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sábado, 9 de dezembro de 2006

|Ver|Da|De| num passeio casual. |Ver|Da|De| na chuva que se fazia sentir.

Num momento de profunda clareza, cheguei a uma conclusão inabalável, a verdade de tudo. Tudo começa pela farsa que a mesma implica. Na verdade, tudo não é mais que uma alegoria. Traz segurança e clareza, mas a verdade é o oposto. Qualidade, realidade, boa fé, representação do real, princípio exacto… a verdade é o pior dos pesadelos.

A verdade é que pouco do que nos é apresentado é verdade. Comemos, consumimos, travamo-nos de razões, o contra, alienado do sistema… e sistematicamente, a contra verdade é perene ao acto e pensamento. A conspiração em volta do que se diz verdade, rende, é produtiva. Aniquila-se o espaço para a ponderação, negro ou branco, nada há para além disso. Se o proibido é verdadeiro, mais errado será não transpor as barreiras.

Apesar da imbecilidade inerente às minhas palavras, a verdade é somente uma. Neste preciso momento, aqui sou o detentor de toda a razão. A verdade é que nem isso me interessa, nem me preocupa o mínimo que seja, o que se encontra fora de mim.

Magoa saber que se é induzido em erro, consumidos, levados no rebanho. Se é atroz a sensação da violência, o uso abusivo, a verdade é que tudo se move por interesse. É um ganho, proveito, vantagem, lucra-se. Os princípios magoam, a mente formatada desde o início, obriga-nos à redenção, à pena capital. Soframos, porque nos dizem para sofrer. Soframos, porque por vezes é a única coisa que sabemos fazer. A verdade, essa, exclusiva e fria, em nada une cada ser, sem que haja algo que interesse.

Tento não humanizar em demasia as relações. Ganham vida, vícios nossos, hábitos de pecado, por muito verdadeiro que seja. A resolução não tem resposta, porque a verdade é que em cada passo pela calçada, mais me sinto a afundar neste dia, tudo piora. O negativismo já não vive em mim, a verdade é que é apenas um pequeno demónio constante em mim. Um entre tantos que tento preservar. A verdade existencial é fortuita, um factor a acrescentar a tudo o resto.

A verdade é que somos bem superiores, apenas na insistência de nos considerarmos uma aberração. De facto, quase é a verdade, mas essa resguarda-nos da decepção constante a que estamos sujeitos. A solidão em si nem é muito má. A indiferença gradual que sinto quando passeio pela rua, não me apaga do mundo. A verdade é que abona na minha identidade. O vazio dos outros que tanto se critica, vive em mim comodamente. Talvez quando vou na corrente, porque simplesmente me agrada ser levado pela turba entorpecida na razão, sem destino.

A verdade não interessa a ninguém. A consciência da mesma muito menos. A mentira, sim essa é verdadeira. Eu próprio não acredito numa única palavra que escrevo, no entanto, a verdade é que nem me importo se acredito.

A sensibilidade de alguns, tão grotesca e rude, na verdade é delicada e encantadora. Na mesma cegueira em que se tecem inverdades, inunda-se o mundo com histórias de encantar. A verdade é mentira, causa-me náuseas, e nem um motivo tenho em concreto, nem tenho nada contra a verdade, pois estaria a mentir.

A verdade é que nada invento, muito menos estou louco. E mesmo que me questione para que serve tudo isto, para que escrevo se nada tenho para aplicar. A verdade é que nada disso continua a ser importante. A verdade é que me encontro sem qualquer peso de consciência, e quase sem noção da mesma. Não me incomoda saber que estou numa farsa pegada em palavras minhas. A verdade mesmo, é que nem as palavras são minhas, uso-as apenas, como todos. Assim como aqueles que se dizem detentores da verdade, aquela verdade absolutista e tecnocrata. A verdade é única e estéril.

Na grande verdade, minto com todo o prazer, porque a mesma é obtusa e reclusa de si. Na verdade, apetecia-me pedir um resgate. Mentindo, convencendo-me de ser portador da única verdade.

A verdade é esta. Começa tal como o início desta frase, e acaba num mero ponto final. A verdade está lá fora, aqui dentro conspira-se na mentira. Essa é verdadeira. A verdade causa-me verdete.

7 comentários:

Anónimo disse...

«É verdade que mentes? Nunca me disseste se mentes a todos por te mentires a ti próprio.

Temes a mentira. Adoras brincar com aquilo que temes.

Tens medo. Estou a perguntar-te. Se os teus medos são menores que os meus. Tudo em mim é pequenino. As minhas mentiras são mentirinhas. São coisas pequeninas. Quando digo que não te amo. Aí está uma mentira pequena, inofensiva capaz de magoar apenas aquela que a disse.»

a.a. in november.morning

=)*

p.s.: e citando f.p. «o poeta é um fingidor» o resto já tu sabes.

Morgaine disse...

A verdade é que poucos, incluindo tu talvez, interpretarão verdadeiramente as linhas com que coseste este texto ou o objecto da mensagem que anda a circular no teu cerébro neste momento. Lá fora vês e escutas, e também pde nem ser verdade. Cá dentro lês e comentas; porque não há de ser verdade? Também quem está realmente interessado em descortinar o véu que conduz à realidade? A verdade muitas vezes dói e a verdade é que, a verdadeira verdade ainda continua fechada na caixa de pandora e continuará por muito mais tempo...

Escrevi com luz suficiente? ;)
Bjs

.*.Magia.*. disse...

São verdades todas as mentiras que leio, por isso faço batota...só assim faz sentido!

Amervelhices Alampágicas

Boganga disse...

Tenho para mim,
que não existe "verdade"
mas sim "verdades".
Tudo depende da conformidade entre pensamento e juízo.
E se esta conformidade não é a mesma para todos os seres humanos, porque implica variabilidade e inconstância, tal não permite a existência de uma só verdade.
A verdade não é real, está apenas na percepção intelectual e racional de cada um.

Aran disse...

A verdade e a mentira... por vezes andam juntas... por outras... uma começa quando a outra acaba, e vice versa... e finalmente... por vezes a mentira é a verdade... ou a verdade é a mentira... quem sabe...
Verdade e mentira... quando, onde, como... à volta da relatividade...

Beijinhos

A estranha disse...

As verdades tal como a boganga as pôs...

São dificeis para todos nós... Talvez por isso sejam tão raras e, às vezes, tão intoleráveis...

Uma verdade, a minha, é preciso ter coragem para pensar na verdade!

Beijos

A. disse...

«Causa náuseas beber impostura.»









Será a verdade um titã-anão...?