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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

melena|mentos

Não sei. Quando a continuidade me parece mais estranha que uma aparente acalmia do vento, dou por mim a repetir-me. Nos gestos. Nos gostos. Nas lembranças. Não sei. Quando sou obrigado a comprar outra marca de cigarros, porque a máquina continua a embirrar comigo sempre que tento comprar mais de três maços. Não sei. Quando vou comprar um produto para o cabelo, pensando que tudo se resume a entrar, escolher, pagar e sair. Não. Antes de tudo, minam a paciência com um desenrolar de perguntas, como se o historial do meu cabelo fosse importante para o mundo, e parvo de mim, que me distraio com o generoso decote diante dos meus olhos. Não que haja grande razão para ficar siderado, distraio-me apenas. Começo a unir as pequenas sardas da sua pele, sobressaindo um pequeno desenho mal engendrado. Não sei. Aborreço-me e acabo a conversa de forma triste. Uso Head & Shoulders porque gosto do efeito mentol em certas zonas do meu corpo. Nada mais a declarar. Pago e ganho um desconto para vernizes e escovas para o cabelo. Encolho os ombros. De verniz só os conheço para retoques em motores eléctricos, ou quando os roubava à mãe, para terminar as pinturas secretas debaixo da cama. Não sei. Sinto que existe sempre um tanto de “quê”, de mãos dadas com um contorcido “hã”. Em certos momentos, aqueles que anteriormente apontei. Já cansado de pontuações, parágrafos, entusiasmos e enfadonhos serões, provo a noite agradável de Dezembro, parecendo-me Primavera. Não sei. Dir-me-ia morno, na linguagem corporal de um bom malandro. Crónico desvio por alcançar a madrugada, a passos largos, que não a quero de mansinho. Não sei. Não sei mentir da melhor maneira. Parte de mim deseja que rompa, outra tanta que enterre. A mim. A mim, a outra parte que sou. Não sei. Quando nem sempre me apercebo de como o tempo decorre, e na ausência, a estirpe chamada de silêncio, nada me dá em troca. Somente quando compro um frango e me dão a escolher entre molho de óleo ou molho de óleo levemente picante. Não sei. Quando a perniciosa vontade de rasgar toda e qualquer boa vontade, estrafego encardido nos lábios frios de um beco, é uma benção aos olhos ditos do enxergo. Uma vez por mês, regar a alma como em gesto pagão de oferenda à terra. Rebolar. Esgravatar. Sacudir as mãos e limpá-las à ganga, fibra de uma paixão desmesurada pela terra. Não sei. Tenho saudades do frio. De olhar para as roseiras, orgulhoso, pelos seus mais de dois metros de altura. Aguentem-se. Cresçam. Façam-se maiores que o meu próprio querer. Não sei. Quando tudo se resume a ouvir uma música. Repetida. Repetindo-me. Repetindo-a, sendo já presente neste meu gosto. Ao sol, eu, a cigarrilha, os óculos escuros. A Ginger agradece. Arreganha a dentadura devido ao fumo, abana a cauda pela companhia. Não sei. O mundo fica mais simples, pintalgado como a graça do seu focinho e a ternura dos seus olhos. Por entre os ramos despidos, um suspiro a dois. O sol aquece. Pois é. O sol aquece. Não sei. Acabo sempre por me comover nos pequenos nadas, passando sempre enviesado ao tempo já passado. É nascer-se gémeo de si mesmo, escondendo no fundo do poço, no tanque onde fazia das folhas da nespereira os trirremes da imaginação. Quando um dia souber escrever memórias, talvez caia na realidade e me sinta mortal novamente. Não sei. Talvez um dia me faça entender, sem que me estenda, muito menos me absolva de culpas pela teimosia de não me dar por vencido. Encolho os ombros, e de uma vez só, espreguiço-me por todo o pecado de não me entediar pelas noites findadas nestas manhãs. Não sei. Quando só algumas coisas sei, soltando o cabelo para a luz, demorando toda uma vida a aprender a não tropeçar nos próprios nós, que de enredos já habituei a alma. Não sei. O óleo até é bom.

12 comentários:

Bé David disse...

Tu...
tu...
e mais tu...

Nem tu o dirias melhor!

Em plena transparência...

Estás todo aí!

...

Qual óleo? :D

Bé|jo*

A Merceeira disse...

"Quando um dia souber escrever memórias"
e no entanto elas aqui estão,
no presente
de cada instante passado...
em cada fio de cabelo.

O óleo é bom sim. Eu sei :)*

Anónimo disse...

Se se conseguisse ao menos ler o que escreves...

A Minha Essência disse...

Pequenas rotinas... pequenos gestos que nos ficam para todo o sempre...

Beijo

MissBlueBuble disse...

Tu não sabes...eu também não.

retiro o que disse... disse...

É orgasmo o todo Teu. Tudo em ti é... Simples. Porém... completo.


É isso. Não sei.

Deixo.*

Dark angel disse...

" O óleo até é bom " - este "até" revela muito. Porque não é pleno.

Não sabes; saber é enfadonho. Não saber é ter sempre a chama de lá chegar, sem a certeza de o conseguir - nunca consomes o mesmo ar. É bom, não é?
A simplicidade é sempre o melhor...

Beijinho.
T´mv :)*

Patrícia disse...

Estive aqui*

Táxi Pluvioso disse...

Garnier bate Head & Shoulders no momento do engate, e para os momentos calmos Franck Provost.

Bom Natal

Vera, a Fera disse...

Eu acho que em algum Dzembro, em alguma noite por aí todos passamos por esse "Não sei".

Sofia disse...

Beijinho, beijinho, beijinho de Feliz Natal :-)
Sofia

MissGummyBear disse...

Olá querido Lampadâ :b
Chegou sim! Vão trazer-me amanhã (chegou hoje à minha morada universitária e eu já estou na casa dos pais :b). Estou mortinha por ver. Prometo que assim que o tiver nas mãos, posto sobre ele :b
Beijinho *