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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

30

Se o mundo fosse feito de gosto, já nem sabor teria na língua. Seria uma fuga, uma ira de quente vaidade, sem saber a verdade, sem me perder na vontade. Fosse este mundo meu, tamanhos corpos que encolhem à passagem das mãos que me escolhem, dos corações que mirram, das escolhas que se fazem. Ninguém se encanta sozinho, sem partilhas nem um lado qualquer para a fuga sem medos, sem esperanças, sem figurinos... combatendo um pesadelo que nem sonham viver.

Se não fosse a vida assim, por vezes tão clara, por vezes tão escura, talvez acreditasse por completo no automatismo da máquina. Quiçá bandalhos da evolução, sem cortarmos na realidade as asas de Ícaro, e o mais fascinante dos sonhos que possuímos fica-se entre o ar e a água. Somos sim, um mundo aparte de outro, e de outro, e de outro além, sem conta nem fim.

Oxida-me o ar as cordas, corroendo-me as veias, apodrecendo-me até ao pó, sem que me deixe uma réstia de esperança em acreditar que podemos ser eternos. Apenas e eternamente mortais. Mortos, mortíferos, mortificados. Punhais de veneno, punhos erguidos contra um sistema, sentimentos puros de braços dados, nas mãos que se esfarelam, que se sujam no chão, onde morrem outros nascem flores, passam rios, colhem-se maçãs.

Sinto-me confuso, não por lacunas mas pela clarividência de sucessivas acções. E se o mundo fosse reconstruido à minha imagem, serviriam os olhos para beijar, o sorriso para morrer, o suicídio para renascer. Obrigar-me a ser árvore pelo Outono, ser mar nas marés vivas. Beber sozinho porque se escolhe e não porque se morre por dentro.

Boca com boca, sangue do teu, língua combativa, activa, saliva da minha na tua. Não existem pressas, esquecimentos, duas razões para o mesmo fim. Talvez duas amantes para aqueles dias mais difíceis de passar, Domingos de sol e odor a sexo. Se o mundo não fosse este, talvez o que almejo nem existisse no próprio querer. É apenas uma pequena questão de invejazinha sem importância, querer ver as cidades pintadas da minha forma. Todas as mulheres tão inalcançáveis como o meu tanto querer, assim como os homens como tanto os gosto de ver. Insinuar as dádivas a deuses feitos à medida das necessidades e não de credos.

Seria a música saber-me a fruta embargada, proveniente de zonas tão remotas e exóticas como o meio das tuas pernas. Viajar sempre em classe executiva, havendo apenas essa classe em viagens com mais de 10 quilómetros. Vagões transformados em casas, acompanhando a fina silhueta do rio, um zoo completo de animais insufláveis. Palhaços moribundos de tristezas, vendedores de sonhos e delatores de mau tempo. Poetas feitos de pedra e lágrimas construídas nas prosas, artífices e oficinas de nuvens, soprar o vidro como a brisa no rosto de uma rapariga que descobre o que é ser-se beijada.

Quando o mundo for meu, ainda mais do que já é, talvez a indiferença seja apenas sinónimo de não nos importarmos de andar à chuva. Talvez seja capaz de matar meio planeta com um só gesto, e nem assim parecer um facínora aos olhos dos que possam restar. O próprio conceito de resto seja um precedente para nos diluirmos pelas ruas e artérias, sem noção de sermos quem realmente escondemos ser.

Seria tão mais fácil, tão mais certo que tudo coubesse na palma da minha mão, e num só gesto, poder amarrotar a paisagem como papel esquiço, e assim, transcrever os nós dos meus dedos, as linhas das minhas mãos, e transformá-las nas ruas em que vivemos. E todas as outras impressões e decalques noutros pontos tão nossos, tão de todos, sendo o que nos identifica um ponto em comum. A impressão do nosso indicador direito ser o centro, um bairro, uma praça, um mercado de frutas e hortaliças.

