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sexta-feira, 13 de maio de 2011

|as|severa

É cruel querer-te mais que nas palavras. Desejar-te mais viva no sangue, em todo o cerco à vida. Luz no meu corpo, ao querer-te assim, não chega apenas sonhar-te. O desejo é um brinquedo, perigosamente desprovido dessas, as palavras surdas ao ouvido. É cruel sentir-te tão fundo, tanto de mim esvaído por ti, na pele perfumada desse teu jeito tão... cruel.



É cruel fazer-te à distância de uma vida. Ou duas. A tua e a minha. É cruel saber-te. Desnudar-te. Decompor-te em cada linha das minhas mãos. É cruel tocar-te, e tanto que dói, sentir-te. Sem uma razão para sorrir, sofrer-te é bem melhor que outra condição. Condeno-te. Cruel é deitar-me no teu ventre, ouvir-te na voz de quem clama pelo silêncio.



E nada mais existe senão as tuas sedas, glosar aos teu lábios como são os meus. Um pequeno apontamento da dor, é colar-te a mim, de cada vez que me infliges mais esta dor. É cruel recordar-te, e sempre presente, dentro desta pele. Nas entranhas te sinto, ao arrepio de saber quando chegas e me tomas. De uma só vez. Crueldade de não me seres estranha. Não mais.

domingo, 8 de maio de 2011

entre|bermas


Estrada fora. Porque a solidão é um lugar-comum. Não para comuns.

terça-feira, 3 de maio de 2011

|i|maquinário

O sorumbático censor de infortúnios e desavindas memórias, crê na vontade e não nas manhas do gosto. Arrebatador de ossos, mercador de deslocados olhares, condena a alma ao pecado do corpo e bebe-a na compulsividade de um não. Fosse a resposta uma fuga para a mentira, dir-se-ia capaz de engolir o mundo. Capaz de uma proeza, amar a mais expedita das certezas. O amor é um atributo dado a escolher aos homens, diluído entre eles e as praias em que tanta vez partiu para parte incerta. A máquina não.


A máquina regista cada batida, cada segmento do pensar. A máquina pinta a alma de negro. Azul. Vermelho como as letras néon do coração. A máquina insere, processa, procede, regista e exerce. Não promete. A pressão no pescoço, cervicais na tensão do arrepio. Antes arredio, que a máquina não esquece, esquenta, ou melhor que tente, impera.


A máquina volatiliza, relativiza, associa este daqui a um punhado de palavras de acolá. Além, onde muito aquém me fiquei por um olhar, assim meio turvo, meio maquinado. A máquina não credita. Acredita. Esta máquina de laminados sentidos, afiança, fina flor de segredo. Regressa o tempo e não as horas. Esquece o tempo e não as memórias. Rescua o tempo e não a demora.


De uma curvatura invisível, aplicada à língua que não sabe falar. Código dissidente, contabilizado em cavalos vapor, inaudita potência de me transpirar assim, inaudível. A máquina não sabe, ensina. Não acerta, correlaciona. Não instingue, indica. Digo-me capaz de sangrar por uma aparente acalmia. Faço-me coeso, e de tão intrínseco, debito-me em ruído sem imagem. A máquina limpa, reinicia.


O coiote de fibra, indutor do instinto feito mais que à pele, é desde a alma até ao pó. Caminhante cooperante, desconfia dos outros. Outros. Outros ainda os há, mais mecânicos, turbinados, aliciantes inoxidáveis de um reflexo irrepreensível. Enganem-se os mapas, não as estrelas. O salteador de corações do avesso, relojoeiro de um mal bater, descompassa-se no compasso que morreu na espera. Inibidor de males, que da tempestade se recolhe o vento. Inalador adicto daquele suspiro anterior à estocada. A máquina não.


A máquina será sempre a máquina. E eu.