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domingo, 14 de outubro de 2007

Absentia

Faz-se depressa. Bem preciso, assim como o dia, sem curas prometidas. Em suma, foi considerada a hipótese de que a perfeição é possível. Aprumadinho e cheiroso, com ar de quem tem um destino a entregar a mãos que lhe são alheias.

Leva a carta no alforge, onde alberga tanta história, mais que as contadas por travessas e postigos mal fechados. São olhos que escutam, palavras gritam nos gestos. Por todas as cidades que o esperam, as mesmas conhecidas de outras paragens. Pensou a saudade pertencer apenas a quem se lamenta em melodias. A todos os caminhos, apressa-se a levar complacência sem despedidas que o agarrem.

A notícia tardava. Naquele nervosismo delicado, deixava embeber-se por entre venenos e paredes que a cegam de horizontes. Os remédios, inócuos, transfiguram-lhe toda a sua candura tecida a ouro.

Nem que a brisa se faça sentir, o odor conhecido da outra pele continua tão longe. Espera pelo momento em que se torne rubra em suores de alegria do regresso, calando todos os momentos de solidão. Aquele toque…

Nada. Morria-lhe aos poucos uma ruga de espera, na sua fina loiça. O seu rosto tremia.

As suas mãos rudes como a terra lavrada, eram rédeas que cresciam, traçando rotas desconhecidas aos mapas. Estratégicas alianças, aos destinos que não lhe pertencem. Deve em maior fortuna o do nome que carrega, a graça da sua corrida.

Leva-te. Eleva-te mais para além do sol. Nunca saibas de que se serve o pesado sentido da saudade.

Doces lábios roçando no cristal. A sua boca coberta de vinho que lhe sangra da alma. Em espera interminável, sem encerrar o pulsar desmedido do coração entre os seus dedos. Encarcera o seu tumultuo por entre os ossos. A sua lividez, naqueles olhos de espanto, da cor com que se vê no mundo, a mesma sentida no seu coração.

Longa como uma serpente, o seu medo de enfrentar mais uma noite, a sós, sem as mãos que lhe dão vida. Tanta estranheza paira para lá das cortinas. O magnifico, escondido algures para lá da mesma porta que deseja ver abrir-se.

Alinhavada, mesmo com as certezas que a noite viria louca e fria. O homem não regressa, como tantos outros sem retorno. Louca, despida, de tão fria lhe dizia a morte das suas certezas. Entre as suas linhas e o fio da lamparina, espera no pranto de esquecida. Olhando para lá da vidraça, para além do escuro e turvo calar encostado à sua vivência.

Concentra-se de novo no fuzil ao seu peito, nas sombras trémulas das suas dúvidas. Incertezas essas que a calam, envolvendo-a devagar no sonho. Suspira em segredo, como um peso libertando-se da alma.

Belezas caladas, descalças na terra batida, pisada e vazia. Acorrem-lhe momentâneos espaços verdes entre os pensamentos. O vento frio corta-o em lascas, lâminas do sopro gélido. Calcam as costelas no estômago vazio. Alimenta-se da própria alma, sem o arnês das incertas questões julgadas, finadas, finitas, tomadas.

Como poderá medir-se a velocidade da dor, sem que haja comprimento suficiente para se escrever o Amor. Como haverá maior destreza, se nada existe nos constantes vazios da ausência. Como se fará, num solfejo, enganar-se as horas na esperança carregada a mil artifícios.

As margens separam-na da resposta. Falha. Apaga-se.

A espera termina no mesmo ermo do último adeus, o primeiro de todo o sempre. No fim da terra, na madrugada já desperta, sozinha e confinada ao amanhecer. O mensageiro segue pelo rude caminho de escarpas e armadilhas. Os seus destinos esperam-no. Faz-se depressa. Bem preciso, assim como o nascer do dia, sem curas prometidas.
Não existe cura para o Adeus...

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Contido na Noite

Passei por nova madrugada a sós. Habitua-se a mente à solidão do pensamento, sem consolidar ideias seja com quem for. A sina da demente progressão das horas, o incómodo de apenas a respiração ecoar nesta massa.

