...

...

domingo, 10 de julho de 2011

a|nuvem

imagem: Marco Neves (C)


Havia uma nuvem que amava uma antena. Como quem sorri a um desconhecido, a um destino de nunca chegar, e se o tempo for aliado, ser-se parte integrante de uma história na história de outro. Não se guardava aos sonhos apenas, a nuvem que na espera, não reconhece o sinal, nem o embargo à continuidade dos dias. Havia sim, uma nuvem que sentia, e sonhadora, prendeu o seu olhar à estaticidade de alguém que apanhava do ar. Na frequência comum a tantos telhados, no canal destinado, falham as bandas definidas e passa-se à finitude de um gesto.

Havia uma nuvem que queria fugir para bem longe dali. Ser chuva noutros dias. Fazer sombra por outros campos. Transformar-se no sonho de outros olhos. Tingir paredes ainda de tinta fresca. Molhar mãos e rostos, escorrer por quem não tem medo da entrega. Sem ser o mergulho no desconhecido, é olhar bem para cima e povoar o coração de uma certa alegria que não se compra nem se inveja. Nasce e morre.

Havia uma nuvem que sabia quem era, e na sua condensação, nem uma lágrima verteu, porque um adeus não tem de deixar marcas ou feridas. Na sua premente transformação, beijou a antena, sorriu e fez-se em luz, dissipando qualquer dúvida que houvesse na sua intenção de exisitr. E bonita que era.

terça-feira, 28 de junho de 2011

vera|ne|cidades

Poderia nada dizer, ficar-me por aqui. Olhar-te, em certa medida, é manter a distância do claro e do escuro. É resguardar-me de um quente que se preza frio. É dedicar-te uma pequena história de amor, contida em todo um breve suspirar.

É Verão, e contudo, no coração inabitado da voz, nenhum pássaro chegou. Além do sol, a pele ressequida não esquece uma ausência carente de memória. Soa a falso, mas nada existe para lá das paredes. Quando não se quer, nada acontece.

O quente sabor do sal, no corpo composto de um ontem repetido em todas a hora de hoje. É um grão de areia colado. Outro ao lado. E outro. É Verão, e mesmo sem grande imaginação para histórias de amor, poderia ficar-me apenas por te olhar. Seria perfeito.

Por nada saber, conto-me na contenção de contrariar esta contracção. Subtraindo qualquer substrato, sem o tacto volúvel de outras mãos, substantivo-me à evidência de serpentear entre os melhores dos pastos. Enfim, como não finda a gana, talvez me mate na prosa.

Ao assobio, deseja-se o timbre de um rouxinol, em todos os fins de tarde. Enquanto se esfolam os chinelos na terra batida, e mais batidas são, estas pequenas pausas para que te respire melhor. Que de preâmbulos te minava esse doce ventre, ainda antes de existir alguma intenção mais vil em mim.

É Verão, e entre o mar e o campo, resigno-me aos cremes e protectores, porque já me dou a mortalidades do corpo. As da alma, essas, ser-me-ão gratificantemente eternas. Entre o crespo cabelo e a suavidade de um vinho branco, existe espaço para tudo. É simples, quando se quer, tudo acontece.

Entre um beijo espraiado e um aperto entre o cheiro das estevas, aquece-nos o alcatrão os pés, e outro beijo roubado com sabor a sumo. Sem ligar ao calor tão daqui, roubo-te à noite que me fez desperto.

Não vá o sol raiar, nem debitar à parva um dia que não me faça presente, porque apenas ficar-te a olhar seria perfeito. É Verão, e em mim, cada palavra sua, nas tuas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

uma|vez






Uma vez disseram-me que às Trevas, nem o gosto pelo sol tem outro propósito senão queimar-nos a retina. O sonho porém, não é mais que uma constatação ambígua do medo de se olhar bem acima dos nossos ombros. Hoje, no escuro, fora dos males quase inabitados, existe "uma vez" apenas, em que tanto mais me refiz de silêncios que guardo em mim. Serei sempre um egoísta, para o tanto que colho abaixo da linha dos meus olhos.