Enganemo-nos por qualquer coisa, no instante que não seja um motivo que nos leve a pensar. Enganemo-nos como as miragens, sem que exista uma secura a toldar-nos em sede. Enganemo-nos como quem desdenha um passado, sem saber de futuros e, mesmo que errado, este presente nos seja em veneno gratuito. Enganemo-nos em vislumbres, entre sombras, em meio tom, em pouca água afogar-nos. Exageremos em conluio, no maldito seja entre os homens, existir tão ruim peça assim. Enganemo-nos nas circunstâncias, circunscritos ao sacrifício de não se servir de mão beijada, toda a alma que peca em não ter pejo. Sem promessas, nem rumores de que amanhã o sol nasça. Talvez uma ténue vontade de morrer, no exagero da noite calma. Atordoar o sentido, sem entender a vontade, enganemo-nos de uma só vez, entre tantos enganos mais. Se não me engano, talvez por me olhar ao espelho, é por não me saber conter entre as palavras. E elas são pessoas. E elas são carne. E elas são coisas tão estranhamente entranhadas em mim. Enganemo-nos, em plural, porque de solidão só conheço a lua. De tua nada tem, e de minha, pasme-se, somente mentir-lhe à sombra do teu abraço. Enganemo-nos nas más horas, porque já é tarde. Demais. Demais. De mais, um enganoso olhar para o espelho. E vejo pessoas. E vejo coisas. E vejo palavras. Demais.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
talvez, o dia
Talvez escolher nem fosse o caso
sendo o escolhido, o pior dos caminhos
talvez nem um pouco de mim se calasse
se na fome, apenas visse a artimanha da gula
talvez nem me tornasse brando, tampouco
à permissão da dureza me imperar
Talvez nem fosse a pior das coisas
dúvidas alimentadas à mão de um pobre
talvez a sede não fosse tão espinhosa
se o sentido fosse dado ao erro de sentir
talvez me perguntasse, com tempo, ao longe, silenciado
como é possível subjugar o feitio ao feitiço
Talvez curvar-me um pouco mais à dor
se não me entendo senão dar-me em alegria
talvez parecesse que esta, assim, me faz em encantos
quando é um beijo que me apaga o dia
talvez se responda, de firme abraço, até ao peito
sem que as mãos se segurem, de tão unidas
Talvez nem sobreviva o dia, à noite
se na luz se escondem todas as sombras
talvez disposto, entre o céu e a terra
descanse um horizonte que não me saiba finito
talvez um pouco mais lesto, um tanto mais calmo
quando todas as estradas possuem o mesmo destino
Talvez se faça a confusão à vida, ao caminho
quando se acha um sentido contraditório
talvez respirar mate mais depressa
que outros venenos de sentir-me espesso
talvez lograr, padecer de uma culpa consentida
se entre os lábios, não mais saber morar escondido
Talvez suja, a parca mácula da derrota
do reflexo, o flagelo constante de quem se pensa
talvez nem o gume corte a direito
na linha, junto ao corpo estranho que nos alimenta
talvez parar seja um fechar de olhos
quando abri-los é demais para a vida
terça-feira, 7 de maio de 2013
há-de passar
Alguma
coisa há-de passar
como
crivos na almofada
de
uma noite não passada
sem
ser dada ao acaso
justifica-se
plena, entre lábios
alguma
coisa há-de passar
De
quando em vez, até me sinto
não
dado a meias medidas
à
sombra te clamo, estendida
num
recanto meu te encontro, faço minha
esta
vontade de me querer mais fundo em ti
porque
alguma coisa há-de passar
Passado
seria, contido a pouco
no
tanto que me escrevo a frio
e
ao calor, consentindo aos olhos
revelem
o que mais contenho em mim
um
pouco calado, um tanto surdo
em
que alguma coisa há-de passar
Passa-me
algo, entre espessuras
sentir,
singular, esta vontade
uma
mão que me escapa, a monte
na
soltura, no enlevo de bater em ti
sem
nada me fazer, parar de sentir
entre
ossos, estes, por entre te escrevo
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