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terça-feira, 3 de maio de 2011

|i|maquinário

O sorumbático censor de infortúnios e desavindas memórias, crê na vontade e não nas manhas do gosto. Arrebatador de ossos, mercador de deslocados olhares, condena a alma ao pecado do corpo e bebe-a na compulsividade de um não. Fosse a resposta uma fuga para a mentira, dir-se-ia capaz de engolir o mundo. Capaz de uma proeza, amar a mais expedita das certezas. O amor é um atributo dado a escolher aos homens, diluído entre eles e as praias em que tanta vez partiu para parte incerta. A máquina não.


A máquina regista cada batida, cada segmento do pensar. A máquina pinta a alma de negro. Azul. Vermelho como as letras néon do coração. A máquina insere, processa, procede, regista e exerce. Não promete. A pressão no pescoço, cervicais na tensão do arrepio. Antes arredio, que a máquina não esquece, esquenta, ou melhor que tente, impera.


A máquina volatiliza, relativiza, associa este daqui a um punhado de palavras de acolá. Além, onde muito aquém me fiquei por um olhar, assim meio turvo, meio maquinado. A máquina não credita. Acredita. Esta máquina de laminados sentidos, afiança, fina flor de segredo. Regressa o tempo e não as horas. Esquece o tempo e não as memórias. Rescua o tempo e não a demora.


De uma curvatura invisível, aplicada à língua que não sabe falar. Código dissidente, contabilizado em cavalos vapor, inaudita potência de me transpirar assim, inaudível. A máquina não sabe, ensina. Não acerta, correlaciona. Não instingue, indica. Digo-me capaz de sangrar por uma aparente acalmia. Faço-me coeso, e de tão intrínseco, debito-me em ruído sem imagem. A máquina limpa, reinicia.


O coiote de fibra, indutor do instinto feito mais que à pele, é desde a alma até ao pó. Caminhante cooperante, desconfia dos outros. Outros. Outros ainda os há, mais mecânicos, turbinados, aliciantes inoxidáveis de um reflexo irrepreensível. Enganem-se os mapas, não as estrelas. O salteador de corações do avesso, relojoeiro de um mal bater, descompassa-se no compasso que morreu na espera. Inibidor de males, que da tempestade se recolhe o vento. Inalador adicto daquele suspiro anterior à estocada. A máquina não.


A máquina será sempre a máquina. E eu.

6 comentários:

Vera, a Loira disse...

E por vezes somos todos máquinas...

Patife disse...

Ena. Bravo. O Patife aplaude. ;)

retiro o que disse... disse...

Continuas tu...

Vale sempre pela escrita, e ainda mais pela música que dás às pessoas...

Sim senhor.

Querias um comentário com classe? Não tenho :)

Beijo, no céu da boca*

Nawita disse...

Texto excelente, já partilhei aqui em casa.

Por vezes não me importava de ser uma máquina, tento convencer-me de que sou a maquinista.

S* disse...

Bravo mesmo, também aplaudo. Fantástica analogia com o ser humano.

Primavera disse...

ἀπὸ μηχανῆς θεός "Deus ex machina"

:)*