Desconfiava tanto de mim que cheguei a minar o caminho da mente. Dei por mim esvaindo-me por entre os destroços, uma e outra vez. Seria necessário chegar ao ponto de considerar parte de mim como uma máquina a vapor, lenta e desmesurada. Conseguiria em cem anos, talvez percorrer uns três quilómetros de luz, e nem assim sentir-me a salvo das próprias mãos.

Nasci entre mãos divinas de Amor, e serei eu melhor homem por isso? Por qualquer zona do corpo que meça, nenhuma é superior à pele que me está colada. Conseguiria compreender melhor o destino, se as consequências dos atentados à mente não me fizessem pensar.

Gosto de mexer o café com o dedo, no sentido inverso aos ponteiros do relógio. Acaba tudo afinal, no mesmo momento do sinal horário, neste tempo que alguém se lembrou de tentar prender. Classifica-se assim, este momento como 3h45m, ou melhor, quatro menos quinze.

Acumulo sono, cansaço, sonhos de olhos abertos que sei nunca sonhar. Acumulo ideias, nomes e choros, lágrimas que oiço passar pela rua. Acumulo mais um pouco de nada, de mim a qualquer esquina mal iluminada. Impeço-me de fraquejar perante um pequeno mundo que vive dentro de uma pequena televisão. Na casa de uns idosos, de olhos gastos para o mundo, fintando os meus através do ecrã.

Vive-se no sabor efémero de um floco de neve, de papel celofane bem vermelho, de sangue. Cospe-se em negação maior por se sentir a brevidade das palavras em cada sílaba. São linhas entre férreos desejos, cruzando toda a paisagem a caminho de casa. Pequenos saberes partilhados em sorrisos entre estranhos. Serei comum a todos os sujeitos com predicado.

Estranha e falsa modéstia, a que me dá em poucos momentos. Sem que atropele demasiado a outra parte que dorme, a minha cabeça manda-me parar. Cada adormecer é uma morte anunciada, uma lanceta seccionando até à medula, a resistência da insónia. Redobrem os sinos, quando já exausto disser para mim mesmo - Não posso mais...

domingo, 23 de setembro de 2007

...todos os nomes

De tanto me agradar a imperfeição das tuas palavras, resolvi matar um pouco à sede, todas as decisões que tinha para hoje. Talvez percorra entre os meus devaneios secretos, acompanhada pelo teu cheiro a pessoa minguante. Segreda-me o teu suor, odor da tua ausência, a necessária distância de já nem saber ao certo, se realmente me esqueci por completo das pessoas que tens em ti.

Rouba-me espaço na cama, toda a insónia colada à obsessão que nos une. És doença rude de homem, o meu que és. Massacra-me, dói-me pensar que és igual às folhas tingidas do negrume da tua língua, és rio que se perde no mar. Serão as tuas estátuas sinais de derrotas, porosos fragmentos em que te desfazes.

Pudesse eu continuar a ser tua heroína, ultrapassar contigo as ruínas, sonhos descalços e órfãos da beleza de Deuses. Queimar-me-ia ao Sol dos teus vícios menores, idealizados e transcritos para as linhas imaginárias do meu corpo.

Humedece os teus dedos entre as minhas pernas, a tinta que te faz escorrer mais um pouco da face que escondes. Contraposta, estou desde o nascimento na margem esquerda do canto superior, esperando que o teu corpo ceda ao veneno do sono. Sonha meu amor, sonha...

Deformada que estou, sendo cera envolvendo o teu pavio, o chorrilho sentimental das tuas inúteis palavras. Bem longe e enegrecida no desencanto, a alegria seca nas tuas veias pedradas de tanto te quereres. Vaidoso, dás a semente ao meu ventre criador, em futuro alimento da tua pobreza.

Hoje não estou bem, por tanto gostar de ti, na liberdade concedida pelo teu cansaço. Neste momento deveria estar bem longe de ti, fugir para outro que me pensasse. Escrevi-te, com a tua própria mão. No amanhã já tão perto, estarei na transparência a que sempre me obrigaste, irás ler-me entre as tuas palavras.

Chamar-me-ás...