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segunda-feira, 25 de maio de 2009

"Dear Darkness"

Forças-me a escrever, inibes-me de viver
rasgas-me à noite, cerras-me de dia
engoles-me de uma vez, grito-te para dentro
e nada, nada me faz sentir-te mais

Transformas-te aos poucos, e a mim, de uma vez
transbordas-me no choro, e lágrimas nem vê-las
sonhar-te é viver, sem te ter, sem te ver
e nada, nada me faz querer-te mais

Este aperto por o mundo ser tão pequeno
por este corpo desejar morrer a cada passo
sem que te olhe, porque necessito sentir-me mortal
que algo em nós o seja...

Esta cegueira pelo sol, esta maior sede pela secura
todo o mal em mim, pelo bem que te quero
e nada de errado em te querer, sem a certeza
de um futuro em que pense, se algum dia exististe

Quebras-me a alma, derretes-me o tempo
derrotas-me o coração, vencendo-te em desejo
sonho-te que me sonhas, sabendo dizer quem sou
escrever-te em sorrisos, desenhando-te em desejo

E sei que me choras, bem antes de adormecer
terminando o coração bem perto da boca
enrolando as palavras que guardamos para dizer depois
para depois... bem depois de amanhã...

Aquecer-te as mãos e perder-me, por fim, nos teus olhos
sem terminar as frases, sem saber respirar
deitar-te sobre mim, sobre o céu, sobre planícies de silêncio
saber tirar-te da mente e seres a minha carne

Tão só e somente, apenas a sós transpareço
o íntimo sussurro escondido para além das sombras
para que ninguém saiba que existes em mim
o sonho que nunca morre, até te viver

sábado, 21 de março de 2009

Não queria o deslize maior que a cama, sem sentir o vazio do chão frio na trama do meu papel. De forma aparente, resolve o esquecimento deixar-me o outro nome. Resguarda-se a luz no ténue respirar de mansinho, entre as linhas disformes que me ganham o rosto, assaltando-me nesta circunspecta solidão.
Vidas de frutos caídos, de bocas caladas ao encontro do violento embate no túmulo em que se encerram. Músculo de obra inacabada, concretizam-se vontades na direcção para onde fica o fim, sem que finito seja.
Mãos de areia dadas à importância dos estreitos laços e sombrios segredos. Não vale o trago da garganta seca um murmúrio de sede sem querer esperar. Não consta de qualquer lugar comum, apenas palavras convencionadas por outros, eruditas almas já em vida perdidas.
Deitam-se os corpos numa disposição contrária à alma, no avesso que desejamos, na vergonha de fraquejarmos com o corpo. Deitas-te sobre mim, mesmo sabendo que nenhum Deus me vale quando apenas quero apagar a luz em mim.
Sempre escondido aos olhos, o vento brinca nas folhas perenes, enquanto me oponho ao caminho, encerrando tudo em pequenos nadas. Sem este constante desassossego, nada para além de invisível seria. Perdido em mim, numa calma tarde, numa silenciosa noite, apenas perdido em mim e nas horas.
Lavam-se rostos em lágrimas que já não sabem o sabor que têm, nem tão perto de desvendar quem são e porque existem. Órfãs de alegria, confinadas à queda do homem, à saudade argumentada em injustos prantos em vão. Se a saudade fosse mácula, perguntar-me-ia a causa de a sentir constante. Tão mais certo seria chamar por quem sou, valendo-me dos estilhaços de quem fui. Tarde ficaria para retroceder à distância provocada, entre as margens do sonho e o leito de vida.
O fim é sempre um presente que surge, um começo a sós para o mundo, tingindo a tela aguada pela madrugadora vontade de despertar. Urge rendido ao cansaço, o meu peito de tanto te chorar, mais aperto a alma quando morro no findar dos teus encantos.
Se olhar para o fundo, encontro respostas às falácias que desdenham da minha inquieta e repelente pessoa. Talvez um pouco mais para além que possa ver, conquistam-se melodias às anotações de alguém volátil ao viver.
Cala-se o tempo, subsiste a vontade de tanto querer, doendo mais que a negação da torrente invisível no ar. Sopram desejos ao ouvido, e tantos que sei e ouvi, e nenhum estremeceu o térreo corpo que morre comigo. Mortais somos, eternos seremos, por agora.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Soçobrada

A insurreição das palavras, malditas sejam por me perecerem antes da frase composta. Mais tentada à vitória, satisfeita na desfeita da rebelião desvendada. Calma, nada de me saber ignóbil, imóvel razão que da minha vontade nada leva senão a vaidade de me achar leviana, na face que escorre frente à figura de quem me enfrenta. Sempre num limbo que não está mais além da ténue irrealidade da construção a que me dou todos os dias.

