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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Dissertação de nalgas sentadas nesta bela cadeira em segunda mão.


De repente são todos muito católicos, apreensivos quanto aos valores eclesiásticos que, supostamente, estarão em causa. Todos deveras preocupados com os sem abrigo, apontando o dedo aos hipócritas dos hipócritas que chamam hipócritas à outra metade hipócrita, quando nunca mexeram um cu. Deveras alarmados com o dinheiro disto, dinheiro daquilo, o nosso dinheiro, ai o nosso rico dinheirinho, quando há três semanas atrás chamavam cabrões aos Gregos e agora, coitados deles, que levam com os cabrões dos sírios, monhés e ayatollahs aos magotes.

Calma, eu sei que Agosto foi uma merda, principalmente para quem foi de férias na segunda quinzena. Que do Benfica é melhor nem falar. Eu sei que é muita coisa junta para tão pouca cabeça. É demasiada pressão após estas férias de chacha, Nas eleições que se avizinham, acho que consigo adivinhar uma abstenção acima dos 50%, com a mesma desculpa de sempre: não vale a pena lá ir porque são sempre os mesmos. Se chover, é porque a àgua molha, vejam lá. Se fizer sol, é porque tem de se aproveitar o bom tempo para ir ao Colombo.

O mal, no outro Mediterrâneo (sim, porque existem dois), já está feito há muito tempo. Poderemos discutir porque estes e aqueles não recebem uma porção desta calamidade humana em massa. Teremos tempo de apontar dedos, chamar chulos a uns, chamar gatunos a outros. Poderemos aplaudir o gesto tão humano de Israel, dizer que a Merkel é uma falsa. Poderemos questionar os países árabes que são os meninos protegidos de alguns. Até podemos ir bombardear aquela porcaria e escavacar mais bocadinho, dar umas palmadinhas nas costas do Al-Assad como quando um bebé se lembra de bolsar, fechar mais uma negociata de mísseis e um punhado de aviões. Vamos ter tempo para dizer que os americanos são isto e aquilo, que o mundo precisa é de um Trump a cada esquina.

Teremos tempo para pensar nos que cá desejam ficar, como ficam e na maioria que talvez queira voltar quando haja PAZ. Teremos tempo de pensar na integração, reintegração em outros locais. Não temos é tempo em decidir no que fazer a quem nos bate à porta a pedir ajuda. Por muito que nos custe, não podemos fingir que não existem. Boas ou más, por agora são somente pessoas que pedem ajuda.

O que não vale a pena, na verdade, é argumentar ou contra-argumentar com tacanhos de espírito. Daquilo que nos podemos orgulhar, é de haver um português em qualquer lado do mundo, até no sítio mais recôndito deste planeta que nem lembra ao Diabo. Andar por uma das milhares de ilhas da Indonésia e dar de caras com um bolo de arroz. Fomos nós. De olhar para um ukulele e saber que aquilo não é mais que um cavaquinho. Fomos nós. Directamente, somos mais de dois milhões por aí. Indirectamente, entre pais, avós e netos, ultrapassamos os trinta milhões. No grande Êxodo da década de 50, cerca de um milhão e meio rumaram para terras além Pirinéus. Nada de especial, querem ver?

Bidonville não foi "erguida" por refugiados de guerra. Foi "erguida" por esfomeados. Pelos Manéis. Pelos Antónios. Pelos Joaquins. Pela malta do bigode que andava sempre com um canivete e só sabia comer assim. Nada como a porra do átrio do prédio limpo pela portuguesa. Singraram, sangraram, venceram. Todo este árduo trabalho de séculos para a maioria agora se esquecer que no nosso ADN está inscrito o Ir mais além, para lá desta terra, deste mar. 

Irei preocupar-me, no seu devido tempo, com as más intenções de alguns. Irei querer justiça e exigir a deportação de todos os que empurram outros borda fora do barco. Não me vou desfazer em lágrimas pelos que se aproveitem de tudo isto para obter lucros. Não desejo pactuar com países que amontoam refugiados em comboios e os levam para campos de "refugiação" ao engano, assim como não pactuo com outros que apenas fomentam violência e segregação. Não quero ser conivente com um olhar de lado, fingindo que não vejo aquele barco ali, e o outro acolá, e mais aquele mais além, e mais aqueles que vão boiando. Não irei andar com um refugiado ao colo porque, invertendo os papéis, eu só pediria uma chance de viver.

