriso malandro, conspirando enquanto dormes na noite.

Constou-me que gostas de mim…

É engraçado… e não deixa de ser curioso…

Gosto de ti, sabias?

4 comentários:

Boganga disse...

Espero-te no fim de cada caminhada...mas isso já tu sabes.

Morgaine disse...

isto já é assim digamos, cofff.. um bocadito mais pessoal coff cofff... percebes. Como sempre a tua escrita inconfundível e no fim... coff coff eu diria: "também gosto de ti" coff coff. Digo na mesma!!

Bjs

Anónimo disse...

os teus cigarros duram cinco minutos e meio?! fantástico! eu devo ser mesmo uma chaminé... os meus duram pelo menos 1 min...

p.s.: é bom gostarmos assim de alguém. sempre.

;)*

A

Aran disse...

Adorei o texto... e as imagens, que se intercalam nele magnificamente... Gostei!!! Um beijinho grande e inté