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quarta-feira, 26 de março de 2008

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Leva-me para além da história que me contas. Tens graça, linhas suaves transfiguradas neste querer-te mais. Mais amor… dá-me mais. Arranca-me do papel, para fora das margens. Sou-te contada em segredo, em modos de escolha, nesta pele de seda.

Dá-me mais… mais amor. Feita na medida do teu sorriso, poente de um destinado caminho. Puxo-te para mim, bem para o meio das minhas pernas desnudas. Dá-me amor… dá-me mais.

Pertenço-te na palavra que acredito nascer em mim. Arranco-me aos poucos de raízes nefastas, quero que me tenhas sem venenos. Lê-me entre as palavras, murmura na minha língua, percorre-me na saliva que espero. Vem amor… dá-me mais.

Sinto o corpo ondulante, de mais, por mais, demais. Aguento-me, sustenho-me só por este instante. Vem, dá-me mais… não consigo, não quero esperar.

Agarro-te em força maior que o próprio desejo. Ávida de ti, sedenta de me provar nos teus dedos, pelo teu corpo. Sou louca, louca, e mais louca porque me repito. Repito-te, dá-me mais… mais amor. Vem, vai. Volta, volta-me e vem. Vai e vem.

Intensifico, revoluciono, ao rubro roças entre as minhas paredes. Aperto, engulo, dissemino-me entre a atmosfera e o teu corpo. Estou quase a resolver-me, a confrontar-te olhos nos olhos, dá-me mais… vem, dá-me.

Atinges-me certeiro no espasmo, no gemido, quero-te mais, amor… mais fundo, vem. Conheço o teu gosto, esse sabor de rosto duro e fechado. Cada traço que me lanças, quando a tua força me comprime, e eu peço-te, vem amor... quero-te mais.

Inventas-me a cada instante, percorres-me por curvas que nem ousara imaginar. O regalo da rudeza no firme peito que te ofereço, este abraço colado à delicada pele que me rasgas de mansinho. Sabes-me àquelas tarde findas de universo do Sol, ao calor que me trouxe até ti, à imensidão constante dos teus olhos terrenos.

Sabes-me a mais que fruta, na minha boca, a tua seiva maturada ao gosto quente da tua febre. Dá-me com tudo o que tenhas para me dar, vem com tudo o que tenhas para vir. Apenas vem e dá-me, sem recorrer à certeza de tanto querer, na consciente entrega construída a dois. Entre os pólos impera o magneto de tamanha vontade, esta que me aflige na tua ausência.

Esfumar-te sobranceiro, tingir o fuste nas minhas cores garridas, nos tons de luta libertina e jocosa. Aglutinar-te em termos impiedosos, imperativos, incessantes e travessos. Vem. Dá-me quando te der, preenche-me quando te estimulo, injecta-me quando te monopolizo. Goteja, queima, vocifera, derrama e lambe. Prova, comprova, mistura e entrega-me de volta.

Na boca, pelas tuas mãos num todo que sou, por toda em que me desfazes. Lavra-me dia e noite, sobrevive ao dilúvio da minha enxurrada. Olha-me como se nunca me tivesses visto. Olha-me e sente-me nua, tão pura… apetece-me, aqui, aqui mesmo, sentir-te bem fundo.

Essas mãos que me tocam, as mesmas que me escrevem em toda a pele. Esta loucura da sede que me dás a sentir, arredada do sonho que termina da mesma forma. Vem, mais fundo, para além da longitude dos nossos corpos. Quero-te mais perto, mais quente, bem dentro.

Mais adiante, sem perturbar o sonho instalado nos meus olhos, abraço-te em toda a noite, até que me preenchas o dia. Instala-te entre os meus ossos, no berço criador de nós, seio de tantos sorrisos e suores. Vem, mais forte, bem denso como o vento que me queima no desejo do sol. Vem, com a tua força de homem que me pressiona. Dá-me, vem oferecer-me aquele gesto que só tu sabes, faz-me sentir aquela sensação no fundo de mim. Apenas e só, vem e dá-me tudo.

quarta-feira, 5 de março de 2008

|O|ssos

Neste enclave tão estreito, apertado pelas próprias mãos, seguro-me entre os ossos. Esses compostos porosos, ansiosos de maiores plenitudes. Dispostos por ordem, pela regra que alguém se lembrou de lhes dar nomes tão estranhos quanto nós. Ossos meus que não temem o ócio de Domingos. Nem tenho em memórias quantos são, quantos já foram, os ossos e as letárgicas tardes.

São ossos, homens e mulheres convexos ao natural, julgam-se inquebráveis mas a tamanha palidez segura-me na certeza da fragilidade. Suportam-me o mundo no mundo, para o mundo que está mais além deste, até à linha que me separa daqui e de lá. Simpáticos, silenciosos por entre a carne, a estrutural rigidez do projecto inalterado, que de tão forte nos tomam a consciência tola de pensar que não podemos perder a fraca figura vertebrada.