Enquanto houver quem aplauda e ajude na fuga de um Palito após uns balázios nas gajas (porque se levaram, talvez merecessem), enquanto houver quem vote num Isaltino ou quem se interesse se a pizza do Sócrates tenha extra queijo, enquanto vergonhosamente morram mulheres pelas mãos de companheiros ou de quem quer que seja, ou ache que tradição é queimar gatos dentro de um pote de barro, no alto de um cepo, não existe qualquer moralidade para se olhar para os outros e considerá-los bárbaros.

Já que o Estado inventou há uns anos um decreto lei para não me devolver o IRS porque, aparentemente, vinte e qualquer coisa euros são trocos, isso não me importaria nada se servisse para ajudar alguém. Da mesma forma que não me vou importar de beber menos duas ou três cervejas por mês, se esse pequeno contributo fizer a diferença. Sim, e é certo que um posto da GNR não deveria ter horário de função pública ou encerrar à força de tantas crateras no telhado, que há mais alguidares que chão. Não deveria existir uma corporação de voluntários, quando na verdade são heróis todos os dias. A mendicidade, a fome dentro das nossas portas. A iliteracia, os cães abandonados e os donos que insistem em deixar os cagalhões dos seus amores nos passeios. Não deveria ser assim, ou em coisas como ser um marmanjo para lá dos 35, ainda enfiado na casa dos pais, porque sozinho nem alugar um vão de escadas dá. Não deveria muita coisa, a começar pela indiferença.

Pessoas de bem serão sempre pessoas de bem. Nunca serei um exemplo, porque desejarei sempre que aqueles cabrões que não utilizam o pisca se espetem contra uma parede e que partam os dentes.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

pro|lixa

De cada palavra estendida, existe uma letra que se desajusta. Impelida por uma força maior à sua vontade, por fim, vale-se de uma mudez intransmutável. Será este o último reduto de uma vontade, exasperada, inconformista, em carência de léxicos e lugares comuns. Será a solidão uma coisa tingida de estranheza, adjectivada num tom submisso e derrotista. Será uma transgressão, uma causa perdida vê-la definhar ao longo da frase, sem que morra no fim e nem exista no princípio.

Sem espaço entre semelhantes, diz-se homófona de si mesma. Pendida em carência, calada a tanto custo, é sofrer-se de já nem lhe restar linhas por onde existir. Fecha-se assim, entre frases disparadas sem conexão, como gotas em vidro baço. Vetusta, queda-se na inoperância de uma garganta embargada, nas cordas vocais afónicas de se dizer. Desarticulada, sem ortografia, sentida, demasiado aguda para que se faça entender, a letra diz-se morta para qualquer verbo ou canção.

De cada vez estendida, existiria outra letra imbuída na sua estória, não fosse a maldade de não saber falar.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

de|mais

Enganemo-nos por qualquer coisa, no instante que não seja um motivo que nos leve a pensar. Enganemo-nos como as miragens, sem que exista uma secura a toldar-nos em sede. Enganemo-nos como quem desdenha um passado, sem saber de futuros e, mesmo que errado, este presente nos seja em veneno gratuito. Enganemo-nos em vislumbres, entre sombras, em meio tom, em pouca água afogar-nos. Exageremos em conluio, no maldito seja entre os homens, existir tão ruim peça assim. Enganemo-nos nas circunstâncias, circunscritos ao sacrifício de não se servir de mão beijada, toda a alma que peca em não ter pejo. Sem promessas, nem rumores de que amanhã o sol nasça. Talvez uma ténue vontade de morrer, no exagero da noite calma. Atordoar o sentido, sem entender a vontade, enganemo-nos de uma só vez, entre tantos enganos mais. Se não me engano, talvez por me olhar ao espelho, é por não me saber conter entre as palavras. E elas são pessoas. E elas são carne. E elas são coisas tão estranhamente entranhadas em mim. Enganemo-nos, em plural, porque de solidão só conheço a lua. De tua nada tem, e de minha, pasme-se, somente mentir-lhe à sombra do teu abraço. Enganemo-nos nas más horas, porque já é tarde. Demais. Demais. De mais, um enganoso olhar para o espelho. E vejo pessoas. E vejo coisas. E vejo palavras. Demais.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

talvez, o dia


Talvez escolher nem fosse o caso
sendo o escolhido, o pior dos caminhos
talvez nem um pouco de mim se calasse
se na fome, apenas visse a artimanha da gula
talvez nem me tornasse brando, tampouco
à permissão da dureza me imperar

