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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Mata-me

Com o teu olhar de enlevo

no sorriso que te é do coração
perguntaste-me...
O que foi?
No absorto momento
apenas me desfazia em deleite
respondi-te...
Nada. Olhava-te apenas.
Sorrimos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Chave

A chave…
Porta que abre e me deixa passar
Deixa, mexe, desencarcera
Tranca, gazua que embuste corroeu
Doeu, mordeu, gastou-se

É bisagra…
Charneira de vaidade
Dança na linha da luz que invade
Cega-me nos olhos, na mente
Permite-me entrar

Fala a falha…
Gota a gota na fresta
Na testa de quem pensa
Quem te faz aberta
No que te torna absoluta

Encosta a porta…
Ela dizia-se pintada de fresco
Fazia-se forte, completa, agreste
Ela, a que me impede
De a fechar em mim

No trinco…
Sarcófago, sacrifício de respirar o pó
Mentindo, falava-me mansa
Na esperança de me enterrar
Entre os ossos da paixão

O batente ausente…
Será a disputa de nós o caminho
Clamo pela luta dos corpos sequiosos
Aparas, lascas desprendidas do teu cabelo
Soltas por mim, ruindades gostosas

Diz-me à janela…
Que o meu nome é queimado a quente
Perfilado, laminado substrato
Endurece-me a vontade, lateja em humidade
Conferir formas ao desejo

Chama-me à ombreira…
Conclui o resinoso prazer que me ocupe
Verte-te em cola, composta em mim
Querer-te ao fundo da sala
Dizer-te parte que me és

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Mariposas

Possa conjugar-se o silêncio às mãos que unem o tempo, alienar-me do conjunto de dores para me refazer. Sem a clausura do choro a sós, lamentar-me seria um acto mesquinho. Quero tudo o que está para além da simples sombra perene da vida.

Queira a corrente levar-me de volta para a imensidão da cabeça perdida de sonhos. Faria aqui, agora e para sempre, o meu império das mariposas. Sentir-me-ia alado, composto orgânico, volátil à imensidão do mundo expedito.

Faça uma manhã Outonal, o mesmo efeito do beijo de uma mulher aranha, acreditar que sou possível entre os outros. Haja uma crença ainda por conhecer, fazer-me a espera num beco escuro e sangrento, aguardando a minha passagem. Iluminem os candeeiros o tapete vermelho que me estendem para o fundo da rua. Alumiem a minha própria falta, sem que tenha a saudade maior perna que a lembrança.

Sigam as palavras em destino contrário ao que escolhi, não quero saber. Nos voos nocturnos, de pele espartana e desenhos simétricos, ileso à clemência de me esbarrar numa parede, cresce-me esta vontade de matar o mal.

Meu bem, meu querer de azul cobalto, exíguos espaços do meu maior fundo pedem por uma gota de doçura, um alimento incerto, um tormento presente. Despedaçando a névoa em cada bater de asas, desenlacem-se as amarras, queixem-se as vozes caladas. Sôfregas melodias declamadas na voz de uma sereia. Não oiço mais, porém a surdez é fantoche do imaginário. Circulando pela encenada luxúria, encerram-se as janelas da maldita noite. Há uma mulher que escuta o zumbido dos voadores perdidos.

Construam-se as mãos, ergam-se os lábios dos amantes. Sou-o na noite, observador dos térreos e submissos, os felizes do incrédulo. A linha é curta, famigerada consideração, enaltecida por palavras tão vagas como estas. Não me condenso, disperso-me pelo acaso, sem ter um sustento que me alimente.

Mate-me a pobreza, desde que o espírito enriqueça. Leve-me a intransigência do destino ao decepar das mãos, não me escreverei por linhas paralelas. O meu império de trono emplumado, convexo ao Sol da meia noite, espera por horas de luz, àquela que me criou. Espera-me a vida, crivada a botões de rosa, espinhosa e contida no apanágio da carne vivida. Sinto-me devagar, sem mais levar a pressa comigo.