Bate a hora, apressada, disfarçada em manto que esconde o tempo que não se quer esperar.
- Espera-me. Não corras. Ouve-me por um instante.
- Espera-me. Não corras. Ouve-me por um instante.
- Não posso. Não quero ouvir-te. Tenho pressa de chegar.
- Não vás! O caminho atraiçoa. Não vês? Ouve-me, não queiras seguir o mais óbvio.
- Mentes. Toda a tua linha de discurso é um rol de certezas que me incomodam. Não maltrates quem sou, com a tua inabalável e irritante má disposição.
- A minha razão, seja qual for, é diluída em qualquer teor de discurso. Volátil, és como álcool na minha ferida exposta ao sol. Só queria que te guiasses por mim uma única vez.
- Não! A minha pressa é forte e espessa. Tamanha vontade de fugir, de mim. Necessito de desaparecer.
Espesso, disseste. Clamaste em tom monocórdico, a decisão há muito pensada. Espesso, como sangue que arrefece, na chapa contorcida, espalhada pela estrada.
Forte, confinaste todos os teus sonhos ao que eram, apenas sonhos. Pendurados por um pequeno fio de seiva, no abismo que existia em ti.
Forte. Demais para sobreviver. O choque.
Forte. Demais para sobreviver. O choque.
Despedaça-se ao critério do embate, o corpo que sai de outro. A alma que descola da pele.
Contornos, estes que adornam agora as minhas tábuas. São condados, na importância que lhes dei, os meus sonhos e aspirações. Os instantes em que pensei, seguir as tuas marcas no chão. Invejei-te todos os dias.
- Não me sigas, nem me aguardes. Vou. Apenas vou.
Toma-te essa sede de forma tão violenta. Nem recordas quem és, e que no fundo, tens tudo guardado, em caixa de fundo falso. Escondido, dissimulado nos medos, no próprio medo de me ouvires.
Jazido, no escuro impar do oceano. Tenho o meu nome pensado, guardado na mala.
Recordo-te enquanto sigo para bem longe.
Tão longe, para além de tudo, até de mim. Distante, contando cada linha do tracejado da estrada, até me reencontrar no ponto de partida.
De novo, sem que esperasse, hesitaste tanto na hora. Demorada, por todas as pequenas coisas que julgamos não terem importância. Partiste quando escolheste. Tanta fúria me ofereceste, ofendida por te querer cobrar um minuto de atenção.
- Então vai. Força! Vai!
De novo, sem que esperasse, hesitaste tanto na hora. Demorada, por todas as pequenas coisas que julgamos não terem importância. Partiste quando escolheste. Tanta fúria me ofereceste, ofendida por te querer cobrar um minuto de atenção.
- Então vai. Força! Vai!
- E vou mesmo!
E foste. Para sempre.