Talvez nem fosse a pior das coisas
dúvidas alimentadas à mão de um pobre
talvez a sede não fosse tão espinhosa
se o sentido fosse dado ao erro de sentir
talvez me perguntasse, com tempo, ao longe, silenciado
como é possível subjugar o feitio ao feitiço

Talvez curvar-me um pouco mais à dor
se não me entendo senão dar-me em alegria
talvez parecesse que esta, assim, me faz em encantos
quando é um beijo que me apaga o dia
talvez se responda, de firme abraço, até ao peito
sem que as mãos se segurem, de tão unidas

Talvez nem sobreviva o dia, à noite
se na luz se escondem todas as sombras
talvez disposto, entre o céu e a terra
descanse um horizonte que não me saiba finito
talvez um pouco mais lesto, um tanto mais calmo
quando todas as estradas possuem o mesmo destino

Talvez se faça a confusão à vida, ao caminho
quando se acha um sentido contraditório
talvez respirar mate mais depressa
que outros venenos de sentir-me espesso
talvez lograr, padecer de uma culpa consentida
se entre os lábios, não mais saber morar escondido

Talvez suja, a parca mácula da derrota
do reflexo, o flagelo constante de quem se pensa
talvez nem o gume corte a direito
na linha, junto ao corpo estranho que nos alimenta
talvez parar seja um fechar de olhos
quando abri-los é demais para a vida

terça-feira, 7 de maio de 2013

há-de passar


Alguma coisa há-de passar
como crivos na almofada
de uma noite não passada
sem ser dada ao acaso
justifica-se plena, entre lábios
alguma coisa há-de passar

De quando em vez, até me sinto
não dado a meias medidas
à sombra te clamo, estendida
num recanto meu te encontro, faço minha
esta vontade de me querer mais fundo em ti
porque alguma coisa há-de passar

Passado seria, contido a pouco
no tanto que me escrevo a frio
e ao calor, consentindo aos olhos
revelem o que mais contenho em mim
um pouco calado, um tanto surdo
em que alguma coisa há-de passar

Passa-me algo, entre espessuras
sentir, singular, esta vontade
uma mão que me escapa, a monte
na soltura, no enlevo de bater em ti
sem nada me fazer, parar de sentir
entre ossos, estes, por entre te escrevo

sexta-feira, 12 de abril de 2013

| p a l a v r a |


Hoje não disse a palavra
E se pensá-la, seria dizê-la
Sem a querer mais perto
Nem senti-la

De minha, nada tem
Senão metade de quem
De outra parte que me é
À margem, nos lábios de outrem

De sibilar, nem a vontade
Nem amaldiçoar o verbo
Só um rosto de silvo, mas rouco
Despertado me sinto pouco

Houvesse unguentos, dormências
Curas para a morte de me calar
E não me fazer escasso ao dia
Sem a importância de me dar ao sol

Dizer-me, a medo de dormir
Concentrado num filamento em ala
Nem esta luz tão inimiga me diz
Se me resolvo, riscando quem sou

Falar-me em silêncios
Ser absoluto, sem instantes
No eterno pesar de transbordar
Nesta palavra contida

Inimiga, esperançosa
Madrugada sem pele, na minha
Farto-me da palavra, de mim
Por senti-la mais que a língua

Hoje não disse a palavra
Se, fazê-la, é ser maior
Sem a querer mais perto
Quando queimá-la é amor

domingo, 9 de dezembro de 2012

"spanish letters"

São memórias mais distantes que o tempo. É a distância uma medida para a saudade. É o brilho a causa da sombra que tanto procuro. Embora longe, mesmo sem saber como, custa-me vestir o hábito deste Inverno. Quando assim chove, aqui dentro, nada mais transborda senão um velho poço de desejo. E verte. E ver-te. Embora ausente, sempre estive. Embora consciente, sempre me esqueci. Sempre.




sábado, 7 de janeiro de 2012

|des|entendido

Bem que poderia sujeitar-me a um par de considerações menos felizes, permitindo à vez, a cada má lembrança, uma espécie de inquisição da alma, mas não. O amargor não seria mais que um disparo acidental, trespassando qualquer lembrança emocional. Guardaria de cada momento, apenas e só, um descontextualizado enrugar de inexpressiva dor. Não tenho muito de gratuitidade. Ao invés, faço-me mais à linha, ao suspirar sem querer, mesmo sem haver uma resposta para tal, ou então, sorrir ainda que de copo vazio.

