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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

|n|ós |d|e |a|reia

Com a graça de quem desenha na areia, rabiscava uns traços semelhantes à sua face. Aquele gesto sem ser esquecido, encadeado pela lógica do costume passeio na praia deserta, sem fim à vista da sua semelhança com os raios de sol.

Coubera ela em todo um rasgado sorriso, soubera eu fazê-la mais extensa que o mar. Sem optar pelo silêncio, a ausência de todas as palavras não lhe calavam a beleza. Sim, uma sereia abandonada na livre vontade do pensamento. Deixava-se ir pela corrente salgada das emoções, sem nunca equacionar a probabilidade da chuva encharcar todo o areal. Saber-lhe-ia sempre bem, sem que a incerteza lhe corroesse o gosto.

Há solturas, fitas vermelhas esvoaçando entre os seus cabelos. Os gritos de felicidade embalados nas ondas, escrevendo na areia as tantas palavras que nem o coração sabe dizer. Sente. Sente como quem vive.

Meu beijo doce de mar salgado, calor que sustenta o coração alado. É nosso... todo este tempo, mesmo que a tempestade assuste os fracos. Flamejante, intenso e inaudito, o encrespar dos corpos na turbulência das águas em recônditos lugares, tão mais fundos que a própria vontade.

As mãos em concílio, em singular nó, constroem o árduo caminho do desejo. Saboreiam a plenitude do tempo cerrado, pintado a azeviche carregado, na veemente força da colisão entre o mar e a terra. Este espesso sentido que se me injecta nas veias, dilatam-se em devaneios, em conluios tempestuosos de prazer. Será esta sôfrega paixão aliada do dominante temporal. Viciam-se as ondas no embate contra os rochedos, espumando este querer por todos os seus recantos.

Martiriza-se o corpo em chicotadas de pétalas carmim, aos meus olhos que enegrecem com a noite, esperando a diáfana mão que me enleva a outros céus. O sol da meia noite desperta os amantes, no pesponto dado nas mãos que os cosem. São puras esperas, maiores suspiros do bafo quente das bocas que se amam, nas salivas misturadas, nos fluidos que escorrem como um périplo pelo seu corpo.

Nada se esgota, mesmo sendo a finidade do corpo que envelhece, por vezes, como um castigo que se tem. Merecendo cada ruga que me surja, chamá-la-ei de escrita empírica, como cada palavra riscada no areal. Cada singular marca que o mar leva com a sua língua, darei o mesmo nome de quando toda ela me lambe a pele.

Serei mais um nada, apenas este algo tão forte, tão mesmo que o coração sofre por se sentir tão analfabeto. Sinto, sei como a sinto. Toda a manhã desperta em mim, resguardado entre o sol e as nuvens dominantes do horizonte. E a noite aliada à lua, não me querem a dormir num descanso de como alguém que se esqueceu de viver.

Quedo-me entre o respirar de mansinho e o sorriso. Emana o corpo um odor a saudade, na simples espera de um pequeno minuto. A vontade anseia pela entrega, a pele enregela com vontade de fundir-se em lava. Os meus olhos sorriem no choro por sabê-la a terra e mar. A minha única e verdadeira dor é fustigar todo quem sou no todo que ela é. Só assim, em maior dor me quero.

11 comentários:

Bé David disse...

Quedo-me entre o sorriso e o respirar...na urgência de um abraço e de um reencontro todos os dias desejado..
Tudo o que somos... e o que seremos... para sempre riscado no areal dos corações...
Tu e eu...
Eu e tu..
Não seremos mais um nada...
Seremos tudo!

farfalla disse...

"Sente como quem vive"

Escreves o que vives e sentes de uma maneira bela...

_baci_

Aran disse...

...é por vezes chama por nós, essa estranha força, esse estranho amor...

Não entendi muito bem o teu comentário... "e gastaste"?????

Gostei, jinhos

Sorrisos em Alta disse...

Parabéns pela originalidade do blog!

b disse...

Belo o sofrer, que assim te leva a escrever. Continua, não pares, pois tudo passa, mesmo que volte...:o)

mariazinha disse...

"A vontade anseia pela entrega..."
pois...
como dizia o grande António...
invariavelmente...
a culpa é da vontade!

;)*

blueminerva disse...

Leio e releio e deixo-me embalar pelos sons do texto.
Começam a faltar-me as palavras para qualificar a tua escrita... Magnífico!
Um abraço

Tainha disse...

lindo e mervelho!

b disse...

Espero que não te importes, é uma especie de elogio, não é mesmo uma forma de elogio, "linkei-te" no meu blogue, gosto de poder dar sugestões que acho valerem a pena!

Resta-me dar também os parabéns à "tua" bé, os vossos textos são no minímo, inspiradores, continuem...por favor!

M. disse...

Não há outro mar igual ao teu e dela.

Maria Ostra disse...

És um tempo fora do tempo... e eu gosto de cá vir por isso.
Louco e sonhador e louco e sonhador e louco e sonhador e
s
o
n
h
a
d
o
r
!
:)))))))))