Não seria mais inteligente se a ânsia de querer mais entre braços, entre pernas, entre corpos, compostos de carbono fosse apenas massa vazia que tanto quero consumir. Ar respirável, entre sôfregas luzes de um pensar desmedido a que os meus dedos não se dão e muito menos acompanham, de novo, este já tão familiar não sei quê que me tira o sono. E que vontade tenho, ai que vontade tenho de me rasgar entre lenços à beira do cais, num adeus sem regresso, sem retorno ao corpo. Ai que vontade me molha os ossos de tão longe me sinto de catalogar qualquer coisa que saia de mim. E certa estou, para além de mim, existir outra, e outro, e outras, e tantos outros. E a vontade aperta-me o peito, e aqui, no frio da barriga, e mais aqui, que tanto calor sinto transpirar tão casta e segura figura criadora, tão escrava de mim.

Mais que temperatura, é alma febril trespassando a carne, e que o faço tão bem, vibrando tão comedida no gozo para fora e apenas sinto o papel, e entre os dedos a caneta. Aperto-a, violo a folha humedecendo o mais querer furá-la, queimá-la na saliva de me sentir tão viva e possessa.

Vem para baixo comigo que não te quero sem som, não te toco sem luz e a mácula aliena-me a máscara de verter-me por completo no teu rosto. Não alcanço o limite e nem assim me deixo ficar, mas assento, e sinto. Ai como sinto, entre os suspiros que o estar sozinha me dá. Consta-me que nada mais ofereces que existir entre a tua pele e as curvas do teu corpo, mas sabes como lamber o dia, distorcer as formas do meu ser, indefinindo-me a um estar mais além do concreto.

Lutas sem luto, sem remorso de te aleijares nessas farpas cuspidas a tanto fervor da latente vontade, e tão valiosa é essa língua de ouro, e tão brilhante me tornas quando me conduzes assim, daqui para ali. Dá-me o teu sorriso enquanto o teu ocaso é para dentro de mim, e tão fundo consegues ir, tão real te sinto que poderia afirmar que somos mais que um. Enquanto os teus dedos tentam parar a minha enxurrada, os meus comprimem-te a raiz do mal, e tão bem te desejo na maldade de me esventrares até nem pergaminho existir que denuncie que algum dia tenhamos existido.

Entre as nuvens queimadas, o céu tinge-se de vermelho teu nome, sede vestida a teu sonho, e com a fome dos homens regozijas. De escassez minas a minha vontade, porque mais te quero pintar. Tanta vontade tenho por sentir que me esgoto, quanto mais te dou à boca a minha figura diluída a transparências ocultas. Gota perdida no canto dos teus lábios, noutros meus, e meus são, sendo teus apenas. Fala-me na tua lábia, fingindo a mordaça ser um acessório para me dizeres tua, desnuda, permuta de veia para artéria, da noite para o dia.

A verdade é a tua vontade transcrita na pele, no teu cheiro nocturno. Um lobo que sonha com o mundo dos homens, entre as luzes da cidade e a terra fria da floresta. A vontade impera em fazer-te mais que meu, a vontade de ser tua, a vontade de te esquecer em cada linha que passa no percalço de tropeçar num galho, e com o ruído violo o silêncio, esquivares-te na bruma que o teu pêlo emana. Com o resto de homem guardado e quase desvanecido em ti, camuflado nas horas pardas das sombras, sou a tua espera, a fera, esfera de cristal que te vê. Lendo-te a sina, desejo tão maldito quanto as palavras que não existem, sem te acabar em cada fim, não pares de me querer somente tua. Actua na tua, mexe-me por dentro, onde sou crua, aqui onde tu és... só tu.