As tremuras, quando nem as mãos se seguram, vacilantes, apontam na direcção da rua. Tremo os pés de forma alternada, descompassada, descomprimindo o nervosismo que reside em mim. É quase como arrastar um morto aqui dentro. Está morto e, para além da condição, é chato.

Seria um homem do mundo, caso não me faltassem as palavras do desespero. A falta é um âmago sem fundo. A carência, uma miragem da constante insatisfação. Em cada estilhaço de tempo, mais um pouco de mim teima em querer-se colado ao próximo. Seria um mundo diferente, se este homem não o tornasse demasiado seu. Eu sei, sou-o.

Único. Devoluto. Egoísta. No antagonismo que o ciclo de vinte e quatros horas possui, é sempre quando deveria parar que me encerro. Entre o que guardo no peito e a mão que me tinge a alma em palavras, reconheço-me no silêncio dos bichos. Distante. Parcimonioso. Redutor. É um estado lato, recheado de vícios, dos quais nem sei elaborar uma razão convincente para os findar.

Seria agora que deveria sujeitar-me a uma péssima memória, um pesadelo revivido, uma pastosa lembrança. Descompensando o corpo, porque ele não sofre comigo, sem pensar que o equilíbrio é fundamental, mas não. O melhor que consigo é sofrer nos olhos que me ardem, nos pés descalços em contacto com o chão frio, na fome de quem não se sente completo.

É como quem diz desdenhando, à excepção de hoje, é sempre.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

noite

É um ódio. Daqueles pecados que se desejam mais, e mais, muito mais que a própria compreensão. E nada é, se fosse o acaso um punhal nas suas mãos. É um ódio, vicioso, dissimulado entre quem sou e quem quem digo ser.

Guarda-se nas veias. Espinha-se na alma. Consentindo a hora tardia a um profundo respirar. Não te percas, não te faças mais à berma, que de linhas sei eu mesmo sem as ver. Tingidas as mãos, essas malditas, cabe a uma alegoria a que se dá o nome de destino, velar pela noite que demora, cerrar os dentes e esperar pelo dilatar das pupilas.

Dissuade. Arredia, essa lesta mão que levas ao peito, passando para cá e para lá, o gume que faz de ti única. De ti, que em mim nada tenho senão esperar-te mais que o nada. E por tudo o que possa dizer, quedo-me pela invenção de um dia de cada vez.

E guarda-se na teia, na voz rouca aguçada, na fome de ir. E esperas-me na ânsia de vaguear, convertendo a luz em sombra, porque sou-o neste todo que se dissipa, até ti.




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

insomnia|post|processing

É a partir desta hora, na avarenta partilha que a insónia consome o sono. É a espera, aguardada na sabida rota das noites perdidas. Sente-a, sorvida no vagar, despejada de algum dever. Cheira-a, com o olfacto de quem não ousa saber que perfume é. Sim, é uma coragem despida, e de tão só, arrepia a nudez dos que ainda dormem na vida.

É a partir desta hora, sem retorno ou calor que alivie os ossos, a têmpera julgada à luz, parece brincar nas desenvoltas sombras de pensar. E tudo assim, tão calmo, solene, taciturno, engrandece o reencontro com essas suaves mãos que me fizeram sentir.

É a partir desta hora, que nem louco me desejo de fora para dentro. Reversiva lábia de me saber intransponível, truncado à partilha. Gotejante moléstia ao mundo, que entre a clareza das linhas, não existe talha mais certa para esta coisa-pessoa. Perdoe-se então o pequeno desvio, de preferência concedido pelo rumorejante cigarro entre estes lábios calados.

É a partir desta hora que cada coisa começa a fazer sentido, já o sabia. E fico-me por olhar, por estes mesmos olhos que nunca vi. Olhar sentido, pensado, revolvido, esquadrinhado, e tão mais bela me pareces a cada hora passada. Indócil sorriso rasgado e roubado aos lábios. Desse cheiro teu, que tens e não o guarda a madrugada até mim, na certa corrida contra o dia. É tecer a fuga para sentir-te em mim, de tão sós que somos.