Saber-me mais esperto, sentir-me mais ágil, saturar-me mais fácil, ficar mais perto, correr mais longe, tornar-me mais eterno, corroer-me mais rápido, ouvir-me mais alto, esquecer-me mais consciente, despertar-me mais cedo e adormecer-me mais tarde. Para que nada sobrasse, para que os espaços vazios fossem propósitos de pausa, lugares comuns para retomar o fôlego. Para que os teus lábios fossem noite de névoa, para que outros fossem estrelas, para que não me farte de olhar para além, e mais além, e para mais outro além, repetindo-me como nos mundos. Porque me repito, e preocupa-me, porque não me acabo e nem me termino. Não me sinto assim, assim não me sinto.

Assim, interminável, inextinguível, inexpugnável, incompreensível porque tu não existes. Repetindo-me, tu não existes, porque não me revejo no reflexo deste aqui à minha frente. Para que não me sintas morrer mais depressa quando te finto ao espelho, para que nada me abandone à triste memória de um dia ter sido e no dia seguinte não saber que existira.

E para que o mundo não acabe, reverte-se a vontade do dia a um clarão de um único bater de coração, condensado, sentido. Entre dedos preso e entrelaçado, porque não sei mais porquês que os meus. Para que nada me assente melhor que a própria pele, e mais pele não há que a minha para me fazer sentir. Porque me arrepio e enjoa-me não me arrepiar. E tão desperto me sinto para o mundo, para colar o horizonte ao céu, sabendo que entre mãos há sonhos, entre vontades namoram desejos, entre os vales descansam as sombras.

E nada falta, nada mesmo. Este mundo que não ganho, mereço-o. Este mundo que não morre, vive-me. Este experimentar constante, deixando-me a cada dia com mais rugas e mais consciente que sou tão aprendiz como no primeiro dia em que me descobri. Salva-me o dia em que o mundo encerra a maiores emoções. Sufoquemos as vontades, as gulas e maldizeres por entre litros e litros de coisas que façam mal. Engorde-se a preguiça, espanque-se a ira antes do jantar. Haja uma excepção para cada pecado, sem emoção aparente. Apenas calma como um Domingo de tédio, com as amantes ao lado, as vivas e as emparedadas, os troféus falsos, a roupa por lavar, a cara mal lavada, rimel barato, televisão barata, poltrona usada e nem assim perder a classe.

É tudo normal, assim é, assim é... porque tudo o que possa acontecer, é conspirado previamente. Porque tudo o que me ocorra, já foi televisionado. E mesmo que a relva seja regada todos os dias de Verão depois das 8 horas, conspira-se para que sejamos apanhados desprevenidos. Porque no fundo, é-nos indiferente andar à chuva. Assim conspiro contra mim, a meu favor apenas, contra mim. Porque sou, sou eu, e quero sê-lo. Aqui, sou Deus.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Autumnu

Desculpa-me por cometer o erro de ressurgir por entre a folhagem jazida na água, sem que o perfume de Outono fosse altivo, sublime e etéreo.

Aquele sentir impelido pelos enraizados sentidos num destino quase circular ao coração, advindo de um pulsar incerto, redundante, possesso de uma pele que nos fala de solidão.

Desculpo-me em devaneios a sós por julgar que me sei dar, ou pela circunstância de sempre me ter iludido e pensado que o fazia. A melhor hipótese seria cometer perjúrio e sem me importar demasiado pela indelével transformação frente ao espelho.

Consertado o desgosto, pouco antes do aperto no peito por te querer mais próxima de mim, dar-me à terra do nunca sem que a boca se cale pela distante fome dos teus olhos.

E digo sem que as vezes sejam repetidas, sem que os braços desmedidos e nem a dor uma droga necessária, gosta-se da dor mesmo que alheia à realidade. Fascinante mal estar, sorvendo amarguras ao sabor esperançoso de outros esquecimentos.

Para um provável equilíbrio de massas e fontes, descura-se a bondade combatendo a inércia da bonança. Um pouco menos humana, a paixão transcrita entre momentos de euforia e vazios deitados no mármore escuro, entre a ribalta e o declínio oblíquo ao céu estrelado.

