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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Homens

A noite agarra-a na estranheza que o silêncio traz consigo. Sem outros transeuntes senão ela, as delicadas gotículas de humidade beijam-lhe o rosto. Pálida e soturna, vivendo a ausência de si, sem saber que a sua presença é clamada por outras vozes, noutros ecos, com outros frios.

Em pequenos passos, leves e esquecidos, distancia-se de casa, de outras lembranças. Nada lhe comove o rosto fechado, escondendo de todo o vazio instalado, a pena da sua culpa.

Teve, truncada à crença das danças nas clareiras, um antigo conforto. Nos bosques em que pinta as ruas desertas, as suas vaidades incertas, esquecidas ao espelho, ao reflexo que hoje vê.

Serão os homens grandes tão pequenos como os outros homens, revestidos apenas por todo o ego umbilical. Únicos egoísmos, rompendo ao findar de uma noite, sem gesto que se apresente capaz de um sorriso. Quebram-se em acordes menores, quinquilharias obsoletas de um desafino, definhando carcomido, desajustado ao que poderiam ter sido, homens de mulheres.

A forma como se fazem ouvir, aos gritos tornados surdos, coesos na descrença dos seus nomes, e por outros levianamente ditos. Com a ligeireza de quem salta de inocência, os homens, aqueles homens passageiros. Os homens do seu corpo, ela e os seus escarnecedores, usurpando entre o ventre e os seios. Quedam-se por apeadeiros sem nome, incógnitos marcadores da alma.

Desaparece por aquele beco quase sem luz, como um homem que sai pela porta dos fundos. Não volta. Sem perdão nem sinal de uma lágrima, apenas saliva, sangue e dor.

O seu longo casaco negro protege-a do frio, escondendo todo o seu corpo entre uma malha de vibrante escarlate. Passeia-se à deriva, sem chegar nem partir.

Da minha janela que paira por toda a certeza espertina, a cidade torna-se pequena para mim. Olho-a pela deambulação carregada de tormentos. Vivo-a um pouco mais, na soltura do seu cabelo, sem nada que aparente a dança do murmúrio do enlutado pesar.

Os homens, de pele jactante, nas heresias dos pormenores velados e consentidos, escolhem outros caminhos, escrevem-se por outras linhas. Narcísico sentido, nada mais são que homens. Querem-se duros, de densos braços e peitos de pedra. Límpidos, absolutos, os homens querem-se mais, desejando que o tom agressivo desperte apenas quando a tomam de paixão. Os homens constroem-se, mutilando-a nos pequenos contratempos. Os homens querem-se.

Da noite que resta, sem homens, de tudo o que lhe poderá percorrer pela mente, cuspindo faúlhas na tentativa de deslocar a farpa do coração. Passa ela à minha janela, passa ela pelos homens que dormem justos e descansados. Eu vivo a noite, no seu acre cheiro que tossem as chaminés, condensando-a, comprimindo toda a magia do passeio.

Serão os homens capazes de amar sem medir as acções emotivas e partilhadas. Talvez um dia, uma noite quiçá. Desejava eu ser outro, ter o homem que não este meu. Hoje sou-o. Infame, de pedra fria quebrando vidros de janelas que me olham. Hoje sou eu, a mulher de homens que me soubessem abandonar.

É um soltar de cabelo repetido, um acender de cigarro noutro beco, uma espera dobrada à esquina. Repito-a, atapetando os seus lábios por nomes a mim, hoje homem sem o ser de verdade. Quer o hábito aliar-se ao regresso a casa, escamoteado na preguiça de se deitar noutras camas.

Nas horas vagas, seremos homens, outros tantos sem sabermos que na pele da mulher vivemos. Usando-as, com amor.

14 comentários:

BAD disse...

Tão tão lindo... que me comovi com esta estória.

...prefiro não dizer mais uma palavra


beijo migo

A Túlipa disse...

De uma serenidade beleza este teu canto. Os teus textos... Dizem-me tanto... vou voltar, na esperança de encontrar sempre mais textos como este...

Beijo

maria ostra disse...

OH!
clarividente!

Simone disse...

"Serão os homens grandes tão pequenos como os outros homens, revestidos apenas por todo o ego umbilical"???

Boa questão esta.

****LINDO****

Adoro a tua escrita.

Beijinhos

Aran disse...

A grandeza dos Homens, não está na sua estatura, nem no seu poder... mas sim na grandeza de sua alma...
O ser sensínvel, não é sinal de fraqueza e frieza não desmontra nem sua grandeza, nem o afecto...
E dessa forma mutilam e violam qualquer alma que se preze...
Beijinhos e inté, bom fim de semana!

RC disse...

Parasita.

Xi.

Viola De Lesseps disse...

Toda a beleza do homem está na alma...tudo o que damos de bom aos outros...o nosso amor.

Lindo!!

(******)

Viola

ContorNUS disse...

um amigo perguntavame o que era uma lâmpada mervelha... respondi-lhe que talvez fosse uma lâmpada trocada ;)

obrigada pela partilha de excelentes textos acompanhados de boas sonoridades

mariazinha disse...

a música a envolver as tuas palavras fez-me sentir o bafo frio da noite, essa, e vi-a, a ela, a Mulher. E vi-te, na janela, a olhá-la, entre um cigarro e um suspiro.
(lindo...)
beijos*

lili disse...

que bonita valsa rodopia pela sala, em tempos suspensos nos raios de sol que caem caramelizados.

gosto de te ler. passar por aqui é uma surpresa sempre boa *(:

RedLightSpecial disse...

Lês-me os pensamentos?
As emoções?
As revoltas?
As certezas?
Ler-te hoje foi ler o meu estado de espírito, aquilo que sinto, o que abomino, o que desejo.
Fiquei emocionada... estática perante tão "minhas" palavras, ditas como nunca seria eu capaz de fazer.
Obrigada por isso.

Som do Silêncio disse...

Sempre fascinante a tua escrita...
Leio-te sempre...mas nem sempre comento, hoje apeteceu-me dizer que gostei... (como gosto sempre)

Bjs

A estranha disse...

De tudo que já aqui li... Este texto foi aquele a que não resisti...

Confesso, fiz um copy-paste... Li e reli, é tão teu... Mas "é" tão meu...

Roubei só para não o perder...

Mil beijos

Anónimo disse...

Com o grau elevado de sensibilidade em que me encontro,saio daqui de coração bem apertado,embalado por esta música,que tem de tão serena,como de muito bela**

Não me posso esquecer mais de vir aqui.a tua lâmpada vai finalmente estar no meu vertigens,linkada.e o prazer é todo meu

Beijo**

Vertigo