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sexta-feira, 4 de julho de 2008

|M|ãe D'aqui

Olhando para o que ficou de comum entre as nossas vidas, pensava-me de forma imutável após qualquer transgressão. As ofensas não me trairiam nas marcas que deixavam, ao invés da consciência, incapaz de me ajudar, ficava-se pela janela acenando-me enquanto me deixava partir para mais um desgosto.

Sitiado pelo agreste olhar de quem morre à sede no deserto de um abraço, pedia-me a sua boca um sorriso da minha. Talvez fosse mais fácil desviar a atenção para um outro ponto de fuga, para mais longe da possível visão. Sem querer reconhecer que tenho tanto dela a percorrer-me no sangue, sabendo estar ao alcance de qualquer veneno. Saberia a sintonia entregar-se à minha vontade. Nada importa quando a estupidez ultrapassa a razão. Tão somente uma ou outra metáfora que me sirva de incentivo para a noite.

Sem tirar os olhos de mim, movimentava todo o seu corpo pelo quente e árido ambiente. Cheira a secura, ar quente que me consome por dentro, é bom demais de sentir. O odor da erva na terra enxuta de saudade, chama no olhar que acalenta esta fogueira perdida entre campos de amores desfeitos. O meu verdadeiro interesse estava centrado além mais do gesto provocador de humedecer os lábios com a língua. Apetecia-me matá-la. Não de uma forma qualquer, matá-la com aquele sorriso de menina, sufocá-la entre beijos, injectar-lhe a minha seiva, todo o meu mal dentro de si.

Talvez devesse percorrer a minha pele com unguento de má fama, uma certa forma odorífera que me provocasse a transpiração do mal. Por vezes tanta doçura assusta-me, e sem ter a certeza da pessoa que carrego entre braços, um arregaçar de mãos para o mergulho no escuro, de cabeça à espreita de um final comum. Diariamente encostar a cabeça ao ombro, cansar-me de repetidamente dizer que está uma tarde infinita.

A memória consumida à ténue luz dos seus olhos, os pergaminhos descolados da retina que se fez eterna. Manto silenciado, causa o transtorno pequenas fugas de expressão. Expectante sombra pairando sobre nós, e tão bem que aqui ficamos, sem ir nem voltar. Vela a surdez a morte da voz, antecipando qualquer pronúncia ou articulação do sucedido. Inveja a escuridão toda a luz sem saber que a translúcida desdenha a sua fina silhueta de cetim nocturno. Nem mesmo o vento, ao qual segredei uma confessa vontade, tem o querer suficiente de existir sem que se compadeça pelas tardes cálidas, imensas de acalmia.

Sedimentam as mãos no meu rosto esquecido, no tempo que urge bater à porta, chamando-me para a rua. Para lá do instante, da margem com pé, da relva aparada, os seus avanços acompanhados do ondulante sentir, a terra vermelha nos pés descalços, todo o sorriso que nasce em cada um de nós. Ofereço um cigarro à pausa repetida vezes sem conta, sem nadas, nem suposições ou esclarecimentos. Nada se pede, nada se apaga, tudo se esquece quando dobramos naquela esquina que tanto já viu e amparou na sua vida.

Jazem ali poetas por entre castelos de areia. Homens na sua ligação à vida, à corrente do pensar em sentimento que perdurará enquanto houver memórias. Vivem agora crianças que no mais importante das suas vidas, é escavar um fosso maior para desmotivar o inimigo imaginário. Assim as guardámos dentro de nós, as mesmas crianças que ainda somos, escavando mais, mais fundo que julgamos ver da superfície. E para nada. A maré chega e todo o areal retoma o seu rosto dourado ao sol, a tempo de reescrevermos todo o final, e sim, recomeçando do princípio uma vez mais.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

|M|aria |A|mélia

Maria Amélia fazia-se à rua com a mesma forma pesada de quem arrasta grilhões de um coração na boca. Abria o pálido rosto à luz do dia por entre a franja imprecisa e descaída. Era o choque diário de um coração cauterizado por imundas mãos, hoje alheias à violência da incessante lembrança. Nem todo o mundo lhe bastaria para a fazer querer voltar a este.

