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quinta-feira, 1 de junho de 2006

Aviões


A noite alongava-se, lentamente, de uma forma serena. Apesar de já não ser propriamente uma criança, ali estive entretido, embrenhado e esquecendo tudo o resto, num momento tão significativo para mim. É, ao final de tantos anos, que aquele pequeno sabor do momento me sabe tão bem, no presente. Este sabor da lembrança talvez me saiba a mais, devido aos caminhos que entretanto as linhas da vida me designaram. Traçaram-se certos caminhos e neles muitas sensações que ficaram, posteriormente, por explorar. Hoje dou por mim apaixonado por aquele momento, gozando de satisfação pelo que ficou em bruto e por recordar. Acredito que foi agora a altura certa para me relembrar. Não foi opção, simplesmente tinha de o ser. Sinto-me radiante, tal como me senti quando olhei para aquela rua, pela última vez.

Não me lembro de ter arrancado tanta folha de um caderno em tão curto espaço de tempo, se bem que ali o tempo não contava para nada. Nem o tempo, nem ela e muito menos eu.

Fiz daquela janela um posto avançado de todo o meu mundo, mirando as luzes de uma rua de acesso a garagens dos inúmeros prédios, passeios e caixotes do lixo. Um manto de alcatrão envelhecido que acusava o que era ter nascido para ser uma rua de segundo plano. As consciências agitam-se na turba das grandes avenidas, ao ritmo do passar dos dias, uns mais efusivos, outros nem por isso. Naquela rua que não cheguei a ver o seu amanhecer, talvez o mais glorioso e resplandecente de todos, pelo menos para mim... e isso é o que realmente importa.

De uma janela do 2º andar, igual a tantas outras, daquela linha interminável de prédios, debruçava-me do parapeito para a rua. Ouvia qualquer coisa num velhinho walkman da altura em que a cassette reinava. As pilhas cansaram-se, esgotadas até à exaustão. Roguei-lhes uma praga por me deixarem no silêncio. Hoje tenho noção de que foi o melhor que poderia ter acontecido.

Peguei no meu caderno e tentei fazer mais um dos meus bólides de sonho de rodas gigantescas e de linhas fluidas. Rabisco atrás de rabisco, entretinha-me enquanto esperava pela impaciência típica de quando se tem sono. A luz de uma janela mesmo à minha frente desperta-me a atenção. Reparo no movimento dentro daquela habitação, vejo o vulto de alguém. O cortinado não me permitia ser mais que um mero voyeur acidental, mas não menos curioso. A luz que se apaga e a minha atenção dissipa-se ao fim de escassos minutos. Volto ao meu bólide super moderno, hiper desportivo. A impaciência ataca-me lentamente, nota disso são os pontos escuros que distribuo pela carroçaria, eram marcas de balas.

Suspiro por nada em especial, apenas porque ali estava esperando por nada. Para minha surpresa, naquela janela que se tinha apagado, uma rapariga passeava o seu encanto pelo ar da noite. Sentada no parapeito da janela, mostrava-se para uma rua desinteressante e despida de qualquer coisa que nos fizesse parar. Exclamei um “hããã!!” bem audível no meu interior, quanto ao bólide... que raios era essa porcaria?

Continuou ali sentada no parapeito enquanto eu a olhava. Apetecia-me. Não a incomodou, talvez por eu lhe ser indiferente. A mim agradava-me aquela imagem, sendo o resto do mundo insignificante. Não posso negar que a quis naquele momento. Sim, ali mesmo onde ela estava, na sua janela e somente ali.

Não entendo porque o fiz, simplesmente lembrei-me e apeteceu-me fazê-lo. Partilhei com ela o meu gosto por aviões de papel. Captei a sua atenção. Muita revista das Selecções Reader’s Digest desfiz eu em aviões nas escadas do sótão da minha casa. Ali, naquela janela, desfiz mais de metade de um caderno A4 de linhas.

