Despede-te de mim, como se um amanhã ali estivesse à espera de te ver partir. Sem delongas, demasias e excedentes em forma de comentários. Esqueçamos as palavras, as roupas, as horas e os limites do dia e da noite. Despede-te de mim, sem me perguntares quem sou, que será de mim no minuto a seguir. Despede-te, despede quem te crivou a alma de interregnos, protuberantes males que ao rosto são lágrimas. Relembra, envolve, absorve o aceno. Contorce, desfalece o ouro na sombra sobre os teus ombros angelicais.
Guarda lá fora quem te arrecada cá dentro. Exprime o que te comprime, expressa o que reprime. Despede quem te deprime, para a seguir alvitrar quem já te esqueceu. É uma vida comprida, assim como as nossas silhuetas ao fim de um dia, já enxuto de qualquer memória.
É um cão velho que guarda o destino. Sobranceiro, de rosto empedernido pelo passar do tempo. Deitado no mesmo alpendre ao mesmo tempo que o mundo nos fez. É um decorrer, um gosto que se esquece em amargos tragos de vida. Não são dias nem noites, nem o cansaço se lhe impõe condicionantes ao espírito. O coração... ai o coração do cão. Esse que lhe dá lastro, aquele brilhozinho ainda nos olhos.
O que não te sei dizer por palavras comuns, descomplexadas ou aturdidas de alegorias, desprovidas de mim. Comparação alguma a outros vocabulários que desconheço, senão este... este que nem sei dominar... o de te escrever no preciso momento em que te sinto. Lamento.
Lamento que te despeças de mim, não por sentir desfaçatez no acto, ou tacanha mortalidade a que se dá o comum mortal. Despede-te de uma só vez, porque imaginar escrever-te na pele, nos olhos que me ofereceste para as palavras que nem existem. No tudo de saber-te folhear, e sol após sol, reescrever no teu corpo, com o giz que se emaranha até ao coração... reticências de expressivos e contínuos sorrisos. E sei lá eu que mais, apenas tendo a certeza que nada acabava no ponto final.
Apenas nós.