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terça-feira, 14 de setembro de 2010

traço esguio

Nunca se pensa naquela sombra, no exacto ponto onde desejaria ver-se luz, o ponto de fuga. Um desembaraço, qualquer resquício de pele seca, enxuta de pesadelos. Diz-me, voz que amarga, traço de lembrança, trago maldito do meu sangue, diz-me algo em poucas linhas, em curtas palavras, de nesgas e frestas de esperança.

Este, após anos de solidão, preso aos pés de quem se fez maior que o sonho. Deste ponto, negra qualidade tornada plena, adocicando-se o pesadelo de esperar na perfeição o limite entre o claro e o escuro. Prontificam-se, ao império a que tanto se quer ver atrás das costas, os sonhos absurdos de se desejar noutra pele, em voos proíbido a quem é Noite.

Absolvo-me de pecados e olho-te. Neste instante de traço esguio, momento desenvolto entre a calma de quem espera e a incerteza de quem desespera. Calma. Beija-me o mais frio da boca. Calma. Deixa-me dissimular o sorriso que me prende ao mundo. Calma. Jaz entre a agudeza das palavras, gélida palidez dos dias deixados ao sabor do ocaso. Até ao fim, sem princípio algum para perdurar nas nossas memórias.

Agarra-me o cabelo e chora-me por este peito, até me crivares de um gosto sentido, o terno cravar de unhas na carne. Sempre de pensei clarividente, pois em mim pouco habita da luz que nos viu nascer. Calma. Tez de segura vontade, nas manhas de este ser que apenas vagueia por estas veias pejadas de madrugadas.

Sabe o silêncio falar-me. Sabes tu calar-me entre dentes, causando-me a maior das revoltas e deixando-me sem sentido. Tranfigurando a alma ao espelho que tens entre mãos. Ousa, faz-me fugir. E assim, espartilhar a projecção dos meus rostos, esquadrinhar apenas o que penso saber conhecer, a mim.

Eu crio. Tu matas. Eu digo. Tu feres. Eu morro. Tu aconteces. Eu renasço. Tu tocas. Eu mostro. Tu... dás-me sentido. Perdendo-se mais um pouco de nós, na noção do gastos que estamos. Tu crias. Eu firo. Tu dizes. Eu mato. Tu renasces. Eu aconteço. Perde-se um pouco mais do antes, esperando ouvir-te em melodia, num assobio, remetendo-me para este presente, aqui.

Desengane-se a vontade, despejem-se os bolsos de pesos dos outros. Mergulhem os lábios nos beijos deixados para outra altura. Quer-se o sonho, obtém-se a vontade. Ilusório, escrever-te entre sombras, sempre a uma só mão, não faz de ti metade que me falta. És este grito. Hei-de te encerrar entre os meus ossos. Sempre, para nunca.



12 comentários:

Caia disse...

Temos poeta! :D

Luiza Maciel Nogueira disse...

teus encontros são apaixonantes, apaixonado

beijos

Vera, a Loira disse...

"Tu... dás-me sentido." Gostei.

A Minha Essência disse...

O nunca não se desvane-se nesse desejo inconstante?

Beijo

A Merceeira disse...

Sombras...elas significam apenas que há luz em algum lugar :))

*

not.real disse...

Little lies
Little lies
Making up tragedies
Nothing is as it seems
Who cares what is real?
Little lies
Little lies
Only to entertain
The message is the same for those who believe


Little Lies
Little lies
Nothing is what it seems



|pequenas| mentiras, nada mais

Estranha pessoa esta disse...

| |

Sofia disse...

Intenso:)

Margarida disse...

Simplesmente fantástico este teu post! Adoro ler-te!

Quanto a mim... Hoje, não me sinto dona de mim ou da minha alma... Melhores dias virão :)

Beijinho

Ás de Copas disse...

Ás[de]fix[i]ar-me

Ás de fixar-me

Asfixiar-me

Asfixia

...

Lua Nova disse...

Ler-te, pra mim, é um exercício de profunda reflexão, entre sentidos e metáforas, adentrando caminhos que ora se estreitam em sombrios becos, ora se estemdem em alamedas... tuas sombras buscam a luz e tua luz brinca com as sombras, desafiando a escuridão.
" Agarra-me o cabelo e chora-me por este peito, até me crivares de um gosto sentido, o terno cravar de unhas na carne. Sempre te pensei clarividente, pois em mim pouco habita da luz que nos viu nascer."
Merece uma, duas, várias leituras, pois a cada uma, uma nova percepção.
Denso, sinuoso, desafiador e belo.
Beijokas.
Seguindo...

farfalla disse...

http://www.youtube.com/watch?v=EBAzlNJonO8

Baci*