É assim, qualquer coisa de bom. Proveniente de outros sabores que ousa a minha língua saber sem descurar ou perder-se em desmedidos adjectivos. Uma palavra que me soubesse mudar o sentido da frase, numa desajustada caução da alma às práticas mundanas. Perder-me-ia noutra voz sem que me viesse de dentro. Com outro fundo de voz, um sussurro em timbre de paladar raro, metálico e frio.

Deixa-me um bilhete à porta que nunca abri, daquela que nunca cheguei a sair. De lá para cá. De qualquer lado sem ser este algum, dizia-me...

"E no desgosto do gosto que longe se fez no alcance da força dos teus dedos, deixo um sonho que o pesadelo da tua ausência me trouxe quando a pronúncia altiva do dia disse à noite que se fosse.

À luz do dia esbranquicei-me numa anemia de emoções, e quase transparente aprendi que a dor é a soma de tudo quanto ofuscou e me ardeu nos olhos que à morte da tua presença no meu corpo se apagou.

Foram lágrimas, como sal que tempera o tempo dos anos que cada hora sem ti faz passar por mim. Destempera a fragilidade do vidro do copo de vinho meio cheio que cada vez me enche mais de vazios.

Apanha-me, finta-me, rouba-me do desespero da palavra que tarda em chegar à curva dos meus lábios, mas silencia. Não digas. Cala-te, guarda-me no segredo da ratoeira que hás-de inventar para me desprevenir desta dor que interiorizo. Faz-me caça do teu desprezo, não serei a pressa em pretérito imperfeito da presa vulnerável e assustada para te escapar... e deste novelo de novelas sem final feliz desenleio uma estória inacabada de paixão.”

Talvez no erro de me já saber nestas linhas, guardo o rascunho de alguém que chorou à beira rio. Palavras vãs de um teatro que crepita na solidão da esperançosa proeza da espera. Tornam-se minhas, por enquanto, e mais as outras tantas palavras e sentidos que nem sei escrever. E olhando para o que fica, nada fiz, nada sinto e pouco faço.

Esta cidade empurra-nos para o limite do horizonte, lança-nos borda fora. Sem um aceno, as ondas vão e voltam... vão e voltam... vão e voltam e pouco trazem para além do suave embate no molhe.
A música triste que se orgulha em tomar almas por este passeio, entre a surdez dos aflitos e apressados, escamoteando-se por entre o cinzento geral. Guardam-se tantas esperanças no lodo a um palmo de mim, de ti, de todos.
São trezentos e sessenta e cinco dias por extenso em que a consciência tanto se inibe de proliferar por todas as bocas da mortal paixão. E fechados estamos, guardados a nada, esquecidos que o céu está sempre sobre as nossas cabeças.

Desmultiplico-me por desculpas em revolver o lodo a um palmo do meu rosto, por entre as folhas jazidas, sem sentir que morro mas sem saber que vivo. Desmembrando os alicerces das camadas de tempo, a nostálgica volta da estação da prata ao final dos dias, da nudez forçada das árvores que me agarram a atenção. A tosse convulsa das chaminés enquadra-se com o frio instalado no rosto e mãos.

Dou-me ao soluço de um trago, este malévolo unguento de me saber agridoce. Enrolo um cigarro numa mortalha demasiado curta, sem cola. Fumo-me na incapacidade de me saber melhor que isto. Desculpa-me por nada, ou então, por tudo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Rosé

Chamar-lhe-ia globalização de males comuns, se não fosse esta paixão cega que nem classificar sou capaz. Sendo apto, ou pelo menos, apontar-lhe um foco de luz para que não se pareça tão mortiça como o próprio autor, uma constante transparência sem um mal entendido entre uma afirmação e outra. Que seja suspeito de crimes maiores de me obrigar a passear pelas ruas na primeira noite de chuva, sapateando silenciosamente, e talvez seja apenas à mente que minto num tanto de sabor a saudade.
É uma contrariedade de perfume brando, mãos suaves e corpo pendido no lábio que insinua beicinho. Apetece-me um doce, com chocolate que não se tenha de mastigar, esperar por um punhado de tempo até que me apresentem a conta. No final até fumo numa pequena saída à rua, já que o hábito agora é fazê-lo lá fora.

