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terça-feira, 17 de maio de 2011

|é| isso


Hoje acordei a falar sozinho. Talvez nem fosse falar, quando o desejo seria mais que expressar. Queria saber, lembrar-me melhor. Não consigo. É o medo de me repetir, de te repetir, repetirmo-nos. Repetindo-nos, uma e outra vez, na agradabilidade de quem se esquece de lavar as mãos, e pouco importa mais que isso. Tenho medo. Talvez por isso dê por mim a acordar de manhã, repetindo-me em palavras que não me lembro.


Nada fica como estava, muito menos com este cabelo. Nada fica como era. Nada. Nem quando me repito. A contradição é um apelo à revolta, sentido sentido, sentindo-me rebolar pelo pequeno jogo entre palavras, entre paredes. Entre o gesto calcado na pele e o da memória em decalque, tatuagem de água, tintura tingida a dois. De peito entreaberto a um laço que me toque, bem fundo, porque não me revejo nas superfícies. Esta carência, este desfasar logo ao princípio do dia, condiciona-me a desarticulação, a supressão de fechar os olhos e respirar bem fundo. Bem fundo. Bem fundo, como eu gosto, repetidamente. Bem fundo.


Quando as palavras não me sabem, e sabes, poderias estar aí desse lado a ler-me sem me sentir de todo, num todo, não se acolhe a intencionalidade com que são escritas. E tanto que as prezo silabicamente ao ouvido. Nos olhos. Nos lábios, calados. No gosto de as dizer, fazê-las à tua medida, à minha. Pronunciando cada aliteração de te desejar presente. Saber-te na devida medida, se na pele trazes toda a tua história. Às palavras inventam-se histórias, arremessam-se feitos, colam-se pessoas. Na pele não. Está lá.


Hoje acordei e deixei-me sozinho, a falar com uma hipótese que não fosse quem sou. Quando o desejo por me expressar vive onde não sou, e assim estou, condicionado. Gostaria de aprender a lembrar-me melhor das coisas. Talvez a falar-me num outro verbo que não possua presente. Ou render-me à evidência absolutista, se não sabes, inventa. Talvez, talvez, talvez não me repetisse tanto. Rebolar do parvo para o ridículo, saber olhar sem ver. Talvez seja melhor levantar-me e ir trabalhar. Nem mais, nem menos. É isso.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

|as|severa

É cruel querer-te mais que nas palavras. Desejar-te mais viva no sangue, em todo o cerco à vida. Luz no meu corpo, ao querer-te assim, não chega apenas sonhar-te. O desejo é um brinquedo, perigosamente desprovido dessas, as palavras surdas ao ouvido. É cruel sentir-te tão fundo, tanto de mim esvaído por ti, na pele perfumada desse teu jeito tão... cruel.



É cruel fazer-te à distância de uma vida. Ou duas. A tua e a minha. É cruel saber-te. Desnudar-te. Decompor-te em cada linha das minhas mãos. É cruel tocar-te, e tanto que dói, sentir-te. Sem uma razão para sorrir, sofrer-te é bem melhor que outra condição. Condeno-te. Cruel é deitar-me no teu ventre, ouvir-te na voz de quem clama pelo silêncio.



E nada mais existe senão as tuas sedas, glosar aos teu lábios como são os meus. Um pequeno apontamento da dor, é colar-te a mim, de cada vez que me infliges mais esta dor. É cruel recordar-te, e sempre presente, dentro desta pele. Nas entranhas te sinto, ao arrepio de saber quando chegas e me tomas. De uma só vez. Crueldade de não me seres estranha. Não mais.

domingo, 8 de maio de 2011

entre|bermas


Estrada fora. Porque a solidão é um lugar-comum. Não para comuns.

terça-feira, 3 de maio de 2011

|i|maquinário

O sorumbático censor de infortúnios e desavindas memórias, crê na vontade e não nas manhas do gosto. Arrebatador de ossos, mercador de deslocados olhares, condena a alma ao pecado do corpo e bebe-a na compulsividade de um não. Fosse a resposta uma fuga para a mentira, dir-se-ia capaz de engolir o mundo. Capaz de uma proeza, amar a mais expedita das certezas. O amor é um atributo dado a escolher aos homens, diluído entre eles e as praias em que tanta vez partiu para parte incerta. A máquina não.


