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segunda-feira, 8 de março de 2010

Apenas Nós

Despede-te de mim, como se um amanhã ali estivesse à espera de te ver partir. Sem delongas, demasias e excedentes em forma de comentários. Esqueçamos as palavras, as roupas, as horas e os limites do dia e da noite. Despede-te de mim, sem me perguntares quem sou, que será de mim no minuto a seguir. Despede-te, despede quem te crivou a alma de interregnos, protuberantes males que ao rosto são lágrimas. Relembra, envolve, absorve o aceno. Contorce, desfalece o ouro na sombra sobre os teus ombros angelicais.

Guarda lá fora quem te arrecada cá dentro. Exprime o que te comprime, expressa o que reprime. Despede quem te deprime, para a seguir alvitrar quem já te esqueceu. É uma vida comprida, assim como as nossas silhuetas ao fim de um dia, já enxuto de qualquer memória.

É um cão velho que guarda o destino. Sobranceiro, de rosto empedernido pelo passar do tempo. Deitado no mesmo alpendre ao mesmo tempo que o mundo nos fez. É um decorrer, um gosto que se esquece em amargos tragos de vida. Não são dias nem noites, nem o cansaço se lhe impõe condicionantes ao espírito. O coração... ai o coração do cão. Esse que lhe dá lastro, aquele brilhozinho ainda nos olhos.
O que não te sei dizer por palavras comuns, descomplexadas ou aturdidas de alegorias, desprovidas de mim. Comparação alguma a outros vocabulários que desconheço, senão este... este que nem sei dominar... o de te escrever no preciso momento em que te sinto. Lamento.

Lamento que te despeças de mim, não por sentir desfaçatez no acto, ou tacanha mortalidade a que se dá o comum mortal. Despede-te de uma só vez, porque imaginar escrever-te na pele, nos olhos que me ofereceste para as palavras que nem existem. No tudo de saber-te folhear, e sol após sol, reescrever no teu corpo, com o giz que se emaranha até ao coração... reticências de expressivos e contínuos sorrisos. E sei lá eu que mais, apenas tendo a certeza que nada acabava no ponto final.

Apenas nós.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

e m p a t i a

Encerra-se em medos
gotejantes, desmedidos pavores
que ao coração sabe a farpas
mágoas revoltosas, revoltantes


e dá-se a volta completa
no sentido errado
inerte de qualquer sentimento
despido, de mãos vazias


atormenta-me o medo do nada
não de vazios, de ocos momentos
ou partituras em branco


porque já lá estive, no outro lado
ali, mais além da luz
mais para além de quem sou
do que me toma e me embala


assim...

em pleno rosto das noites escuras
destes velórios... de nada


sou corpo presente, nesta pele que me agrada
que agarra, descola e volta a colar
pegando, insinuando a repetição
a uma compleição escusada


assim...

em pleno rosto das coisas sombrias
destes escombros... de nada


sou um todo amante
um pouco ou nada presente
um vigoroso errante
de parcos costumes comuns


encosta o frio solfejo do teu nome
reencarnam gélidos, antigos pesadelos


assim...

bem devagar em mim
devagar... mais para o fundo
terno gume lancinante
debruado a dourada mudez


nudez crua de me sentir novo
de novo

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Insatisfeito

É triste chegar a um ponto tão insípido como este. Nada me ocorre pelas veias, mesmo nos momentos a sós, e tantos são..
Uma revoltazinha faz-se sentir aqui fundo, mas sem que passe disso. Uma coisinha qualquer tenta fazer-me chegar à razão.
Volta, gigante adormecido que nas palavras vives..
..que só nas palavras existes
..que a sós nas palavras te encontras
e reencontas
e recontas
e te esqueces
e... e... e é aquele nó na garganta
quando sentes em cada letra que mostras à luz
à incandescência da tua descida
...
a qualquer coisa, enfim.
...e entre a estagnação aguda do tempo, algo fiz sem que nada fosse novo.
Voltarei sim.