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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

insomnia|post|processing

É a partir desta hora, na avarenta partilha que a insónia consome o sono. É a espera, aguardada na sabida rota das noites perdidas. Sente-a, sorvida no vagar, despejada de algum dever. Cheira-a, com o olfacto de quem não ousa saber que perfume é. Sim, é uma coragem despida, e de tão só, arrepia a nudez dos que ainda dormem na vida.

É a partir desta hora, sem retorno ou calor que alivie os ossos, a têmpera julgada à luz, parece brincar nas desenvoltas sombras de pensar. E tudo assim, tão calmo, solene, taciturno, engrandece o reencontro com essas suaves mãos que me fizeram sentir.

É a partir desta hora, que nem louco me desejo de fora para dentro. Reversiva lábia de me saber intransponível, truncado à partilha. Gotejante moléstia ao mundo, que entre a clareza das linhas, não existe talha mais certa para esta coisa-pessoa. Perdoe-se então o pequeno desvio, de preferência concedido pelo rumorejante cigarro entre estes lábios calados.

É a partir desta hora que cada coisa começa a fazer sentido, já o sabia. E fico-me por olhar, por estes mesmos olhos que nunca vi. Olhar sentido, pensado, revolvido, esquadrinhado, e tão mais bela me pareces a cada hora passada. Indócil sorriso rasgado e roubado aos lábios. Desse cheiro teu, que tens e não o guarda a madrugada até mim, na certa corrida contra o dia. É tecer a fuga para sentir-te em mim, de tão sós que somos.

É a partir desta hora, quando me deito em ti, e de mim deixar de saber, apenas sei saber de nós. É a partir desta hora, sempre a partir daqui.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

- a q u i -

Não me lembras do tempo, nem te dás ao espaço. Não te esqueces das mãos, mas esqueceu-te o jeito. E depois, como em qualquer esmorecer de sorriso, mordes os lábios como se o regresso fosse o maior dos feitos. De algo afeiçoado ao corpo franzino de uma memória, à esguia lembrança de como a língua sabia de cor a pele, essa que levaste para muito além do que significa a distância, a um nunca mais crer num mar salgado.

Enxutas as lágrimas, arrumas a casa, e dispersas por ti um todo tom melancólico. Lesta é a trama, que ao drama não se dá confiança. Não te lembras do tempo, nem me dás espaço a esquecer. Não te esqueces quem sou, e esse, já nem o sou. Porque escrever-te é lembrar-me de te apagar mais um pouco, e só assim saber lembrar-me.

Saberia iludir cada curva a que nos destinámos, ao caminho dizer ser o errado, à clareza fazê-la turva como os olhos, quando o desvio foi inevitável. É assim, uma cicatriz carregada na pele, e de cada vez que se sente, mais curto fica o dia.

Mais que um deserto, é por esta mão oferecida à mesma extensão da alma, cuspir um nome para o chão, e aí renascer algo na próxima estação. Não te lembras que tempo fomos, sem o presente fazer parte, existes. E perdura, apenas em mim, o sempre não querer estradas sabidas, contadas noutras estórias. Mais que tudo, não são minhas, nem tuas.

Não cabemos, acredita. Não nos sabem, nem ousam sequer a tentar imaginar. Não sabem que o não lembrar é puramente uma articulação da pausa, sendo a negação a maior das armas. Não servimos para menos que um todo, e tudo corre bem à frente dos olhos.

Não te faças do horizonte para cá, que a sombra fica sempre atrás das costas quando partimos. E foi aqui, que no fim, tudo começou por terminar.

domingo, 10 de julho de 2011

a|nuvem

imagem: Marco Neves (C)


Havia uma nuvem que amava uma antena. Como quem sorri a um desconhecido, a um destino de nunca chegar, e se o tempo for aliado, ser-se parte integrante de uma história na história de outro. Não se guardava aos sonhos apenas, a nuvem que na espera, não reconhece o sinal, nem o embargo à continuidade dos dias. Havia sim, uma nuvem que sentia, e sonhadora, prendeu o seu olhar à estaticidade de alguém que apanhava do ar. Na frequência comum a tantos telhados, no canal destinado, falham as bandas definidas e passa-se à finitude de um gesto.

Havia uma nuvem que queria fugir para bem longe dali. Ser chuva noutros dias. Fazer sombra por outros campos. Transformar-se no sonho de outros olhos. Tingir paredes ainda de tinta fresca. Molhar mãos e rostos, escorrer por quem não tem medo da entrega. Sem ser o mergulho no desconhecido, é olhar bem para cima e povoar o coração de uma certa alegria que não se compra nem se inveja. Nasce e morre.

Havia uma nuvem que sabia quem era, e na sua condensação, nem uma lágrima verteu, porque um adeus não tem de deixar marcas ou feridas. Na sua premente transformação, beijou a antena, sorriu e fez-se em luz, dissipando qualquer dúvida que houvesse na sua intenção de exisitr. E bonita que era.