É a partir desta hora, quando me deito em ti, e de mim deixar de saber, apenas sei saber de nós. É a partir desta hora, sempre a partir daqui.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

- a q u i -

Não me lembras do tempo, nem te dás ao espaço. Não te esqueces das mãos, mas esqueceu-te o jeito. E depois, como em qualquer esmorecer de sorriso, mordes os lábios como se o regresso fosse o maior dos feitos. De algo afeiçoado ao corpo franzino de uma memória, à esguia lembrança de como a língua sabia de cor a pele, essa que levaste para muito além do que significa a distância, a um nunca mais crer num mar salgado.

Enxutas as lágrimas, arrumas a casa, e dispersas por ti um todo tom melancólico. Lesta é a trama, que ao drama não se dá confiança. Não te lembras do tempo, nem me dás espaço a esquecer. Não te esqueces quem sou, e esse, já nem o sou. Porque escrever-te é lembrar-me de te apagar mais um pouco, e só assim saber lembrar-me.

Saberia iludir cada curva a que nos destinámos, ao caminho dizer ser o errado, à clareza fazê-la turva como os olhos, quando o desvio foi inevitável. É assim, uma cicatriz carregada na pele, e de cada vez que se sente, mais curto fica o dia.

Mais que um deserto, é por esta mão oferecida à mesma extensão da alma, cuspir um nome para o chão, e aí renascer algo na próxima estação. Não te lembras que tempo fomos, sem o presente fazer parte, existes. E perdura, apenas em mim, o sempre não querer estradas sabidas, contadas noutras estórias. Mais que tudo, não são minhas, nem tuas.

Não cabemos, acredita. Não nos sabem, nem ousam sequer a tentar imaginar. Não sabem que o não lembrar é puramente uma articulação da pausa, sendo a negação a maior das armas. Não servimos para menos que um todo, e tudo corre bem à frente dos olhos.

Não te faças do horizonte para cá, que a sombra fica sempre atrás das costas quando partimos. E foi aqui, que no fim, tudo começou por terminar.

domingo, 10 de julho de 2011

a|nuvem

imagem: Marco Neves (C)


Havia uma nuvem que amava uma antena. Como quem sorri a um desconhecido, a um destino de nunca chegar, e se o tempo for aliado, ser-se parte integrante de uma história na história de outro. Não se guardava aos sonhos apenas, a nuvem que na espera, não reconhece o sinal, nem o embargo à continuidade dos dias. Havia sim, uma nuvem que sentia, e sonhadora, prendeu o seu olhar à estaticidade de alguém que apanhava do ar. Na frequência comum a tantos telhados, no canal destinado, falham as bandas definidas e passa-se à finitude de um gesto.

Havia uma nuvem que queria fugir para bem longe dali. Ser chuva noutros dias. Fazer sombra por outros campos. Transformar-se no sonho de outros olhos. Tingir paredes ainda de tinta fresca. Molhar mãos e rostos, escorrer por quem não tem medo da entrega. Sem ser o mergulho no desconhecido, é olhar bem para cima e povoar o coração de uma certa alegria que não se compra nem se inveja. Nasce e morre.

Havia uma nuvem que sabia quem era, e na sua condensação, nem uma lágrima verteu, porque um adeus não tem de deixar marcas ou feridas. Na sua premente transformação, beijou a antena, sorriu e fez-se em luz, dissipando qualquer dúvida que houvesse na sua intenção de exisitr. E bonita que era.

terça-feira, 28 de junho de 2011

vera|ne|cidades

Poderia nada dizer, ficar-me por aqui. Olhar-te, em certa medida, é manter a distância do claro e do escuro. É resguardar-me de um quente que se preza frio. É dedicar-te uma pequena história de amor, contida em todo um breve suspirar.

É Verão, e contudo, no coração inabitado da voz, nenhum pássaro chegou. Além do sol, a pele ressequida não esquece uma ausência carente de memória. Soa a falso, mas nada existe para lá das paredes. Quando não se quer, nada acontece.

O quente sabor do sal, no corpo composto de um ontem repetido em todas a hora de hoje. É um grão de areia colado. Outro ao lado. E outro. É Verão, e mesmo sem grande imaginação para histórias de amor, poderia ficar-me apenas por te olhar. Seria perfeito.

Por nada saber, conto-me na contenção de contrariar esta contracção. Subtraindo qualquer substrato, sem o tacto volúvel de outras mãos, substantivo-me à evidência de serpentear entre os melhores dos pastos. Enfim, como não finda a gana, talvez me mate na prosa.

