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quinta-feira, 12 de junho de 2008

|M|aria |A|mélia

Maria Amélia fazia-se à rua com a mesma forma pesada de quem arrasta grilhões de um coração na boca. Abria o pálido rosto à luz do dia por entre a franja imprecisa e descaída. Era o choque diário de um coração cauterizado por imundas mãos, hoje alheias à violência da incessante lembrança. Nem todo o mundo lhe bastaria para a fazer querer voltar a este.

Cala-se, redobra os votos de silêncio já de si morto, pútrido sabor de um círculo trágico, triste e funesto. Afasta os espíritos de qualquer boa memória no habituado cerrar de olhos, fincando os dentes em toda a extensão dos seus lábios, até que a dor se torne insuportável.

Maria Amélia entregara-se à emotiva e incondicional divindade da outra margem do sonho. Os braços abertos na saudade que desconhece o destinado. A sua espera lacrimejada, petrificado caule de um soluço rebento, sem que exista uma vã oportunidade de rasgar todo um passado. Junto à berma da estrada, caminha Maria Amélia, sozinha.

Sua odiosa criatura de mãos frágeis e fracas, num corpo débil e amante da derrota. Servil boca da vergonha, dos medos frente ao espelho. Olhos que mais enganam, enxergam eles a cegueira enraizada tão dentro de si. Que verdade, se a mentira é o alimento da loucura.

Maria Amélia não respira. Morta nas palavras que não se trocam, fria para o calor da partilha, exaurida de um único gesto que revele um sorriso. Acorda Maria Amélia, acorda ela com o sangue coagulado à volta do coração, na sua roupa engelhada e fria de vida. Cheira ao bafio do nojo, à repulsa de mais se querer entre os próprios ossos.

Eterna noiva que espera pelo amor defunto. Espinhando todo o caminho, cravando-se nas mesmas rosas feitas da sua carne. Murmura a vontade de não querer ser mais que um lasso trejeito, deambulante dissabor de uma vida já de si perdida à nascença. Compunha-se num género indescritível de desvelo, ténue lembrança de destroços deixados ao abandono da entrega ao nada que vive em si.

Maria Amélia escondia os olhos, cegava a cura, escondia o nome da sua doença, conspirava em morte contra a solução. Escorrega na calçada com a fraqueza alimentada pelas suas mãos. Tropeça nos pés de quem passa, empecilha, apagada, estropiada sentimental, caída entre peões. Ardem-lhe as pequenas pedras e impurezas nas feridas das mãos esfoladas.

Imprudente, descuidada, és tu Maria Amélia o nome que te inventei. És tu a desconexa, inconveniente e irreflexiva mutante que tanta vez assumi na minha vida. Grito-te Maria Amélia que na fúria foste parida, jurada à escrita de fel, na tua pele branca e lábios carmim.

Solto-te o cabelo Maria Amélia e tornas-te de novo Mulher.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

|A| po|ss|ibilidade


Reduz-se ao papel o estalo de uma violência calada, usada, ousada em permitir que a fúria das palavras me levem para mais além.

Nada que me escorra se ecoa por mais agreste paisagem em que nada me compensa o grito vazio de ti. Sem nada que me apague da memória, na mesma que nem se lembra a história de a fazer mais alegre.

Serias tu, menina que chora, na sombra de um ombro que petrifica no olhar mais distante que os teus soluços. Sai-me assim, como o lenço de linho do bolso, aos poucos manchado pelas lágrimas que redobram ao compasso dos sinos.

Dizes-me, na tua lívida expressão procurando uma redenção.

- Vou-me embora, por agora que nada tenho para te dizer. Que a fome não te doa até que volte com as nuvens.

E respondo-te num gesto de recuo, enjeitado e escondendo a mão que te acena no adeus.

- Não vás...

- Porque o dizes assim?

- Porque sem que o tenha de dizer de outro modo, fazer-te mais, maior em beijo ardente, complacente do teu sorriso. Seria amar-te em cada respirar de vida oferecida, por cada dia que eu viva.

- Não posso. Não podes. Não podemos.

E partes como os outros que se foram esquecendo e ficando esquecidos. Deixando-me partido, aparte, quebrado no bramido mansinho de quem morre esvaído de algo que não se vê. Não posso, não podes, não queremos. Antes o luto que a luta.

Poderia um sentido ajudar-me nesta angústia. A letra tingida, segura na amargura da tinta, veneno desta soltura que me lembra os teus cabelos.

Ao ponto de fuga no retorno de um dia... um dia talvez quebre a jura de mim.

Um dia.

imagem: http://lampadamervelha.photoblog.com


segunda-feira, 19 de maio de 2008

|c|ru

Queria a veia carnuda e cheia de tanto me sentir nas tuas mãos, fazeres-me gemer ao ouvido da tua teia maliciosa. Treme, teme por quem nada mais tem a dizer nos silêncios entre palavras, despojos, lembranças que se revelam segredos. Saber-me-ás clamar em noites que não esteja aqui.

Que tens tu guardado nessa mão tão fechada, cerrada a pulso firme do tamanho da afirmação em que me tentas forçar o murro. Violenta passagem pelo filamento incandescente da suposta razão, sustenta-me em mais um sonho de fio negro tecido entre as nossas bocas.

Por dentro de nós, o que és para além de quem sou, a mais sobeja do desconhecido mundo obscuro. Beija-me, beija-me com toda a paixão que possas inventar. Beija-me agora que o mal não se me pega à pesada forma de pensar.

É tarde, mas nem por isso julgo que o tempo tenha passado em excesso, pela demasia em me julgar lesto e quebrado no feitiço. E porque razão penso tanto em ti, continuando a inventar-te nas frases, mesmo quando estás ali apenas a um compasso do coração. Ali estás, no mesmo tempo que é meu, e mesmo assim, tudo é tão diferente de olhos fechados.

Sinto-me sim, esgotado de tentar interpretar as próprias palavras do meu coração. Necessitaria de mais palavras para ditar um pacto que me desse a satisfação necessária a uma sensação, invariavelmente nunca conquistada, de me sentir saciado. Encanto-me pelo desconhecido, o irreconhecível que acorda todos os dias assim, bem entranhado em mim.

Queria a tua veia absoluta e cheia de tanto me olhar pelas tuas carícias, fazeres-me calar à boca da tua voz matinal. Diz-me, pinta-me nas mesmas cores em que os dias se fazem ao amanhecer, apenas nos sons que colam silêncios. Segreda-me o teu sorriso, lembra-me de te lembrar. Saberá a ausência clamar-nos de noite, sem estarmos, sem sermos, sem nada que nos toque.

Não respires, não ouses afastar, não me queimes à tua luz, não negues, não me digas nada mais que nada. Contraria, continua, assim como o barco balança na ondulante sensação de um gesto mudo, surdo para te ouvir de novo. Contrasta-me esta vontade de tanto querer-te que nada mais se me aparenta vivo.

Nem que me repita toda a noite, o tamanho ímpeto insiste na cumplicidade das veias ao aleatório ponto final. É curto. Tudo é tão pouco, o que possa dizer. Cru, sou eu.