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terça-feira, 16 de setembro de 2008

N'o lugar do morto

Tudo melhora agora já por fora das sombras, longe de sentir o escuro nos olhos, nos lábios, no respirar. Sendo já parte de um Ontem, ainda que cercano, é um Ontem que passou. Melhora quando penso no pior, quando sangrava sem mais outros "quandos" em que pensar.

Lembro-me de pensar sim, e tudo me parecia tão certo no momento, tão lívido e clarividente. O sangue teimando em não estancar, sentindo gotejar-me por entre as fissuras estendidas de forma aleatória pelo corpo. Tão vulgar que parecia ser tudo comparado ao cheiro intenso da lama no meu rosto.

E pensava eu em coisas tão comuns e perdidas, e para mim ali no silêncio dos mortos, era tudo o que me agarrava à vida. Ali, enquanto me esvaía num nada intemporal, porque para mim já nem tempo existia, e nada me parecia mais importante que um café sem açúcar e um cigarro.

Ali, enquanto sentia um espesso volume contorcido a dilacerar-me algures, desejei num tremendo querer por um pouco de Sol de Inverno. Naquela palidez de cor quase prata, em que 17º centígrados conseguem acalentar sorrisos por entre o frio cortante. Ali estava eu naqueles preparos, atirado para a berma de uma forma não literal, preocupava-me com a mensalidade da internet por pagar, por não ter enviado os dois batalhões de soldados atacar a aldeia inimiga, por ter comprado um volume de tabaco em Espanha e agora estar aqui como uma pedra na lama.

O gosto ferroso e exótico do sangue, coagulando-me a lembrança do próprio nome, laços e pessoas. Ali, preso a uma sucata de nada, limitava-me à desconcertante situação de ter um buraco na peúga direita ao nível do tornozelo. Comprei-a já assim e não voltei para reclamar. Ali, jurei nunca mais lá voltar.

E gotejava, molhava-me com a vida que latejava de dentro para fora, numa eufórica corrente por fora de mim. Ali, na febre que me dava por me sentir preso, cuspindo para não me engasgar, finalmente soube na pele qual era a sensação de me sentir do avesso. As tripas na boca, o fel no coração, os olhos no chão, os pés nem sabia deles, já não sabia de nada. Ali, na intermitência de cerrar e abrir os olhos pela fadiga, nem sabia se o medo algum dia tivesse passado por mim ou até mesmo todo o seu significado e tudo o que se encerra em si. Calcinava-me sim, não ter hora para voltar a encostar a cabeça na minha almofada, de passar horas a fio a esquecer-me do corpo.

Tanta coisa importante me passou, e insatisfeito por tudo, chateava-me sentir as pernas presas e húmidas dos sulcos abertos na carne. Parecia-me tudo uma tremenda chatice, quando lá fora era tudo tão mais agradável. Se ao menos soubesse onde estavam os meus cigarros, mesmo de cabeça para baixo inalaria toda aquela pequena poção de veneno.

De facto, sentia-me morrer aos poucos, como quem desce por uma escadaria rolante sem dar por conta que tudo acaba lá em baixo. A verdade é que morria um pouco mais depressa que o costume. Ali, mesmo definhando entre convulsões e tremores, praguejava contra os que diziam ter visto a luz, o túnel, a leveza de deixar a carcaça, toda a vida correr-lhes pelos olhos moribundos. Ali, de cabeça para baixo, fracturado em várias realidades disseminadas pelo corpo, sentindo o único decilitro de sangue a querer sair-me por qualquer lado para se aliar à lama, aquecia-me a única palavra à altura de tamanha conspiração; merda. Uma verdadeira merda. Merda para o túnel e para a merda da leveza. Merda para os "flahsbacks". A única coisa que me passava pelos olhos e semelhante ao flash era um pisca pendurado pelos fios, iluminando aquela desgraça. Merda que nem fumar podia.

Ali foi assim, a revolta para o nada em que me sentia, tão pouco fui ali que até uma brisa seria capaz de me apagar. Tão insuficiente até para olhar em redor, tão pouquinho para penar-me em outros lamentos. Concentrava-me na fixação pelo cigarrinho, sendo a última coisa que me faltava.

Agora e aqui, por enquanto ainda me dói um pouco quando fumo. Vou lá devagar, com o tempo que acertou contas comigo. Quando o resto são mazelas e marcas de algo que agora se trata como um "quase" nada, um "quando" marcado na pele e na alma, por um pequeno desvio que se fez por um apeadeiro mais assombrado. Ali, fui apenas um necessitado de nicotina.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Transitário


O dia começava de forma lenta, e pela cadência do semáforo, não havia grandes motivos para me sentir melhor. De uma pausa demorada e repleta em morte angustiante de sono, pensava apenas em como seria bom chegar dez minutos antes do mesmo tempo que tinha feito ontem.

Arrasto-me pelo asfalto entre as cinco faixas entupidas, hipertensas e desesperadamente eternas. A vida caótica do comum que se torna cada qual dentro do seu mundo de lata, sobre rodas, no habitáculo climatizado em sintonia com o cinzentismo da paisagem.

Vou, arranco, acelero um pouco, embraiando o silêncio, o pensamento, a vida refém de mim. O tempo esgota-se, o sol sufoca e o aperto do cerco no cruzamento condensa monóxidos, suores e desesperos. E nada mais me resta, e pouco importa, nada mais que chegar cinco minutos antes de ontem, arranjar um lugar e fugir para o escritório.

