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domingo, 25 de novembro de 2007

E N C R U Z I L H A D A S

(Proposto por ContorNus, aqui fica o meu contributo a que lhe chamo Títulos Circulares)
A título me fiz, confinado ao palco que me aperta ao respirar, confinando-me à pequena caixa sem surpresas nem certezas. A treze réstias te fiz, consentindo vários pecados, olvidando tumultos inatos a quem Sou.

Tácito, no escuro de uma sala, na quietude trazida de um vulgar abandono, pretensiosa "absentia" do rigor a que me dou, por vezes, à noite.

A minha vida, num rol de projecções mentais, como em matiné de cinema mudo, surdo de me ouvir em todos os nomes. Chamam-me assim, à realidade do dia, mesmo que o sol se apresente pálido e incerto.

A menina que brincava sozinha, devorada por olhares proibidos, vacilava entre o passeio e a berma da estrada. Temiam os homens comuns pela sua presença, tentavam-na, recusavam-se a parar. Olhavam e partiam com medo da teia.

Amadurecida no decorrer do tempo, em mulher de Agosto caí, mergulhei e morri. O seu rosto sem mácula corrói-se-me ainda no pensamento, na pele, no ardor da alma, fazendo de mim novamente em reconvertido desconcertante, afundando-me na heroína de a pensar em todo o presente.

Pela memória que se funde à luz do instante, estou triste, por nada. Obrigado. Contido na noite, apagam-se as luzes pelas casas. Volto a dormir.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A Treze Réstias Te Fiz

Não sei a que sabes
A quem fazes, a quem deste
Disseste que me morrias pela boca
Mas que troca, a que volta?


Colhe a manta, enxuta, perfumada
Cobre o rosto, marcado, longínquo
Abraça o corpo, tapado, saudoso
Exara no pensamento, o que te escrevo


Na cidade, a mágoa, a trégua
Na solitária luz que conduz
Na guia, na esguia palavra
Aparece, no vazio, no que se quer



Dobra a mancha, tapa-a de ti
Gasta a boca, na minha, na nossa
Entrançando o cabelo, à tua visão
Serei eu cego pela sede de ir


Folha, que és fina
Lisa, tamanha beleza
Gritarias por tinta, sucinta
No amor que me tens



Escrevo-te, já morta, fundida em mim
Sou eu que te invento, na prosa
Sem rosto, sem fundo, sem nada
Apenas palavra, impressa, castrada


A quem me dás, de quem troças
As nossas, vãs certezas
De armas em riste, sorriste
Pela lágrima que me provocas



Num exército de ideais
Sempre o facto da tua pele ser Lei
Os meus dedos em guerrilha
Entre as tuas pernas tomar-te
Sem liberdades nem bandeiras


Sentido, ao inverso de ti
De mim, sem berço
Sem cabeça que sinta
Sem coração que pense



Nem mais altivo desejo
Senão este de me perder para sempre
Tragar-me no veneno criado
Não mais ser, sem ter, nem sentir


Cinzelada no fuste
Em prantos de Inverno
Calado pesar, tonéis de segredos
São os meus dedos, passados degredos



A que se te dá, nas sedas das manhãs
Que nem cedo me avisas da tua ausência
Perdidos passeios, envoltos no sonho
No estranho palpite de te saber tão bem


A treze pecados dei por sentir
Sem mentir te apago num súbito suspiro
Respira por fim, sem teu nome conhecer
Matando-te, sem saber acabar

sábado, 10 de novembro de 2007

Tácito

Agonizava em qualquer método de transporte sensorial, mantendo em constante paralelo à realidade, uma fina ideia de purificar as palavras a dizer. Não sabia quando, nem ao certo no espaço, quão maior seria o bater do coração, esperava apenas.

Mais dor não seria, nem queria. Saber ser a pessoa que se transporta para o reflexo, sem passar dos limites da própria sombra. Em dúvidas mordazes, destabilizei-me num segundo mais curto que outro do tempo normal.

Havia lamentos bem piores, eu sei ao que sabem. A constante voz, vinda de um abismo existente em mim, mais me interrogo pelo desconhecido que pelas incertezas assaltantes da noite em que me transformo. A voz, pensava eu, pesaria numa eternidade caso a ignorasse. Pena minha, seria essa bem pior que a ouvir em todo o momento. Sabe-me de cor, em todas as línguas, matando-me de desejo em todos os pontos finais.

Fumo sem saborear a toxicidade oferecida nas palavras, sem gestos aparentes nas ideias. O nocivo que soa ser-se, fazer-se, corresponder-se às linhas tão iguais. Torno-me num arquejo de fumo, tentando em desespero dissipar-me pela incomensurável atmosfera.

Existo sem aparecer, sou sem me ver. Quedo-me na pouca vaidade que me consola, palavras apenas usadas em privado, nesta sempre persistente mania de que a minha pessoa é grande.

Jamais trocaria o sentido e remar na direcção supostamente certa. Nem bússola que se me crave no peito dos sentidos me levaria por outros caminhos. Melhor assim, não sendo mais que isto, assim mesmo.

Estabeleço o contacto com o exterior, nos olhos de quem me vê, sendo a nudez a partitura de um momento de vida. O exagero da minha pessoa, ignorando saber que todo o contacto a existir é tão mais que um gesto, um toque.

Inoportuna, surge a voz consumista, respirando o mesmo perfume em duo. Os pulmões são meus, a vontade não. Há palavras proibidas, ideias para além das mesmas. Trago-me na vontade de fechar os olhos e descansar.

Descubro marcas, adivinhas nas pistas contadas pelos seus dedos. Ela, a voz que me soa tão familiar, encorpada em veludo, tingida nos tragos frutados e maduros.

Ela é, a voz que me dói.