...

...

sábado, 12 de maio de 2007

Sabor Que Sei

Sabor a suor, o corpo de gelo que derrete lentamente, fluindo no doce néctar do dia. Sabor a tarde, o copo servido ao fim da pausa. Saber a mais, de trago em trago, acompanhado a ritmo lento, esquecido.

Sou daquela linhagem específica, não ordenada, enxuta nos pequenos sopros de vida. Imposta a colmatar a necessidade que se arrasta na mesma vontade de querer, de tanto beber-te, mais desejo de sede tenho. Sou assim, com toda a normalidade, estendida até a luz desaparecer.

Ergue-se o copo, a avidez de perseguir a sede. Vazio, olho-te por entre as tuas linhas deformadas pelo vidro, fluidas na secura agora instalada. Vem, sussurra-me no teu gosto de me agradar. De mãos dadas, esperamos a noite calma, o seu cheiro e frescura. Aproxima-te, quero beber-te o vinho que me ofereces no teu corpo. Dá-me mais, frutado, na casta do teu perfume.

A correlação de sorrisos partilhados, em variáveis transmutadas, definidas aos meus olhos, sobejo prazer em te beijar. Sob todo o teu brilhante olhar, génio que me acende em mil e uma lucernas dos mais recônditos desejos que vivem em mim.

Sabor. Sabor, saber mais sabores do que és. Enche de novo o serão que nos guarda, sem desperdiçar quem me fazes ser. Toca-me, destila a minha constante amargura, como lúpulo da minha saliva. Decanta o meu jeito em quebrar o gozo do dia, sem que me alteres na composição. Artífice de ouro, pés descalços no meu peito, prova-me no beijo e no aperto do gesto.

Ao fim de todo um dia, completa-se a memória que virá na tua ausência. O que me espera será apenas uma pequena pausa. Parte do meu desejo esperará atrás da porta, para que voltes a entrar. Quero a saudade presente, sem que todo eu te espere realmente. Outro lado que sou, aguarda o sabor de me oferecer. Aguardo, aguardo... porque quero.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Gestos comuns de um homem, incomuns de quem o vê

Faço votos no silêncio, traços mansos de comportamento
Mancos estão os sentidos, por estes gravetos que vislumbro
A luz mal enjeitada, as tuas roupas engelhadas
Não quero morrer de pé, em consciência ou lucidez que me pegue
Embriago-me no teu corpo, sem seres rosto ou nome que me valha

Nesses bordéis, sondados em preciosas horas
Esperas de balcão sustentadas a algumas bebidas
Estratégicos, olhos que miram propostas de embarque
Viagens de ida, sem volta imaculada, entre cigarros mal fumados
E seios, desnudos, embebidos no enjoo perfumado

Rameira personificada, uma santa de carne
Esquecido de outros desvairos menores
Da colcha quente, às tuas humedecidas coxas, não se comenta o desmazelo
Descaindo na latente formosura, mais bela és calada
No corpo pago que tens, a soldo pela nudez da crueza

Cadencia o meu acto, decadentes palavras que não mais te digo
Noutra altura que seja, jamais adormecendo entre parasitas
Social, sou eu, sem cavalheirismo no trato
Mal os brutos gestos sossegam, a languidez em ti contida
Falsas modéstias, trancadas, para lá daquela porta

No fim do corpo que te pertence, no estreito que já cruzei
Pago-te a dinheiros, justos ganhos, cordiais cumprimentos
A menina sai, antes do incandescente golpe numa droga legal
Olho aquelas pernas, sufocam qualquer decência
Menos mal, o meu aço funde, o nervo impele a desejar-te mais

Escrevo palavras na colcha verde manchada, palavras comuns a ti
Dos laivos acusadores, ao teu sabor nos meus dedos
Androginia sentimental, quero-me na rua escura
Por onde caminham vergonhas, cabisbaixos homens
Transeuntes que se acompanham, maraus tertluliantes

A vaidade acende o meu isqueiro prata, nas cigarrilhas importadas
Do outro Atlântico que não este, o descoberto e agora negreiro
Acompanham-me vícios, lacunas e avarias
Nem completo sou em toda a minha falta
A lívida surdez que me apanha, até à cegueira de não sair deste antro

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Eu, Tu

Tu e eu, conjunto infinito de uma rara coincidência. Largos caminhos, que por vezes, demasiadas até, se estreitam e aniquilam tudo o que se poderia descrever. Tu, não mais és quem sou, visionário, reflexo de espelho. Sou eu, toda a mão que bate no peito, sorrindo ao vento que me torna invisível.

Não mais esmoreço, nem adorno com a chuva até aos ossos. Mesmo adormecido nos braços de quem cria a o mundo, a sentinela seria a mesma de quando me deito. Todo este ciclo interior me cansa, aos poucos, como quem lança semente no vazio. Criados em tantos sonhos, aqueles maquinismos complexos, completos, fazem-me sonhar com o mais improvável dos fins. Ser-te tão longínquo como sou de mim.

Reverso que és, medalha pela lacuna de não mais saber o teu nome. Dou por mim na confusão dos meus pecados, sem a sombra que me falta. O peito que me falha em ar, por estar demasiado apartado da linha do infinito.

Tecerei em mais linhas de escrita, umas quantas palavras que pouco te sei falar. Dizer-te em palavras, das mesmas que sempre uso, que és meu, sendo eu a tua perpétua imagem. Descola-me de ti, descrença maldita. Exauridos momentos em que tanto me calo. Tanto mesmo, tanto...

No toque da pele, no espelho de Narciso seria o próprio beijo que te desse. Ofereço-me antes, ao destino que me conservo. É consumo a que me acostumei, extinguir-te nas últimas palavras, assim como agora.

Velho culto, danças de cavernas. Escondo o pequeno cintilar da vida em chama. Pavio a que me dou, serias tu a clemência viva em toda a cor. Dar-te significado, oferecendo-me em corpo, para que renasças de cada vez que morres.

Quantas vezes chorei no teu leito, quantas mais te lancei aos céus. As mãos guiam-me pelas linhas que escrevo, as mesmas que comandam a corrente. Prende-me mais, aprisionar-me sem olhar para quem sou.

Não estaria tão longe do final, caso a tua liberdade condicionasse a minha soltura. Vivo, revejo-me na palavra que me foi ensinada, sem que me aprimore na certeza de adjectivos. Preso estou a sentir o fundo de nós, até que a morte me separe enfim, de mim.
A todos, muito obrigado pelo melhor prémio que me são.