São-me espinha na verticalidade a que me dou, por vezes, sujeitando-me à dor que me enche a boca de palavras alheias e avessas. Ossos que enchem a pária de maleitas, tanto suportam homens como alimentam o infortúnio. A pátria que os pariu para depois os ver cair por qualquer coisa que os unia para além do músculo. Mais valorosos ossos sem nenhum mal que lhes padeça, secam hoje ao sol entre as extensas planícies da primavera.

São quentes à fria sombra do esquecimento, são frios no intolerante golpe da fractura. Até ao tutano, sem que me dê a volta pensada, da lasca que sobra de um corte transversal pela hipotética evolução. Se continuo aqui entre eles, e eles em mim permanecem, que mais ossos são que não estes, os que penso e faço em mim. Que mais ossos que não os outros, se tanto os namoro sem os querer. Se tenho ossos que nem meus são por direito, enfim, outros já terão suportado e aturado os seus queixumes. Lamento eu saber que não os tomo por minha conta, serão de novo vadios quando me retornarem à procedência do pó.

São ossos, duvidosos porque não os vejo. Dizem-me que os tenho, penso que os sinto, acredito que sejam. Constroem-me mil ofícios, mas o mal prematuro da lesta destreza confina-me ao saber só meia dúzia. Mais ossos são na ausência do meu breve coração colado ao teu, enjaulando-me a alma entre as costelas, sem que o espírito se aprisione a pensamentos menores que a liberdade.

Não se fazem à graça da tormenta seja qual for o seu nome, mal a culpa se afasta por entre as nebulosas ocupantes do céu. Não menos pessoa seria, sem estes ossos que me fazem nesta cadência de pensar, sobrepondo-me como pedra a pedra numa muralha. Mantém-se o anonimato do que me fortalece a culpa de desvendar que o obituário não é mais que uma relação de ossos descomprometidos e desvinculados do fardo da carcaça.

Alimenta-se a saudade com palavras cinzentas, pinceladas de grés na ossada que me morre pela boca. Os aplausos não se coadunam com a posição inerte colada à sombra da memória tornada imagem. Criam-se clareiras por entre o destino, decompõe-se o corpo num processo hostil, ossos que gritam pelo despego. Sustentam-me as falanges entre a concepção e o término das palavras. Esta afeição criada com o que julgo ser meu, este esqueleto que não me limita no papel, marca antes o desapego pelo condicional.

Ossos deixados na berma da torrente, nus e lisos, ao sabor do imaginário de cada um. São jazidas de supostos indivíduos com nome, perguntando-se antes de quem eram e não quem são. A identidade mantida entre a carne, esquecidos ao acaso, omitidos, guardados em estúpidas caixas que se esquecem com o tempo. São ossos, no dolo de apenas lhes chamar assim, apenas ossos, só ossos
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domingo, 24 de fevereiro de 2008

|t|enebras

Em boa carta te envio este pesar sem olhar para trás. Descortinado em tantos nenhures da alma, presa apenas a um aquém da saudade que se estende a uma chaga de lágrimas. Meu filho, repito-te, meu filho de legítimas virtudes, fonte de tão saciadas bocas para quem não eras apenas um inocente e incólume ser. Os incrédulos sorrisos batiam asas ainda antes do anoitecer, ao crepúsculo das palavras que segredavas entre essas paredes, tornavas-te cada vez mais aço, mais forja e lúgubre poço sem fundo.

Sou tua mãe em sentimento feroz do silêncio que carrego, pesando-me nos ombros a sobranceira vontade de quereres partir. Pari-te em tantas dores, guardei-te em tantas esmolas e frios. Fiz-te homem de sabores imensos, tão intensos e sem saberes quem eras na verdade. Pequei pelo abandono à arte de te deixar no fel, às lonjuras que vivias nas minhas complacentes carícias. Aprendeste a lidar, não querendo mas consumias o mal. Em tão inversa palavra me dizias, e em tão viciante mal me olhavas. Era eu a mãe de todos os horrores, o teu grito pelas grilhetas na maior das vontades, a tua.

Das tuas primas nefastas com que a tua alma se deitava, deixavas o corpo num canto ao acaso, sem memórias maiores de alguma noite mais digna que um trémulo brilho de candeias. Suspiravas. Aspiravas a mais, como um guerreiro que não teme a derrota, nem a morte ser vista assim. Dizias-te perene, sem vacilar, e no entanto, a tua arena era o meu ventre. Tão meu menino, tão basáltico este orgulho de te ver na espiral do meu abraço.

Sinto-te cheio de um sangue que já nem reconheço a cor, nem cheiro o pesar que te ensinei a ter. Vejo-te num espectro que me cega em pungente saudade por já não estares, por já não seres quem eras. Fazes de mim uma sobra, um resto de trapo sujo, condenada a ressequir-me à luz dos teus olhos. Não me orgulho por completo, preferia o teu coração negro, aliado à tormenta de não te encontrares.

Nem a sombra das tuas memórias te trazem de volta. As tuas legítimas esperanças afastam qualquer ensaio de um luto que não te caiba. A servidão a que se estendia o teu sentir, tão inebriante que até eu me tornava tua amante. Oh, como me eras tão mal... a melhor das promessas para disseminar a semente de um império. Tão mal que me eras, tão bem que te curas.

Hoje sou eu que me provo, e tu já nada me és.