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terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Carta De Um Amor D'aqueles...

“Amor, chamo-te assim desde que entraste por aquela porta. Leve, sorridente, no perfume de bela que és. Demasiado seria pensar na tua paixão como a razão de olhares para mim. Quero-te, quero-te muito.

Amor, chamo-te assim, cantando-te todo o nome que me és, meu amor. Escrevo com a certeza de que nenhuma palavra fará jus a ti. És tão mais que qualquer mortalidade. Perdi a noção de ser apenas alguém, indiferente, translúcido, no momento em que me sussurraste em toda a tua sede de mulher, que me querias, ali no momento.

Amor, sou-te por inteiro, de igual partilha, teu. Não te sinto apenas como posse, és a oferenda aos olhos de um homem feliz e completo. Tenho-te aqui, vivendo dentro de mim, contando cada hora para te reencontrar. Desejo beijar os teus olhos, a tua pele, mergulhar em ti, morrer e renascer.

Amor, porque o somos, unos. Amantes que nos tornamos em cada toque, no teu cabelo, na tua boca. Sentir no calor da paixão, toda a tua vivacidade espelhada no teu olhar. Tece a pessoa que sou, nos teus beijos, a fio de ouro do teu respirar. Alteram-se os sentidos apenas de soletrar o teu nome, quero-te, quero-te mais.

Amor, sinto a ausência do agora, do quase pranto enlutado, embrulhado nesta distância dos corpos. Aparta-se a luz, esquecem-se as velas apagadas no cantinho de nós que chora. Guarda-se a voz nos hinos velados, chamando por ti, o teu nome, até adormecer. Amor, quero-te mais depressa que o dia.

Voltarei breve, de pressa que não espera, com fome de não te sentir. Amanhã estarei em ti, por ti, para ti. Na rubra pele de paixão, quero-te no fogo de nós.”


Amor, mulher minha. Escrevo-te com esta dor que me invade de cada vez que a caneta fustiga o papel. Por cada lágrima convertida em tinta, em nódoa eterna. Por tanto te amar, assim como agora, por já nem saber o que te dizer mais. Doendo, confesso-te esta fraqueza de mim, a minha pena maior, decapitando o coração, por todas aquelas palavras não serem de minha autoria. Farei das palavras do outro as minhas.
E para quê se amar-te é doer-me...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Homens

A noite agarra-a na estranheza que o silêncio traz consigo. Sem outros transeuntes senão ela, as delicadas gotículas de humidade beijam-lhe o rosto. Pálida e soturna, vivendo a ausência de si, sem saber que a sua presença é clamada por outras vozes, noutros ecos, com outros frios.

Em pequenos passos, leves e esquecidos, distancia-se de casa, de outras lembranças. Nada lhe comove o rosto fechado, escondendo de todo o vazio instalado, a pena da sua culpa.

Teve, truncada à crença das danças nas clareiras, um antigo conforto. Nos bosques em que pinta as ruas desertas, as suas vaidades incertas, esquecidas ao espelho, ao reflexo que hoje vê.

Serão os homens grandes tão pequenos como os outros homens, revestidos apenas por todo o ego umbilical. Únicos egoísmos, rompendo ao findar de uma noite, sem gesto que se apresente capaz de um sorriso. Quebram-se em acordes menores, quinquilharias obsoletas de um desafino, definhando carcomido, desajustado ao que poderiam ter sido, homens de mulheres.

A forma como se fazem ouvir, aos gritos tornados surdos, coesos na descrença dos seus nomes, e por outros levianamente ditos. Com a ligeireza de quem salta de inocência, os homens, aqueles homens passageiros. Os homens do seu corpo, ela e os seus escarnecedores, usurpando entre o ventre e os seios. Quedam-se por apeadeiros sem nome, incógnitos marcadores da alma.

Desaparece por aquele beco quase sem luz, como um homem que sai pela porta dos fundos. Não volta. Sem perdão nem sinal de uma lágrima, apenas saliva, sangue e dor.

O seu longo casaco negro protege-a do frio, escondendo todo o seu corpo entre uma malha de vibrante escarlate. Passeia-se à deriva, sem chegar nem partir.

Da minha janela que paira por toda a certeza espertina, a cidade torna-se pequena para mim. Olho-a pela deambulação carregada de tormentos. Vivo-a um pouco mais, na soltura do seu cabelo, sem nada que aparente a dança do murmúrio do enlutado pesar.

Os homens, de pele jactante, nas heresias dos pormenores velados e consentidos, escolhem outros caminhos, escrevem-se por outras linhas. Narcísico sentido, nada mais são que homens. Querem-se duros, de densos braços e peitos de pedra. Límpidos, absolutos, os homens querem-se mais, desejando que o tom agressivo desperte apenas quando a tomam de paixão. Os homens constroem-se, mutilando-a nos pequenos contratempos. Os homens querem-se.

Da noite que resta, sem homens, de tudo o que lhe poderá percorrer pela mente, cuspindo faúlhas na tentativa de deslocar a farpa do coração. Passa ela à minha janela, passa ela pelos homens que dormem justos e descansados. Eu vivo a noite, no seu acre cheiro que tossem as chaminés, condensando-a, comprimindo toda a magia do passeio.

Serão os homens capazes de amar sem medir as acções emotivas e partilhadas. Talvez um dia, uma noite quiçá. Desejava eu ser outro, ter o homem que não este meu. Hoje sou-o. Infame, de pedra fria quebrando vidros de janelas que me olham. Hoje sou eu, a mulher de homens que me soubessem abandonar.

É um soltar de cabelo repetido, um acender de cigarro noutro beco, uma espera dobrada à esquina. Repito-a, atapetando os seus lábios por nomes a mim, hoje homem sem o ser de verdade. Quer o hábito aliar-se ao regresso a casa, escamoteado na preguiça de se deitar noutras camas.

Nas horas vagas, seremos homens, outros tantos sem sabermos que na pele da mulher vivemos. Usando-as, com amor.

domingo, 25 de novembro de 2007

E N C R U Z I L H A D A S

(Proposto por ContorNus, aqui fica o meu contributo a que lhe chamo Títulos Circulares)
A título me fiz, confinado ao palco que me aperta ao respirar, confinando-me à pequena caixa sem surpresas nem certezas. A treze réstias te fiz, consentindo vários pecados, olvidando tumultos inatos a quem Sou.

Tácito, no escuro de uma sala, na quietude trazida de um vulgar abandono, pretensiosa "absentia" do rigor a que me dou, por vezes, à noite.

A minha vida, num rol de projecções mentais, como em matiné de cinema mudo, surdo de me ouvir em todos os nomes. Chamam-me assim, à realidade do dia, mesmo que o sol se apresente pálido e incerto.

A menina que brincava sozinha, devorada por olhares proibidos, vacilava entre o passeio e a berma da estrada. Temiam os homens comuns pela sua presença, tentavam-na, recusavam-se a parar. Olhavam e partiam com medo da teia.

Amadurecida no decorrer do tempo, em mulher de Agosto caí, mergulhei e morri. O seu rosto sem mácula corrói-se-me ainda no pensamento, na pele, no ardor da alma, fazendo de mim novamente em reconvertido desconcertante, afundando-me na heroína de a pensar em todo o presente.

Pela memória que se funde à luz do instante, estou triste, por nada. Obrigado. Contido na noite, apagam-se as luzes pelas casas. Volto a dormir.