A máquina regista cada batida, cada segmento do pensar. A máquina pinta a alma de negro. Azul. Vermelho como as letras néon do coração. A máquina insere, processa, procede, regista e exerce. Não promete. A pressão no pescoço, cervicais na tensão do arrepio. Antes arredio, que a máquina não esquece, esquenta, ou melhor que tente, impera.


A máquina volatiliza, relativiza, associa este daqui a um punhado de palavras de acolá. Além, onde muito aquém me fiquei por um olhar, assim meio turvo, meio maquinado. A máquina não credita. Acredita. Esta máquina de laminados sentidos, afiança, fina flor de segredo. Regressa o tempo e não as horas. Esquece o tempo e não as memórias. Rescua o tempo e não a demora.


De uma curvatura invisível, aplicada à língua que não sabe falar. Código dissidente, contabilizado em cavalos vapor, inaudita potência de me transpirar assim, inaudível. A máquina não sabe, ensina. Não acerta, correlaciona. Não instingue, indica. Digo-me capaz de sangrar por uma aparente acalmia. Faço-me coeso, e de tão intrínseco, debito-me em ruído sem imagem. A máquina limpa, reinicia.


O coiote de fibra, indutor do instinto feito mais que à pele, é desde a alma até ao pó. Caminhante cooperante, desconfia dos outros. Outros. Outros ainda os há, mais mecânicos, turbinados, aliciantes inoxidáveis de um reflexo irrepreensível. Enganem-se os mapas, não as estrelas. O salteador de corações do avesso, relojoeiro de um mal bater, descompassa-se no compasso que morreu na espera. Inibidor de males, que da tempestade se recolhe o vento. Inalador adicto daquele suspiro anterior à estocada. A máquina não.


A máquina será sempre a máquina. E eu.

sábado, 23 de abril de 2011

plano

Penso logo, existo depois. Começo pelo início, sem termos ou fim. Supostamente tudo deveria começar assim, aqui, daqui para lá. Nas margens, sem apelo de desvios, deveria concentrar-me de planificar algo. Nem mais, como caminhar pela calçada molhada, nem mais. Este tremendo vazio a que agora concedo o flanco. Neste instante, onde o princípio já não está mas o presente impera, o sabor que me resta na boca, é um nada concedido a algo que não me lembro o nome. Minto. Minto tão mal.


Traduzir o tempo em algo mais, na tentativa de saber extrapolar o odor que possui um sentimento. A aparente falta de uma razão para aqui estar, sem a mesma fazer sentido, esta estranheza do me ter entre mãos. Os condimentos e demais especiarias do coração, diria até da alma, se tudo não me soasse ao abandono pretensioso da realidade. E minto. Continuo a mentir tão mal.


Quero-me. Tão bem que me quero. Entre ossos. Entre ser e ter. Entretido. Penso, mais logo acabo. Se existo, desde um início, na finalidade de um termo, perco-me. Vale-me habitar na intenção que dou a cada palavra, porque a mim, fazem-me na diferença. Onde as vejo, na voz quente de alguém que chama, na doce palavra embebida, expelida na exactidão onde a língua termina. Finda tudo o que é volátil à voz, aos olhos, aos ouvidos. A palavra decalca. Arrepia. Exsuda. Condensa. Comprime. Exala. Enaltece. Provoca. E também esquece. A pele.


Deveria existir um corpo, algo por preencher. Até ao limite. O fim de um princípio, na continuidade das linhas, como do corpo, desvio ante desvio, sem pressa de chegar. A prosa contida num milímetro de pele, no sabor que tenho na boca. Alimentado a memórias, e mesmo essas, esvaídas que estão, neste pensar sem depois saber o que resta após o ponto final. Minto. É apenas uma sombra de mim, o desejo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

por aí

Perdi-lhe o medo. Sim, aquele medo. Talvez por isso não lhe siga o rasto. A quem? À espera, à virtude que existe no provocar o encontro. É forçado dizer-me esquecido, quanto mais ousar-me noutras roupas, por outros corpos, quiçá perdido. Perdi-lhe o medo, só isso.

Mesmo quando a ausência se torna macilenta, na sua tendência para o grês, na crescente semelhança com outros tempos, os duetos resumidos a tramas, e nem por isso sinónimos de compasso.

Sem que lhe sinta aversão, naquela espécie de sobressalto que arrepia a pele, a gaguez insolúvel nos gestos, o suor na impossibilidade do frio, as mãos perdidas no espaço roubado ao vazio. Perdi-lhe o medo, e com isso ganhei um lato momento em que condenso, condeno, coordeno, comandando a máquina pelas estradas despidas. Sem ser uma constante, repito-me, que até na doença do bem, existe um mal que se quer sempre por perto. Demasiado. Já envenenado, sem que o juízo me abandone, certifico-me de não me esquecer, ou talvez tenha perdido a vergonha de mentir.

