Nunca se pensa naquela sombra, no exacto ponto onde desejaria ver-se luz, o ponto de fuga. Um desembaraço, qualquer resquício de pele seca, enxuta de pesadelos. Diz-me, voz que amarga, traço de lembrança, trago maldito do meu sangue, diz-me algo em poucas linhas, em curtas palavras, de nesgas e frestas de esperança.
Este, após anos de solidão, preso aos pés de quem se fez maior que o sonho. Deste ponto, negra qualidade tornada plena, adocicando-se o pesadelo de esperar na perfeição o limite entre o claro e o escuro. Prontificam-se, ao império a que tanto se quer ver atrás das costas, os sonhos absurdos de se desejar noutra pele, em voos proíbido a quem é Noite.
Absolvo-me de pecados e olho-te. Neste instante de traço esguio, momento desenvolto entre a calma de quem espera e a incerteza de quem desespera. Calma. Beija-me o mais frio da boca. Calma. Deixa-me dissimular o sorriso que me prende ao mundo. Calma. Jaz entre a agudeza das palavras, gélida palidez dos dias deixados ao sabor do ocaso. Até ao fim, sem princípio algum para perdurar nas nossas memórias.
Agarra-me o cabelo e chora-me por este peito, até me crivares de um gosto sentido, o terno cravar de unhas na carne. Sempre de pensei clarividente, pois em mim pouco habita da luz que nos viu nascer. Calma. Tez de segura vontade, nas manhas de este ser que apenas vagueia por estas veias pejadas de madrugadas.
Sabe o silêncio falar-me. Sabes tu calar-me entre dentes, causando-me a maior das revoltas e deixando-me sem sentido. Tranfigurando a alma ao espelho que tens entre mãos. Ousa, faz-me fugir. E assim, espartilhar a projecção dos meus rostos, esquadrinhar apenas o que penso saber conhecer, a mim.
Eu crio. Tu matas. Eu digo. Tu feres. Eu morro. Tu aconteces. Eu renasço. Tu tocas. Eu mostro. Tu... dás-me sentido. Perdendo-se mais um pouco de nós, na noção do gastos que estamos. Tu crias. Eu firo. Tu dizes. Eu mato. Tu renasces. Eu aconteço. Perde-se um pouco mais do antes, esperando ouvir-te em melodia, num assobio, remetendo-me para este presente, aqui.
Desengane-se a vontade, despejem-se os bolsos de pesos dos outros. Mergulhem os lábios nos beijos deixados para outra altura. Quer-se o sonho, obtém-se a vontade. Ilusório, escrever-te entre sombras, sempre a uma só mão, não faz de ti metade que me falta. És este grito. Hei-de te encerrar entre os meus ossos. Sempre, para nunca.
Tudo se desfaz e quem me fez, na sua pele sentiu-se tentada a não se dizer segura esquecido era, senão este palmo de peito um aperto em constante negação
Tudo se desfaz e quem te deu, minha rosa um rosto que desconhece a prosa nem receosa da chuva, me dirias assim tão bom é lavar-me na certeza do nada
Tudo se desfaz augúrios, prementes dias quentes um diluído mar de sorrisos escorridos cabelos pelos ombros marés e mais que mergulhos, as despedidas
Tudo se desfaz seguindo um caminho de terra procurando o rosto manter-se seco deixando o mar para trás das costas sem o desejo imperar no regresso
Tudo se desfaz nos nós, nas correntes e linhas de pensamento na ânsia de salgar os sentidos e calar o mundo na boca que engole, nos olhos que ardem esta força de me saber entre as vagas
Tudo se desfaz aos incapacitados caprichos de quem não vive feitos em segredos, castelos de areia ao areal na boca, cospe-se em nojo relutante na pele raiada de branco sal, até aos lábios o negam
Tudo se desfaz quando nada mais sobra que a espuma das ondas e o medo de tomar as rédeas é um soluço constante dir-me-ia morto, condenado ao fracasso sem este amor, na loucura de me perder nas horas
Tudo se desfaz contra o areal calcado a cada ida, a cada volta sem que o mar me deixe de embalar e eu, no jeito de homem que abraça o destino nada se dissipa no esquecimento sem que nada me faça desfeito
Tudo se desfaz dado ao esquecido tempo maior por o querer mais lato que a alma mais fundo na retina, no mais escuro da noite em tudo o que nasce e morre em mim