Cala-se, redobra os votos de silêncio já de si morto, pútrido sabor de um círculo trágico, triste e funesto. Afasta os espíritos de qualquer boa memória no habituado cerrar de olhos, fincando os dentes em toda a extensão dos seus lábios, até que a dor se torne insuportável.

Maria Amélia entregara-se à emotiva e incondicional divindade da outra margem do sonho. Os braços abertos na saudade que desconhece o destinado. A sua espera lacrimejada, petrificado caule de um soluço rebento, sem que exista uma vã oportunidade de rasgar todo um passado. Junto à berma da estrada, caminha Maria Amélia, sozinha.

Sua odiosa criatura de mãos frágeis e fracas, num corpo débil e amante da derrota. Servil boca da vergonha, dos medos frente ao espelho. Olhos que mais enganam, enxergam eles a cegueira enraizada tão dentro de si. Que verdade, se a mentira é o alimento da loucura.

Maria Amélia não respira. Morta nas palavras que não se trocam, fria para o calor da partilha, exaurida de um único gesto que revele um sorriso. Acorda Maria Amélia, acorda ela com o sangue coagulado à volta do coração, na sua roupa engelhada e fria de vida. Cheira ao bafio do nojo, à repulsa de mais se querer entre os próprios ossos.

Eterna noiva que espera pelo amor defunto. Espinhando todo o caminho, cravando-se nas mesmas rosas feitas da sua carne. Murmura a vontade de não querer ser mais que um lasso trejeito, deambulante dissabor de uma vida já de si perdida à nascença. Compunha-se num género indescritível de desvelo, ténue lembrança de destroços deixados ao abandono da entrega ao nada que vive em si.

Maria Amélia escondia os olhos, cegava a cura, escondia o nome da sua doença, conspirava em morte contra a solução. Escorrega na calçada com a fraqueza alimentada pelas suas mãos. Tropeça nos pés de quem passa, empecilha, apagada, estropiada sentimental, caída entre peões. Ardem-lhe as pequenas pedras e impurezas nas feridas das mãos esfoladas.

Imprudente, descuidada, és tu Maria Amélia o nome que te inventei. És tu a desconexa, inconveniente e irreflexiva mutante que tanta vez assumi na minha vida. Grito-te Maria Amélia que na fúria foste parida, jurada à escrita de fel, na tua pele branca e lábios carmim.

Solto-te o cabelo Maria Amélia e tornas-te de novo Mulher.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

|A| po|ss|ibilidade


Reduz-se ao papel o estalo de uma violência calada, usada, ousada em permitir que a fúria das palavras me levem para mais além.

Nada que me escorra se ecoa por mais agreste paisagem em que nada me compensa o grito vazio de ti. Sem nada que me apague da memória, na mesma que nem se lembra a história de a fazer mais alegre.

Serias tu, menina que chora, na sombra de um ombro que petrifica no olhar mais distante que os teus soluços. Sai-me assim, como o lenço de linho do bolso, aos poucos manchado pelas lágrimas que redobram ao compasso dos sinos.

Dizes-me, na tua lívida expressão procurando uma redenção.

- Vou-me embora, por agora que nada tenho para te dizer. Que a fome não te doa até que volte com as nuvens.

E respondo-te num gesto de recuo, enjeitado e escondendo a mão que te acena no adeus.

- Não vás...

- Porque o dizes assim?

- Porque sem que o tenha de dizer de outro modo, fazer-te mais, maior em beijo ardente, complacente do teu sorriso. Seria amar-te em cada respirar de vida oferecida, por cada dia que eu viva.

- Não posso. Não podes. Não podemos.

E partes como os outros que se foram esquecendo e ficando esquecidos. Deixando-me partido, aparte, quebrado no bramido mansinho de quem morre esvaído de algo que não se vê. Não posso, não podes, não queremos. Antes o luto que a luta.

Poderia um sentido ajudar-me nesta angústia. A letra tingida, segura na amargura da tinta, veneno desta soltura que me lembra os teus cabelos.

Ao ponto de fuga no retorno de um dia... um dia talvez quebre a jura de mim.

Um dia.

imagem: http://lampadamervelha.photoblog.com