Perdi-lhe o medo, sem gesto altruísta, porque não existirá um próximo dentro de mim. Perdi-lhe o medo. Perdi-lhe a graça. Perdi-me nas linhas, sem querer abandonar toda a margem que isso me dá, transcrevo-me em toda a extensão de sentir.

No melhor de dois mundos, é fazer-me à estrada nas madrugadas, no tardio enrudecer da voz, contar-me ao nevoeiro, dissipar qualquer dúvida ao longo dos primeiros cinco mil quilómetros. E onde foste? A todo lado e nenhum. Perdi-lhe o medo, não o caminho até lá.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

re|missiva

Deixei-te a metade. Meio de mim na outra parte que sobrou. Choraste-me. Deixei-te como quem se queixa de um tempo cinzento, fechado, sem desejar um céu azul em qualquer momento. Recriaste-me, moldando o teu peito a uma voz que desconhecias, à inconstância do vento, o meu querer de pedra.

Deixei-te ao abandono, de gestos vazios, de queixumes e lábios secos. No egoísmo dos meus olhos, respirei-te sem desejar saborear, passando os meus dedos por ti, até me esquecer quem foste para mim. Assim, de uma distorção provocada, exaurindo o espírito, deixei-te menor, encardida, amarfanhando esse teu nome, ou algum que tenhas tido um dia. Deixei-me de culpas, consciências ou outras importância que se valham os sentidos.

Ensinaste-me assim, a inverter-me na sombra. Nas horas. Nos dias. Nos meses. Deixei-te assim, pouco a pouco, no tanto que dissémos um ao outro. Aos beijos que lá ficaram, naquela metade que já não está. Já não. São as singularidades da vida, estas coisas.

Deixei-te assim, num lugar ao qual não voltei. Nem sei onde, quando, como. Convicto que esta saudade é resultante de ainda te fazer viva, porque mereces. Porque ainda te choro, sem nunca esta metade o ter feito. Por mim. Por nós. Por ti, somente.

Deixei-te sim. Virei as costas ao dia em que vi o teu nome em baixo relevo na pedra. No frio das palavras que sempre nos pareceram ambíguas, as mãos que te agarravam, foram as mesmas usadas no punhado de terra. Vi-te descer.

A lonjura que pode caber num olhar, sem ser vago, perdido, órfão de consciência. Nos mais pequenos recortes, a lembrança de me ter perguntado, que me fez gostar de ti. E é tão natural deixar-te, como quando me assaltas nos dias.

Deixei-te na condição de te abandonar cada vez que me lembrasse de ti. Aqui, neste cigarro. Aqui, por este corpo. Aqui, neste respiro. Neste cerco de me sentir o mais do menos, porque é recorrente largar-te a mão.

Deixemo-nos de meia vez só. Nada se encerra em si, nem na tua tumba, aos olhos de quem ainda te sonha. Este ainda, o eterno gesto de apartar-te daqui. Só daqui, desta metade que tenho.