O primeiro avião despenhou-se de forma vertiginosa no passeio mesmo por baixo da minha janela. Elaborei um com mais empenho, até tinha flaps. Voou até ao outro passeio, foi bom ouvir o barulho que fez ao aterrar. Tinha chegado até ela. Olhou fixamente para mim. Parei congelado. Partilhando aquele nosso silêncio absoluto, olhámo-nos. Saiu do parapeito e desapareceu. Produzi mais um avião e fiz dele um último gole que se dá numa bebida de uma noite de bebedeira. À saúde de todos os aviões que construí e peguei fogo nas escadas do meu sótão.


O único voo que fez, acabou em cima de um carro estacionado na rua. Outro avião que cai no alcatrão e não era o meu. Ali estava ela de novo com uma resma de papel. Os dois debruçados nas janelas, frente a frente, numa sessão de aeronáutica experimentalista de uma noite de Verão. Avião atrás de avião, sorriamos que nem uns perdidos. Mais aviões, mais, mais e muito mais! Tanto papel que gastámos e a rua por baixo das janelas alegremente decorada pelos traços brancos dos aviões. Ali ficámos, no nosso fio de tempo.

Despediu-se de mim com um breve aceno e soprou-me um beijo. Eu sorri, estendendo a mão como se o apanhasse no ar, até que a mesma encontrou o meu peito. Fechámos as janelas. Deitei-me numa cama alugada e tanta pergunta que me fiz, fechado naquele quarto. O sono venceu-me de imediato. Hoje, nenhuma das perguntas continua a ter resposta. Não têm de ter, nem tem de haver qualquer tipo de pergunta.

Amanheceu e entretanto acordei. Vesti a roupa para aquele dia, continuei a viagem que estava a fazer. Não olhei pela janela do quarto porque não me queria despedir, nem queria que a rua fosse diferente.

Ainda alegrando os nossos jovens sorrisos, pelo menos enquanto quisermos, eu sei... eu tenho a certeza que os aviões continuam lá.


imagens: Marco Neves

9 comentários:

empadinha disse...

Está bonito. Todos tivemos estes "aviões" na nossa vida e tal como disseste, enquanto quisermos, eles continuam lá... :)

PS: marseven, anda desaparecida?! Um beijinho grande grande para si ;)

Cereza disse...

Estas são as recordações que nos fazem sorrir. Um sorriso inocente, mas afinal tão bem guardada nas nossas memorias.

Morgaine disse...

sim, os aviões vão continuar no mesmo sitio. ELA, sempre que passar naquela rua,olhará para aquela janela e sorrirá, lembrando-se daqueles aviões que tão maliciosamente lhe caíam aos pés. E talvez sorria, perguntando a si própria se no fundo não teria saudades dele e do seu olhar. ELE, também recorda a rua e sempre que olhar o passeio, os aviões vislumbrará. E vai esboçar um sorriso, ao recordar aquele riso, que tanto lhe apetecia numa rua outrora decorada com papel.

O texto é longo, mas depois de ler pela segunda vez entendi que para ser compreendido não podia ser de outro modo. Está muito bem.

Morgaine disse...

A menos que eu o tenha compreendido mal :) Mas foi assim que interpretei.

lua_de_avalon disse...

Saudades!...
Tenho saudades
Desses tempos que lá vão!
Gostei do texto umã joca

Marseven disse...

Marco
Quem foi,quem foi que reconheceu, identificou e localizou, essa tua comediazinha de adolescente?
Ah!Pois,por isso digo que sou tua cúmplice...com muito gosto!
Continua,meu amor!...rs...rs...

«empadinha» gostosa:
Não julgues que te esqueci,minha querida! Nem sempre posso aqui vir.
É que este mar tem outras marés...
outras navegações... sou um oceano de ocupações mil...
Estou muito ocupada com leituras e escrita e tu sabes que leio sempre três ou quatro livros em paralelo.
Tens de ver as duas pilhas que estão à minha espera!
Tenho saudades tuas,querida!
Beijos

empadinha disse...

marseven:
Sei sim :)ainda lhe vou pedir mais uns quantos emprestados para ler nas férias ;)
Beijinhos

Anónimo disse...

vale a pena investir em aviões de papel. vale a pena deixar arder [os sonhos]

boa escolha [a música]

*

A.

Estranha pessoa esta disse...

Ás vezes.
Mas. Só ás vezes.
Não sei se são os aviões de papel, ou por outra o papel de aviões.