Como me reencontro com quem julgava ser, sem ter de esperar a mesma eternidade que separa a Céu do Inferno. Convenço-me que o grito não passará para o exterior do habitáculo de vidros escurecidos e cercados por um friso de plástico cromado.

Bem fundo, com custos adicionais à minha saúde, corpo lato, mente flata, dormente de qualquer sentido que me tire desta demência que aceitei desde o primeiro dia.

Cerca-me uma vontade de me atravessar na fila, barrar o caminho já de si barrado. Criar um enclave simplesmente por querer. Morder os lábios e quebrar ar rotina, num assalto de memórias leves de um êxodo das próprias vontades. Tudo torna-se num único momento em que eu escolhi e tomei a decisão, justificando-me apenas com um "porque sim, porque quero, porque posso".

E aqui entre alcatrão, plástico e metal, tudo se desvanece em segundos, como aguarela desmaiando na sarjeta sedenta de cor. E por ter reagido três segundos mais tarde ao semáforo, ainda fico sujeito a buzinas, mãos no ar e umas quantas considerações menos amigáveis.

Embraio, acelero, travo, embraio, ponto morto. Morto estou e nem sabia, com o sol mesmo do meu lado, com a vontade a viver fora de mim. Falando num plural que apenas faz parte de mim, sem lugar para os outros, sem entrar pelo ambiente condicionado e climatizado. Sem o odor do plástico coreano, ou fragrâncias como post-it no retrovisor. Todos seguimos pelo mesmo caminho e nada nos liga.




image by LampadaMervelha

sexta-feira, 4 de julho de 2008

|M|ãe D'aqui

Olhando para o que ficou de comum entre as nossas vidas, pensava-me de forma imutável após qualquer transgressão. As ofensas não me trairiam nas marcas que deixavam, ao invés da consciência, incapaz de me ajudar, ficava-se pela janela acenando-me enquanto me deixava partir para mais um desgosto.

Sitiado pelo agreste olhar de quem morre à sede no deserto de um abraço, pedia-me a sua boca um sorriso da minha. Talvez fosse mais fácil desviar a atenção para um outro ponto de fuga, para mais longe da possível visão. Sem querer reconhecer que tenho tanto dela a percorrer-me no sangue, sabendo estar ao alcance de qualquer veneno. Saberia a sintonia entregar-se à minha vontade. Nada importa quando a estupidez ultrapassa a razão. Tão somente uma ou outra metáfora que me sirva de incentivo para a noite.

Sem tirar os olhos de mim, movimentava todo o seu corpo pelo quente e árido ambiente. Cheira a secura, ar quente que me consome por dentro, é bom demais de sentir. O odor da erva na terra enxuta de saudade, chama no olhar que acalenta esta fogueira perdida entre campos de amores desfeitos. O meu verdadeiro interesse estava centrado além mais do gesto provocador de humedecer os lábios com a língua. Apetecia-me matá-la. Não de uma forma qualquer, matá-la com aquele sorriso de menina, sufocá-la entre beijos, injectar-lhe a minha seiva, todo o meu mal dentro de si.

Talvez devesse percorrer a minha pele com unguento de má fama, uma certa forma odorífera que me provocasse a transpiração do mal. Por vezes tanta doçura assusta-me, e sem ter a certeza da pessoa que carrego entre braços, um arregaçar de mãos para o mergulho no escuro, de cabeça à espreita de um final comum. Diariamente encostar a cabeça ao ombro, cansar-me de repetidamente dizer que está uma tarde infinita.

A memória consumida à ténue luz dos seus olhos, os pergaminhos descolados da retina que se fez eterna. Manto silenciado, causa o transtorno pequenas fugas de expressão. Expectante sombra pairando sobre nós, e tão bem que aqui ficamos, sem ir nem voltar. Vela a surdez a morte da voz, antecipando qualquer pronúncia ou articulação do sucedido. Inveja a escuridão toda a luz sem saber que a translúcida desdenha a sua fina silhueta de cetim nocturno. Nem mesmo o vento, ao qual segredei uma confessa vontade, tem o querer suficiente de existir sem que se compadeça pelas tardes cálidas, imensas de acalmia.

Sedimentam as mãos no meu rosto esquecido, no tempo que urge bater à porta, chamando-me para a rua. Para lá do instante, da margem com pé, da relva aparada, os seus avanços acompanhados do ondulante sentir, a terra vermelha nos pés descalços, todo o sorriso que nasce em cada um de nós. Ofereço um cigarro à pausa repetida vezes sem conta, sem nadas, nem suposições ou esclarecimentos. Nada se pede, nada se apaga, tudo se esquece quando dobramos naquela esquina que tanto já viu e amparou na sua vida.

Jazem ali poetas por entre castelos de areia. Homens na sua ligação à vida, à corrente do pensar em sentimento que perdurará enquanto houver memórias. Vivem agora crianças que no mais importante das suas vidas, é escavar um fosso maior para desmotivar o inimigo imaginário. Assim as guardámos dentro de nós, as mesmas crianças que ainda somos, escavando mais, mais fundo que julgamos ver da superfície. E para nada. A maré chega e todo o areal retoma o seu rosto dourado ao sol, a tempo de reescrevermos todo o final, e sim, recomeçando do princípio uma vez mais.