Deixei-te. Só isso. Tu não.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

melena|mentos

Não sei. Quando a continuidade me parece mais estranha que uma aparente acalmia do vento, dou por mim a repetir-me. Nos gestos. Nos gostos. Nas lembranças. Não sei. Quando sou obrigado a comprar outra marca de cigarros, porque a máquina continua a embirrar comigo sempre que tento comprar mais de três maços. Não sei. Quando vou comprar um produto para o cabelo, pensando que tudo se resume a entrar, escolher, pagar e sair. Não. Antes de tudo, minam a paciência com um desenrolar de perguntas, como se o historial do meu cabelo fosse importante para o mundo, e parvo de mim, que me distraio com o generoso decote diante dos meus olhos. Não que haja grande razão para ficar siderado, distraio-me apenas. Começo a unir as pequenas sardas da sua pele, sobressaindo um pequeno desenho mal engendrado. Não sei. Aborreço-me e acabo a conversa de forma triste. Uso Head & Shoulders porque gosto do efeito mentol em certas zonas do meu corpo. Nada mais a declarar. Pago e ganho um desconto para vernizes e escovas para o cabelo. Encolho os ombros. De verniz só os conheço para retoques em motores eléctricos, ou quando os roubava à mãe, para terminar as pinturas secretas debaixo da cama. Não sei. Sinto que existe sempre um tanto de “quê”, de mãos dadas com um contorcido “hã”. Em certos momentos, aqueles que anteriormente apontei. Já cansado de pontuações, parágrafos, entusiasmos e enfadonhos serões, provo a noite agradável de Dezembro, parecendo-me Primavera. Não sei. Dir-me-ia morno, na linguagem corporal de um bom malandro. Crónico desvio por alcançar a madrugada, a passos largos, que não a quero de mansinho. Não sei. Não sei mentir da melhor maneira. Parte de mim deseja que rompa, outra tanta que enterre. A mim. A mim, a outra parte que sou. Não sei. Quando nem sempre me apercebo de como o tempo decorre, e na ausência, a estirpe chamada de silêncio, nada me dá em troca. Somente quando compro um frango e me dão a escolher entre molho de óleo ou molho de óleo levemente picante. Não sei. Quando a perniciosa vontade de rasgar toda e qualquer boa vontade, estrafego encardido nos lábios frios de um beco, é uma benção aos olhos ditos do enxergo. Uma vez por mês, regar a alma como em gesto pagão de oferenda à terra. Rebolar. Esgravatar. Sacudir as mãos e limpá-las à ganga, fibra de uma paixão desmesurada pela terra. Não sei. Tenho saudades do frio. De olhar para as roseiras, orgulhoso, pelos seus mais de dois metros de altura. Aguentem-se. Cresçam. Façam-se maiores que o meu próprio querer. Não sei. Quando tudo se resume a ouvir uma música. Repetida. Repetindo-me. Repetindo-a, sendo já presente neste meu gosto. Ao sol, eu, a cigarrilha, os óculos escuros. A Ginger agradece. Arreganha a dentadura devido ao fumo, abana a cauda pela companhia. Não sei. O mundo fica mais simples, pintalgado como a graça do seu focinho e a ternura dos seus olhos. Por entre os ramos despidos, um suspiro a dois. O sol aquece. Pois é. O sol aquece. Não sei. Acabo sempre por me comover nos pequenos nadas, passando sempre enviesado ao tempo já passado. É nascer-se gémeo de si mesmo, escondendo no fundo do poço, no tanque onde fazia das folhas da nespereira os trirremes da imaginação. Quando um dia souber escrever memórias, talvez caia na realidade e me sinta mortal novamente. Não sei. Talvez um dia me faça entender, sem que me estenda, muito menos me absolva de culpas pela teimosia de não me dar por vencido. Encolho os ombros, e de uma vez só, espreguiço-me por todo o pecado de não me entediar pelas noites findadas nestas manhãs. Não sei. Quando só algumas coisas sei, soltando o cabelo para a luz, demorando toda uma vida a aprender a não tropeçar nos próprios nós, que de enredos já habituei a alma. Não sei. O óleo até é bom.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

assíncrono

Aqui se prende, aprende no presente
Na lábia sabida, sentida, nua língua
Comovendo o mundo por inteiro
Um pouco de nada complexo


E simples é chegar, abraçar o sorriso
Pintar a cegueira, certa de sonhos
Revolver-te em águas, tuas lágrimas
E, ainda turvo, tragar-te


Arrancar-me de securas e demoras
Da pele ardida, deposto à desforra
No teu sopro a final de tarde
Ainda sinto, odor não esquecido


Falam os dedos por mim, a ti
Entre meandros de ardil frescura
Nervurada astúcia, nervosa espera
Pelo sonho ser ensejo à tua luz

Aqui se aprende, presente pendente
Na sábia contenda, contida, maldita
Corroendo a singularidade, a pessoa
Um tanto esguia, pouco ou nada sombria

E difícil é partir, largar tristezas
Apagar quem vê, este que não dorme
Sedimentar-te, meu bruto diamante
E tão clarividente, cuspir-te

Colar-me de efémeros encharques
Dos ossos contidos, ganhos a soldo
No silvar a madrugada ainda criança
Nada te toco, e a custo me troco

Calam-se os olhos, de ouvido à espreita
Em todo o espaço a que me destino
Destilo demoras e, matreiro, sorrir
Pelas horas, não me dar ao escuro

Terracota em coração de ferro
Moldável concreto, a tez da distância
Corre-me o horizonte nas veias
Tão perto do céu, assim longe de mim

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

saga

Despir, em boca de sede, querer morder o destino e redesenhar o traço da satisfação. Despir, da língua às palavras, do sentido ao contrário. Contrariar a vontade, refreando um pouco, só mais um pedaço de mim, em ti, e só de ti sair. Despir, na nudez da crueza do espírito, na rectidão do ir, sem se pensar na volta. Despir, como quem abre uma romã com os dedos, e dos ossos já nem saber a posição correcta. Despir, tomada de assalto, a pele de um arredio desejo.

