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domingo, 13 de janeiro de 2008

A.

Deitada na cama, todo o quarto me parece igual. Na estranha aparência que liga a realidade ao que vejo, por raros momentos, tenho a noção de que o mundo gira no sentido correcto.
A quebra do silêncio, na minha profunda respiração, olho para bem mais longe que as persianas meio cerradas. Pestanejo, sinto o ardor no olhar de quem tanto olha para nada. Acima dos meus ombros, bem acima de qualquer suspeita, desespero pela rugosidade instalada nas minhas paredes. Toda a muralha do meu reduto faz-me morrer sozinha no dia.
A tarde, essa que morre comigo, na sua lentidão do costume. Acompanho-a. Oferece-me as suas mãos, como amante que me embala. Desejava conseguir acompanhar o teu coração, como a sombra segue o sol. Ali, para além do horizonte, tudo mais que a minha realidade.
Nos olhos de ver, é tarde demais para recorrer a uma acção que interfira a inércia. Fico-me na quietude, no estranho combate em que tudo se entranha, na minha voz que te grita. Incessante e exaustiva, é sim, toda a minha vontade de te abraçar. Este espelho que me enegrece, deformando o que já por si está, as horas que passam em corrente maior, sem que me sinta segura aqui.
As asas que me ofereces, de cada vez que nos encontramos. És tudo o que nunca achei, mais além daquilo que procurava. No teu silêncio carregado, calcas a minha pele. Arranhas-me com o teu sussurro de emoções. A sensação de me beberes quando consumamos o gesto, quando sais de mim e me deixas quente, por dentro.
A estreita linha que nos une, bastante para fazer do mundo um lugar pequeno para nós. Tu e eu, a cada reencontro, a entrega que se dá neste sentido, voraz em esquecer tudo o resto. Tu e eu, paixão. Amor, permite-me que te trate assim, Amor.
Queria poder agarrar-te com mais força, em vento que enche as velas. A vontade, tanta mais que toda aquela que possas imaginar. Queria prender-te ao meu peito, colar-te em todo o espectro de luz que és num outro brilho. As tuas mãos, macias no toque, fortes na posse, no meu quadril despido pelo nosso desejo. Amor, diz-me em voz segura, não te permitas mais a esta longitude que nos aparta do mesmo entardecer.
Mesmo que me mintas e te escondas, atrás desse mesmo papel inventado por ti. Mesmo nesse teu mau génio que admiro, diz-me que o teu coração, na bondade do homem que preserva, não se esquece de quem o espera.
Concede-me o desejo de me apoiar em todo o teu trono. Aveluda-me a língua, gasta por esgotar-te em palavras que te chamam. Oferece-me outro do teu sorriso, tornando bem maior o orgulho por te sofrer em cada instante do dia. Esperar-te Amor, em que nem as pedras ficam indiferentes, as mesmas que servem de referência na rota de te voltar a ver.
Que me ardam os olhos de tanto te olhar. Que te ame em palavras semelhantes que me escreves. Eu, palavra em que me transformo, Amor, palavra que te sou e pertenço. Escrevo-te no escuro, no mesmo em que guardo a minha saudade. A sombra que nunca te larga, a mesma que segue o sol, até onde estejas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Queijo bom, queijo mau.

Roliço, submisso, bonito menino que tive na mão. Apaixonada, ruindade gostosa de te azedar nas minhas mãos. Tens grito, desespero, fundo esse que me deixa louca. Tens fé, fundo que não atingi, tens a força de homens que não és, estás louca. Estou em mim, estive em ti, por todo o lado, sem querer chegar. Não partiste nem chegaste, não ficaste e nem vieste sequer. Não te entendi, não me resolvi. Não te resolveste nem me dissolveste. Não quis! Não me quis! Querias. Crias. Acreditei que te matava. Acreditei-te, em tantos créditos. Crivaste-me de balas na tua saliva. Ai a tua língua. Em mim, em ti, de mim, para ti... que é de nós! Sou boa, sou má. Sou melhor, já estive melhor. Para bem de nós, melhor dos melhores. Somos momentos, pedacinhos meus em ti. És boa, repito-te. Não te repitas, repete-me. Remete-me para o teu recanto, querendo ser tua dor. És-me mais que sol. Dás-te mais que lua. Façamos, fizemos, faremos. Disseste. Disse-te assim, como era. Desnudei-te à força. Eu gosto. Gostei que tenhas gostado. Meu menino, depravado, sucinto. Inacabado, o meu desejo por ti. Meu bem. Fui mal. Foste bom entre as minhas pernas. Pelo teu corpo. Por entre naufrágios para nunca voltar. Vida. Sim, aqui dentro de mim. Incessante, investias em mim como tempestade contra o molhe. Molha, molha-me. Escolhe a lingerie. Cobre-me de beijos, injecta-me o teu veneno. Secar-te as lágrimas, deteriorar-te todo o mal. Meu bem. Meu azedume dos dias em que sorris menos, quero-te. Vamos, quero pintar-te. Aos teus olhos, sou fogo que te conduz. Lambo-te. Inflama, reclama por mais. Menina roliça, submissa, tão bonita que ficas na minha mão. Apaixonado, ruindade gostosa de te adoçar. Tens silêncio, tranquilidade adormecida, nesse teu fundo que me deixa louco. Tens fé, superfície de seda, delicado papel de arroz, deixas-me louca. Estás em ti, estiveste por mim, concentrada num ponto, até te dar tudo. Cheguei e já não parti, chegaste e já não foste. Entendeste, resolveste-me por completo. Quero! Queres-me! Salivas, pedes por mais te querer. Dava-te vida na saliva dispersa por ti. Ai a minha língua. De mim, por ti, para mim... por nós. És má, és boa. És pior, melhor ficas assim, comigo. Para mal nosso, queremo-nos mais, em pecado que seja, todo nosso. Partilhado. Estou. Sou. Estás. Somos. Repete-te. Repete-me. Remeto-te para este meu canto, e depois aquele... e mais outro além, sim... mais abaixo... isso. Pedacinhos teus que são tanto. És bom, repito-me. Não me repitas, não me acabes, continua-me. Sejamos, fomos, seremos. Disseste. Disse-te assim, como eras. Desnudaste-me em doçura. Gostaste de gostar. Minha menina depravada. Sinceramente, quero-me tua, possessa deste nosso ser. Um e outro. Outro de outrem. Meu bem. Meu mal.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Mata-me

Com o teu olhar de enlevo

no sorriso que te é do coração
perguntaste-me...
O que foi?
No absorto momento
apenas me desfazia em deleite
respondi-te...
Nada. Olhava-te apenas.
Sorrimos.