Ao assobio, deseja-se o timbre de um rouxinol, em todos os fins de tarde. Enquanto se esfolam os chinelos na terra batida, e mais batidas são, estas pequenas pausas para que te respire melhor. Que de preâmbulos te minava esse doce ventre, ainda antes de existir alguma intenção mais vil em mim.

É Verão, e entre o mar e o campo, resigno-me aos cremes e protectores, porque já me dou a mortalidades do corpo. As da alma, essas, ser-me-ão gratificantemente eternas. Entre o crespo cabelo e a suavidade de um vinho branco, existe espaço para tudo. É simples, quando se quer, tudo acontece.

Entre um beijo espraiado e um aperto entre o cheiro das estevas, aquece-nos o alcatrão os pés, e outro beijo roubado com sabor a sumo. Sem ligar ao calor tão daqui, roubo-te à noite que me fez desperto.

Não vá o sol raiar, nem debitar à parva um dia que não me faça presente, porque apenas ficar-te a olhar seria perfeito. É Verão, e em mim, cada palavra sua, nas tuas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

uma|vez






Uma vez disseram-me que às Trevas, nem o gosto pelo sol tem outro propósito senão queimar-nos a retina. O sonho porém, não é mais que uma constatação ambígua do medo de se olhar bem acima dos nossos ombros. Hoje, no escuro, fora dos males quase inabitados, existe "uma vez" apenas, em que tanto mais me refiz de silêncios que guardo em mim. Serei sempre um egoísta, para o tanto que colho abaixo da linha dos meus olhos.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

de|um|nada


Foda-se para ti, que desarranjas esta mania de me mostrar imperturbável. Foda-se, foda-se, foda-se. Os teus dedos não me tocam e, ainda assim, é como me desfizesses. Foda-se, que não me guardo em saudades, nem guardo rancor ao que levaste de mim, para bem longe, a maldade de me destroçar contra o rochedo a que dei o teu nome. Oh, foda-se... assim não vale.

Como é esquecer-te, se pensar-te é o melhor do dia. Como é fazer-te, se não te ter será, certamente, a difícil conquista da terra ao mar. Foda-se, que numa palavra julgada crua e rude, consegue habitar a beleza do sentimento. Vê-se onde não está, sente-se onde não fica. Foda-se, para ti.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

de|um|todo

Mostra-me o mundo fora do meu, que dos meus olhos sei eu. Uns dias mais, outros nem por isso. Mostra-me antes onde compras tabaco, a rua que mais gostas e não a que mais mostras. Diz-me a que te soa a palavra gostar, e depois, mostra-me como gostar não é apenas mais um gesto caído na graça dos dias. Mostra-me onde foi que caíste de bicicleta e choraste. Dá-me a conhecer as cicatrizes, o odor da fruteira da tua cozinha, onde tens os sapatos poeirentos que já não ousas usar, mas ainda lá estão, como tantas coisas que guardas dentro do peito. Mostra-me o que não dizes gostar, porque eu gosto assim. É um verbo pleno, elegante, sabe bem. Mais que dizer, é sentir, formando-o, dizendo-o em cada início, para no fim, repetir. Eu gosto.

Mostra-me os recantos imperfeitos, os terrenos onde perdeste, algo mais agreste, o estéril que te habita. As imperfeições que te ficaram, memórias distorcidas pelo próprio tempo, gastas, carcomidas de tão pensadas que foram. Mostra-me sim, onde compravas as porcarias com que te enchias, as outras com que agora te empanturras. Dá-me outro cigarro dos teus ou deixa-me a ponta com a tua saliva. Diz-me como saber do teu sorriso, ouvir-te rir entre uma piada foleira e uma partilha de gelados. Mostra-me a infindável saudade dos tempos da Primária, quando dobravas aquela esquina ali, a caminho de casa. Mostra-me como a vida se faz de nadas, e nada mais que o presente, é um mostrar por completo. Num todo que somos, um tanto nada de mim vive em ti.

Mostra-me como coças a cabeça, os gestos tão teus, o teu virar de página, o teu pegar no copo. Demonstra-me como defendes as tuas ideias, a garra com que te entregas, à causa, à pausa, ao abandono nestes braços que te moldam em cada regresso. Explica-me como consegues remover verniz das unhas com tanta eficácia, como tratas de arranjar um lugar descabido para esconder um coração perdido dentro de outro. Fala-me de pechinchas, de linhas mais em conta, de pacotes promocionais com sabores sintetizados. Explica-me a análise da coisa, como conversa sem aparências ou ilusões, de doidos, sem paradeiro da conclusão.