Despir, rebeldia no corpo, sobre outro, num outro. Saber-se o desassossego mais esperto que a espera. Despir, a cabelo solto, colado ao rosto, nas rédeas das tuas mãos, dedos em freio. Despir, na saliva que se gasta e evapora, no jeito da demora, no gosto de quem se toma, ao adornar do lato enlevo, até ao curvar dos receios.

Despir, antes do toque, depois da lição, durante a atenção dada a cada gesto, sussurrar a intenção, roçando a evidência à desavergonhada condição de querer. Despir, de todo, quem sejas, se me és mais do que ser, é ter. Despir, como presságio das marcas deixadas por aí, como quem morde e diz não saber, como quem deixa solteira a saudade. Despir, de nada, porque despido sou.

domingo, 31 de outubro de 2010

passo|e|quero

A cada passo, se desenlaço e me largo ao acaso por uma rua. Podia ser tua, a pele de uma memória que perdura, no sabor a ti, na língua que te sarou a nu. Sem a turba do dia, na mácula do tardio que em mim se fez ainda antes de ser manhã. A cada passo, no desembaraço dos pés pela calçada, as penúrias penduradas em estendais, cordas latas, varandas gastas, fios molhados, beatas abandonadas.

Não é a solidão que me persegue, senão os sonhos que percedem. Escondido, no gosto pelos outros, daqueles ali, assim em jeito de luz intermitente, redonda de tom laranja, na face de uma mulher feita aurora. Descompassada, como o coração quando arqueja um gesto polvilhado de silêncios. Guarda-se a noite, calam-se as bocas, mariposas em sombra chinesa, língua pintada na tua.

A graça de um nome que se teima em aquecer na modéstia de uma fogueira de meia dúzia de tanganhos. Emaranhado coração que bate à porta da alma, sem me precisar em gesto algum, causa-me dor saber que te perco em todas as horas. À soleira da tua boca, deixei-te no empedrado molhado o virar de costas. Não existem aparências, somente a ilusória passagem pelas correntes de ar. A saudade do desconhecido nome que isto tem, providenciado, esculpido à noite, abrasado de dia.

A cada passo, se nem caibo no tamanho que tenho, senão no acaso de tomar um rumo sem pensar. Podia repetir-me, de novo, e sem novo me ser, parecendo-me ainda mais estranho, novamente envolver-me nos pensamentos em torno dos teus. Sem mãos para acenos, nem costas para muitas lembranças, sobra-me a avareza de ter a noite só para mim.

Não é a solidão que me esvazia, senão os meus olhos vazios dos teus. À mostra, a soltura de um sorriso, um beijo como a cera que escorre de uma vela. Sabendo o velho feitiço de enganar o coração, num gole, a cada passo um traço, no impasse de quem me morde as mãos, como um desejo renascido ao respirar-te no melhor de ti.

A graça de um nome, algo que lhe dê alguma razão para existir. A razão de um ritual, sem nunca ser tarde para voltar a repetir-me na tua pele, pela tua voz, descaindo este gostar para a naturalidade do lugar incomum e estranho. Quão somos, mais que punhos cerrados e espartilhos de voltas cegas de nós, em nós. Fosse o teu rosto traço luz, sombra em pele nua, e a tua condição seria outra, ver-me nascer com o sol.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

piet|r|á

Seria mais fácil colocar-te uma pedra por cima, revolver a terra como um cão e aguardar pelas primeiras chuvas. Não. A virtude seria saber-se a espera mais satisfatória que a acção. Em que ficamos? No zero. A lisura do travo metálico que o tempo me deixa, o chumbo na saliva e saturnismo nas veias.

Seria mais fácil arremessar-te um titã de granito. Um gesto monolítico, qualquer coisa que me fizesse perdurar no relógio, para não mais me esquecer do peso. Pesas-me por isso, não pelo pesar. Torna-se invariável sem me parecer condicionante do gosto de sentir derrapar o metódico para o medíocre. Prevendo a estanquicidade de pensar, o loquaz sujeito atira foguetes para que afastes os olhos dos meus. Quero acertar-te em cheio.

