Possa conjugar-se o silêncio às mãos que unem o tempo, alienar-me do conjunto de dores para me refazer. Sem a clausura do choro a sós, lamentar-me seria um acto mesquinho. Quero tudo o que está para além da simples sombra perene da vida.
Queira a corrente levar-me de volta para a imensidão da cabeça perdida de sonhos. Faria aqui, agora e para sempre, o meu império das mariposas. Sentir-me-ia alado, composto orgânico, volátil à imensidão do mundo expedito.
Faça uma manhã Outonal, o mesmo efeito do beijo de uma mulher aranha, acreditar que sou possível entre os outros. Haja uma crença ainda por conhecer, fazer-me a espera num beco escuro e sangrento, aguardando a minha passagem. Iluminem os candeeiros o tapete vermelho que me estendem para o fundo da rua. Alumiem a minha própria falta, sem que tenha a saudade maior perna que a lembrança.
Sigam as palavras em destino contrário ao que escolhi, não quero saber. Nos voos nocturnos, de pele espartana e desenhos simétricos, ileso à clemência de me esbarrar numa parede, cresce-me esta vontade de matar o mal.
Meu bem, meu querer de azul cobalto, exíguos espaços do meu maior fundo pedem por uma gota de doçura, um alimento incerto, um tormento presente. Despedaçando a névoa em cada bater de asas, desenlacem-se as amarras, queixem-se as vozes caladas. Sôfregas melodias declamadas na voz de uma sereia. Não oiço mais, porém a surdez é fantoche do imaginário. Circulando pela encenada luxúria, encerram-se as janelas da maldita noite. Há uma mulher que escuta o zumbido dos voadores perdidos.
Construam-se as mãos, ergam-se os lábios dos amantes. Sou-o na noite, observador dos térreos e submissos, os felizes do incrédulo. A linha é curta, famigerada consideração, enaltecida por palavras tão vagas como estas. Não me condenso, disperso-me pelo acaso, sem ter um sustento que me alimente.
Mate-me a pobreza, desde que o espírito enriqueça. Leve-me a intransigência do destino ao decepar das mãos, não me escreverei por linhas paralelas. O meu império de trono emplumado, convexo ao Sol da meia noite, espera por horas de luz, àquela que me criou. Espera-me a vida, crivada a botões de rosa, espinhosa e contida no apanágio da carne vivida. Sinto-me devagar, sem mais levar a pressa comigo.