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sexta-feira, 12 de abril de 2013

| p a l a v r a |


Hoje não disse a palavra
E se pensá-la, seria dizê-la
Sem a querer mais perto
Nem senti-la

De minha, nada tem
Senão metade de quem
De outra parte que me é
À margem, nos lábios de outrem

De sibilar, nem a vontade
Nem amaldiçoar o verbo
Só um rosto de silvo, mas rouco
Despertado me sinto pouco

Houvesse unguentos, dormências
Curas para a morte de me calar
E não me fazer escasso ao dia
Sem a importância de me dar ao sol

Dizer-me, a medo de dormir
Concentrado num filamento em ala
Nem esta luz tão inimiga me diz
Se me resolvo, riscando quem sou

Falar-me em silêncios
Ser absoluto, sem instantes
No eterno pesar de transbordar
Nesta palavra contida

Inimiga, esperançosa
Madrugada sem pele, na minha
Farto-me da palavra, de mim
Por senti-la mais que a língua

Hoje não disse a palavra
Se, fazê-la, é ser maior
Sem a querer mais perto
Quando queimá-la é amor

domingo, 9 de dezembro de 2012

"spanish letters"

São memórias mais distantes que o tempo. É a distância uma medida para a saudade. É o brilho a causa da sombra que tanto procuro. Embora longe, mesmo sem saber como, custa-me vestir o hábito deste Inverno. Quando assim chove, aqui dentro, nada mais transborda senão um velho poço de desejo. E verte. E ver-te. Embora ausente, sempre estive. Embora consciente, sempre me esqueci. Sempre.




sábado, 7 de janeiro de 2012

|des|entendido

Bem que poderia sujeitar-me a um par de considerações menos felizes, permitindo à vez, a cada má lembrança, uma espécie de inquisição da alma, mas não. O amargor não seria mais que um disparo acidental, trespassando qualquer lembrança emocional. Guardaria de cada momento, apenas e só, um descontextualizado enrugar de inexpressiva dor. Não tenho muito de gratuitidade. Ao invés, faço-me mais à linha, ao suspirar sem querer, mesmo sem haver uma resposta para tal, ou então, sorrir ainda que de copo vazio.

As tremuras, quando nem as mãos se seguram, vacilantes, apontam na direcção da rua. Tremo os pés de forma alternada, descompassada, descomprimindo o nervosismo que reside em mim. É quase como arrastar um morto aqui dentro. Está morto e, para além da condição, é chato.

Seria um homem do mundo, caso não me faltassem as palavras do desespero. A falta é um âmago sem fundo. A carência, uma miragem da constante insatisfação. Em cada estilhaço de tempo, mais um pouco de mim teima em querer-se colado ao próximo. Seria um mundo diferente, se este homem não o tornasse demasiado seu. Eu sei, sou-o.

Único. Devoluto. Egoísta. No antagonismo que o ciclo de vinte e quatros horas possui, é sempre quando deveria parar que me encerro. Entre o que guardo no peito e a mão que me tinge a alma em palavras, reconheço-me no silêncio dos bichos. Distante. Parcimonioso. Redutor. É um estado lato, recheado de vícios, dos quais nem sei elaborar uma razão convincente para os findar.

Seria agora que deveria sujeitar-me a uma péssima memória, um pesadelo revivido, uma pastosa lembrança. Descompensando o corpo, porque ele não sofre comigo, sem pensar que o equilíbrio é fundamental, mas não. O melhor que consigo é sofrer nos olhos que me ardem, nos pés descalços em contacto com o chão frio, na fome de quem não se sente completo.

É como quem diz desdenhando, à excepção de hoje, é sempre.