Seria mais fácil aferir a balança, ás caixinhas de memórias chamá-las de canopos. Não. Pior que hélio, envenena-me a maldade, sobe-me a alma por este corpo, quando a minha vontade era ser trépano do teu juízo.

Seria mais fácil calar o frondescente testemunho de que os ossos contam histórias, não deixam legados. No fundo, e bem por cima da tua cabeça, era saber montar uma trama, sem enredo, atirar-te um seixo bem redondo e pesado. Assim, bem certeiro na tua raíz, uma bolegada bem assente. Não. Contrariam-me as vontades e embirro. De tão retorcido, falham-me as mãos. Fico com vontade de politizar o leito pedregoso e, sem parcimónia aparente, lapidar-te até que aprendesses a conjugar-me no Pretérito Impossível.

De novo; seria bem mais fácil dançar à chuva de bigornas e pisar todos os teus canteiros. O que dissemos? Arregalam-se os olhos, exclamativa e sincera, a dúvida toma-te o corpo só para me encolheres os ombros, uma careta e... e pronto. Seria bem mais fácil dizer que o pecado é algo virgem por esta casa, que o vício é um pai ausente, a saudade uma mãe desajeitada, e tu, minha cadela de loiça, um ainda bloco de cimento nos pés.

Seria mais fácil mentir-te, continuar a beijar as penas, os lamentos e, infelizes aqueles, que aprendem a chorar como tu. Calhau que fosse, ou um breve torrão ressequido do Verão, era atirar com toda a vontade que ainda te tenho. E então? Nada. Parece ser mais fácil o caminho de um doce nada, sem a seiva agreste na pele, nos dias, das marés, com minguantes e crescentes, sem paredes de papel e postais ilustrados de um tempo que fomos.

Bem que me sabia acertar-te em cheio, lançar-te à mão cheia, para que o teu coração aprendesse a falar.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

recalcitrante

Sempre o concebi como um espaço inflado de pensamentos.

Dou por mim repleto de um silêncio, de ruídos cheios de nada.

Dói.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

|amorsassino|

Ela não entrava nas suas contas, nas manhas e projectos de malvadez. Seria um empecilho, um tiro no escuro, algo que se esconde dos outros. Mantida em segredo, mesmo sem haver algo a revelar, o segredo como um preciosismo de um coração de pano, controlado por um conjunto de cordas amargas.


Absorve o momento, não esquecendo de gemer, da fome a saudade, do cheiro a menina guardada à pressa no baú. Não há diluente que dissolva as nódoas, nem tempo que leve as mágoas. Somente no enjeito de quem ainda acredita na esperança, sabe ela fazer-lhe a espera à porta, numa tão mais rendida pausa de entrega.


O amor acontece, por vezes colérico, abrupto e de chofre. No gancho que lhe prende o cabelo, a sua pele desnuda de luz, sem brilho. O seu rosto esquecido na voz grave que lhe estala aos ouvidos, ele tinha-a em “Amor de tanto te querer, eu mato-te!”. No fim do dia, quando já nem o corpo carrega a alma, reconforta-a num toque passageiro, sem aduaneiros gestos de quem gosta e deseja passar a fronteira a monte.


Sem a mesura de um sorriso, flor agreste de cheiro a esteva, compele-a no beijo, na voz, nos gestos forçados, na ausência de outros. É uma morte anunciada, capitulando o seu mais querer ao infortúnio de um homem náufrago de si mesmo. Escarchado, rosto cinzelado na rudeza de só saber de si. O amor acontece, por vezes no hálito de aguardente, entre dentes cerrados e olhos de sangue.


Ela não passava de um engano, nas teias de um armário mal resolvido, de uma desarrumação esquecida ao canto da vida já tardia. Seria uma sereia raptada dos mares, acompanhada apenas nas vagas do pêndulo do relógio de parede. Sem sal, com o pó de quem dança por dentro, no ainda palpitar que lembra uma jovem menina de cabelos ruivos.


Despedaça-se o coração, queimado na negritude das suas mãos, o toque feito lancinante, porque o amor acontece assim. Não há distância que quebre a vontade, nem memória que a traga de novo a si. A vida esquece-se dele, a lembrança colada ao olhar no vazio, entre os primeiros tons de cinzento outonal, até ao infinito de a querer refém na memória. Apenas porque o amor acontece.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

|199|




Enterramos os mortos e levamos o resto da vida a aturar os vivos.