- Não, não não… não… - Disse eu enquanto a minha cabeça acenava e um contentamento apoderava-se das minhas pernas. E pronto, já que aqui estou, bebo mais alguma coisa, e hoje que me sinto com tanta secura até me fará encalhar em qualquer pedrinha no caminho de volta, se algo do género ainda existir no fim da noite.

Nem assim aguentei mais que duas horas. Fartei-me, azedei pelo que ingeri, queimei por me ter esquecido. Pisei sem querer matar devagar esta fraqueza pelas luzes frias do café. Nem mesmo a salvaguarda de viver entre três pares de mamas se coaduna com esta fraqueza a que muitos chamam de forma leviana de encarar os factos. Apenas pensava que a vida se subjugava a outros valores menos resplandecentes, e que talvez o preço de cada garrafa fosse o maior dos exageros a que estes mortais se atrevessem.

Enganado estava eu e nem grande mal via nisso. Tão enganado que já andava, tão pouco mais enganado agora, sem nunca me ter dado para acordar na cama errada, apenas deitar-me... apenas deitar-me.

Acordar envolto naqueles hálitos partilhados, no engelho dos corpos transpirados de demasias e excessos. O infernal buraco no estômago de quem não ingere nada há milhares e milhares de anos. Nada tem de errado acordar do avesso, com mais seis pernas e outras tantas mãos. São leves, macias, pequenas travessuras enroscadas como gatinhas. Como gosto deste lastro a batom que me impregna a boca tão beijada e calada na surdez e cegueira da noite.

E dizia-me eu enganado como um saloio caído na confusão da cidade. Oh, como a doçura da travessura me faz entender tanta coisa. Encolho os ombros, reconforto o pescoço do frio da manhã e desapareço por entre uma rua.

Poderia chamar-lhe uma confissão de optimista sem pretensões a grandes actos heróicos. Entregue ao desplante de me conservar entre mulheres rígidas e frias, vendia-me à evidência de três garrafas importadas, duas conspirações de balcão, injúrias já em tom baixinho por entre os sobretudos que se vestem antes de sair pela porta dos fundos.

- Não, não, não e não – Dizia-me a boca que apenas desejava o contrário, morrer entre aqueles seios firmes e perfumados. Já que se é mortal, que seja ao menos escolhido o leito, embebido na colónia importada e oferecida por outros, beijando-me opiácios lábios degustados a tanto, mas tanto prazer sem fundo.

O sorriso surge com a mistura alcoolizante dentro do corpo. O latim gasta-se-me com facilidade nas veladas tertúlias de levar para a cama em festas de protocolo. No fim, pedem-me que lhes dê por trás para que os oficiais não desconfiem dos castos valores intocáveis. Atributos semi-religiosos confinados a supostas clausuras e esperas. A soberba promíscua, as sumptuosas preciosidades, sedas e gemas acabam à porta da quinta divisão virada para nascente, mesmo por cima do piano que jaz na sala. A rudeza da sua carência satisfeita, desaparece por entre o angustiante jogo de luz e sombras. É uma imagem que só se me dilui por entre o odor do cachimbo e a pesada névoa de um passeio sem sentido.

Estala-me a vontade de cair de novo numa cama sem redoma, de enxutas carnes, frágeis respirares sem nunca a tosse parecer-me a um escarro de vinho francês. Talvez porque saiba que de manhã, aquelas pepitas rosadas, espetadas na exuberante forma que a Natureza as fez, de as apertar com o vigor sensato de alguém tão comedido quanto eu. Enrolar-me e estender-me pelos cabelos, sentir quente e frio nos seus corpos baratos quando este desejo me sai tão caro da pele. Cada mão macia que me mexe, cada voz que me trespassa este coração tão mole, vale cada centavo deste tão vulgar declínio dos tempos modernos.

Enfim, hoje como é Domingo decido-me a passear pelo parque. Ser-se visto, comentado e invejado é um pressuposto de mais valia, um certificado de vida. Eu que nem me comovo demasiado com os azares, toca-me imenso aquelas almas que nem sabem ao que sabe um chocolate derretido numa boca que fazemos nossa. A felicidade compra-se, a solidão adquirida.