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terça-feira, 7 de maio de 2013

há-de passar


Alguma coisa há-de passar
como crivos na almofada
de uma noite não passada
sem ser dada ao acaso
justifica-se plena, entre lábios
alguma coisa há-de passar

De quando em vez, até me sinto
não dado a meias medidas
à sombra te clamo, estendida
num recanto meu te encontro, faço minha
esta vontade de me querer mais fundo em ti
porque alguma coisa há-de passar

Passado seria, contido a pouco
no tanto que me escrevo a frio
e ao calor, consentindo aos olhos
revelem o que mais contenho em mim
um pouco calado, um tanto surdo
em que alguma coisa há-de passar

Passa-me algo, entre espessuras
sentir, singular, esta vontade
uma mão que me escapa, a monte
na soltura, no enlevo de bater em ti
sem nada me fazer, parar de sentir
entre ossos, estes, por entre te escrevo

sexta-feira, 12 de abril de 2013

| p a l a v r a |


Hoje não disse a palavra
E se pensá-la, seria dizê-la
Sem a querer mais perto
Nem senti-la

De minha, nada tem
Senão metade de quem
De outra parte que me é
À margem, nos lábios de outrem

De sibilar, nem a vontade
Nem amaldiçoar o verbo
Só um rosto de silvo, mas rouco
Despertado me sinto pouco

Houvesse unguentos, dormências
Curas para a morte de me calar
E não me fazer escasso ao dia
Sem a importância de me dar ao sol

Dizer-me, a medo de dormir
Concentrado num filamento em ala
Nem esta luz tão inimiga me diz
Se me resolvo, riscando quem sou

Falar-me em silêncios
Ser absoluto, sem instantes
No eterno pesar de transbordar
Nesta palavra contida

Inimiga, esperançosa
Madrugada sem pele, na minha
Farto-me da palavra, de mim
Por senti-la mais que a língua

Hoje não disse a palavra
Se, fazê-la, é ser maior
Sem a querer mais perto
Quando queimá-la é amor

domingo, 9 de dezembro de 2012

"spanish letters"

São memórias mais distantes que o tempo. É a distância uma medida para a saudade. É o brilho a causa da sombra que tanto procuro. Embora longe, mesmo sem saber como, custa-me vestir o hábito deste Inverno. Quando assim chove, aqui dentro, nada mais transborda senão um velho poço de desejo. E verte. E ver-te. Embora ausente, sempre estive. Embora consciente, sempre me esqueci. Sempre.