Guarda-me em segredo e sussurra-me ao ouvido quando ninguém estiver à nossa volta. Diz-me quantos dias guardas em sonhos, as horas que já perdeste quando não o fazes. Sabe-me o teu suspiro a um romântico bater de asas. O olhar vagamente acima da linha dos meus olhos, assim como quem está desinteressada, e pergunta-me se me importo de enumerar todos os teus defeitos. Faz-me mal, deixa-me a meio de um beijo. Vicia-me na tua queixa pelos meus hábitos, quando a tua vontade é de te perderes por eles, em mim. Mostra-me só mais um pouco, para que acredite.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

|pre|sente


Antes, gostava do que me fazia mal. Hoje, do errado.

terça-feira, 24 de maio de 2011

porque|nada

Porque não tenho jeito para outros feitios, muito menos uma cabeça completamente arrumada. Porque não sou de memorizar datas. Dos que nascem. Dos que morrem. Porque acho a saudade tão peçonhenta, que a olvido ao passar de uns tempos. Porque não me dou com whiskys nem outros destilados em pedrinhas de gelo. Porque o vinho me dilata as veias e nunca a paixão. Porque não me faço entre botões de punho ou na nesga de um sorriso de soslaio, num olhar vago para a cidade. Neste mundo a meus pés, cru e estanque, não há lugar para estoicismos forjados. Porque não me faço entre claros e escuros, e de facto, não vivo na própria sombra do sonho. Porque não gosto de sapatos. Porque o teu perfume continua a ser-me “O Eterno Desconhecido”. E sim, sou mal agradecido, porque é simples não gostar de me abrir ao mundo. Assim, secando ainda antes de molhar qualquer parte tua, porque não me revejo lá fora. Porque agrada-me olhar e rever-te. Noutros olhos. Noutras mãos. Noutras histórias. É sentir-te num sorriso de alguém que cruza por mim na estrada, num Sábado à tarde. E vi-te ali, na curva ligeiramente a subir, inclinada para a direita, entre eucaliptos e o alcatrão gasto. Eu sorria. Tu sorrias. Tu vinhas. Eu ia. E caso te contasse todos os pormenores que são possíveis assimilar em dois segundos, talvez necessitasse mais que o tempo que nos é permitido para existir. Porque sou um apaixonado, e sei que há coisas sagradas. Tu vais. Eu fico. Tu voltas. Eu já não existo. Porque não gosto de brindes em grupo. Porque gosto de ouvir os sons estranhos que o teu estômago consegue produzir. Porque continuo a dizer que o melhor cigarro é mesmo depois de foder. Porque a solidão é um lugar-comum e não para comuns. E tanto que prezo o silêncio das bocas. Porque continuarei a fumar cigarrilhas, de boxers, descalço, de cabelo desgrenhado, no suor de um dia. Porque te oiço, infindável em mim. Porque existe uma razão qualquer para gostar de ti. Porque sim, mais que querer, é ser-te.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

|as|severa

É cruel querer-te mais que nas palavras. Desejar-te mais viva no sangue, em todo o cerco à vida. Luz no meu corpo, ao querer-te assim, não chega apenas sonhar-te. O desejo é um brinquedo, perigosamente desprovido dessas, as palavras surdas ao ouvido. É cruel sentir-te tão fundo, tanto de mim esvaído por ti, na pele perfumada desse teu jeito tão... cruel.

É cruel fazer-te à distância de uma vida. Ou duas. A tua e a minha. É cruel saber-te. Desnudar-te. Decompor-te em cada linha das minhas mãos. É cruel tocar-te, e tanto que dói, sentir-te. Sem uma razão para sorrir, sofrer-te é bem melhor que outra condição. Condeno-te. Cruel é deitar-me no teu ventre, ouvir-te na voz de quem clama pelo silêncio.

E nada mais existe senão as tuas sedas, glosar aos teu lábios como são os meus. Um pequeno apontamento da dor, é colar-te a mim, de cada vez que me infliges mais esta dor. É cruel recordar-te, e sempre presente, dentro desta pele. Nas entranhas te sinto, ao arrepio de saber quando chegas e me tomas. De uma só vez. Crueldade de não me seres estranha. Não mais.