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quinta-feira, 5 de abril de 2007

Folha, seiva e vida

Estou molhado. Encharcado de tanto molhar as folhas. Os seus cantos, de encantos espantos. Tamanhos feitos, ali clamados em versos, até bem maiores que os próprios autores descritos. As folhas, essas celulósicas amantes, minhas, de todos os mais que as amam, amaram como eu.

Entendo, sim pois, claro é, como a maior das clarividentes verdades, tais como o céu que tudo sustenta. Oh, o ritmo que se instala, e mais, enquanto escrevo, o meu corpo contorce ao ritmo da música.

É verdade, sinto-me encharcado. Até a estes ossos que me suportam. É chuva, impiedosa, que nos deixa em visão de cortina opaca.

Sabe a melodia ser mais generosa, em mãos incertas, em gesto firme e conciso. Tanta linha que termina na mesma margem imaginária da folha, como areal descrito num conto. Contido na imaginação, perene de quem sente a dureza da batuta, do ser pensante que quer ser primário. Irrequieta alma que me amaldiçoa. Sondando lugares mais escuros que a própria sombra, sonhando, morrendo na quietude da fechada lombada, endurecida no tempo.

Fez-se o artífice em mil lágrimas, em devoção pela sua causa, dedicado em horas, à luz do que as suas mãos criaram. Escreveu o poeta, à mesma luz, na constante censura que o calou. Tanta vez pensei em lamber a tinta azul, castrante, da força que me cala. Servir-me do sangue, para escrever amores que nunca vislumbrei, por tudo o que sou.

Estampo-me como selo de carta, marca de água em papel oficioso. Cheira-me a estranha lavanda, arrumada em saquetas, mesmo por baixo dos manuscritos esquecidos na gaveta dos sonhos pensados. Não foi mais longe que a vontade do papel. Este papel… este papel que tanto amo. Respira-me. Lê-me em toda a sua atenção de secar cada letra. Consinto um eterno amor, bem mais que etéreo sentimentalismo à flor madura da pele. Deitado, desnudado, convencido que não haverá lugar melhor que este. Continuarei a existir, até que acabe a folha.

Estou molhado. Sem saudade da secura a que a espera me submeteu. Abri-me em fissuras, gretas que nem sabia como sarar. Estéreis melodias que tanto trauteei sem sentido. A fome contrastante com o campo. O campo com os meus olhos. Os olhos com o que não vejo. Escondo o receio da chuva, em palavras ao acaso, pouco pensadas. Move-se um pouco mais para a esquerda, esse lado bom de sentir. Agradado, o sol despontado na beleza oferecida por melhores mãos. Finos dedos, calcando a lisa pele, manchada por gotículas perfumadas. Regozijo em harmonia com o reflexo, na fonte, nessa que me cria.

Acabando, sem pressa de correr para o fim, apago a vela que me deu forma. Adormeço no leito de mais ser.

5 comentários:

Boganga disse...

Essa incrível seiva de vida que a tua alma contém :)

Morgaine disse...

É tão parecido como o que descreves, aquele sentimento que tenho pelas minhas folhas de papel.. Tão parecido...

.*.Magia.*. disse...

...e ao acordar, uma nova folha!

Saudações Cheerianas e Mágicas

nena disse...

tanto me dou
que nada sobrei
tanto me sou
que sequei.

(as tuas dores são as melhores palavras, as tuas palavras são o meu melhor consolo,se perdesse as 2 mãos, falá-las-ía..(ás palavras)escorrer entre os teus dedos macios)

A. disse...

...cheiras a luz. a vida. derreto.

fecho os olhos. sinto.

sentindo que existes p'ra lá dos desvarios do (teu) concupiscente olfacto...







toc toc toc___________M____


...de volta. sempre. beijo.