Calma, eu sei que Agosto foi uma merda, principalmente para quem foi de férias na segunda quinzena. Que do Benfica é melhor nem falar. Eu sei que é muita coisa junta para tão pouca cabeça. É demasiada pressão após estas férias de chacha, Nas eleições que se avizinham, acho que consigo adivinhar uma abstenção acima dos 50%, com a mesma desculpa de sempre: não vale a pena lá ir porque são sempre os mesmos. Se chover, é porque a àgua molha, vejam lá. Se fizer sol, é porque tem de se aproveitar o bom tempo para ir ao Colombo.
O mal, no outro Mediterrâneo (sim, porque existem dois), já está feito há muito tempo. Poderemos discutir porque estes e aqueles não recebem uma porção desta calamidade humana em massa. Teremos tempo de apontar dedos, chamar chulos a uns, chamar gatunos a outros. Poderemos aplaudir o gesto tão humano de Israel, dizer que a Merkel é uma falsa. Poderemos questionar os países árabes que são os meninos protegidos de alguns. Até podemos ir bombardear aquela porcaria e escavacar mais bocadinho, dar umas palmadinhas nas costas do Al-Assad como quando um bebé se lembra de bolsar, fechar mais uma negociata de mísseis e um punhado de aviões. Vamos ter tempo para dizer que os americanos são isto e aquilo, que o mundo precisa é de um Trump a cada esquina.
Teremos tempo para pensar nos que cá desejam ficar, como ficam e na maioria que talvez queira voltar quando haja PAZ. Teremos tempo de pensar na integração, reintegração em outros locais. Não temos é tempo em decidir no que fazer a quem nos bate à porta a pedir ajuda. Por muito que nos custe, não podemos fingir que não existem. Boas ou más, por agora são somente pessoas que pedem ajuda.
O que não vale a pena, na verdade, é argumentar ou contra-argumentar com tacanhos de espírito. Daquilo que nos podemos orgulhar, é de haver um português em qualquer lado do mundo, até no sítio mais recôndito deste planeta que nem lembra ao Diabo. Andar por uma das milhares de ilhas da Indonésia e dar de caras com um bolo de arroz. Fomos nós. De olhar para um ukulele e saber que aquilo não é mais que um cavaquinho. Fomos nós. Directamente, somos mais de dois milhões por aí. Indirectamente, entre pais, avós e netos, ultrapassamos os trinta milhões. No grande Êxodo da década de 50, cerca de um milhão e meio rumaram para terras além Pirinéus. Nada de especial, querem ver?
Bidonville não foi "erguida" por refugiados de guerra. Foi "erguida" por esfomeados. Pelos Manéis. Pelos Antónios. Pelos Joaquins. Pela malta do bigode que andava sempre com um canivete e só sabia comer assim. Nada como a porra do átrio do prédio limpo pela portuguesa. Singraram, sangraram, venceram. Todo este árduo trabalho de séculos para a maioria agora se esquecer que no nosso ADN está inscrito o Ir mais além, para lá desta terra, deste mar.
Irei preocupar-me, no seu devido tempo, com as más intenções de alguns. Irei querer justiça e exigir a deportação de todos os que empurram outros borda fora do barco. Não me vou desfazer em lágrimas pelos que se aproveitem de tudo isto para obter lucros. Não desejo pactuar com países que amontoam refugiados em comboios e os levam para campos de "refugiação" ao engano, assim como não pactuo com outros que apenas fomentam violência e segregação. Não quero ser conivente com um olhar de lado, fingindo que não vejo aquele barco ali, e o outro acolá, e mais aquele mais além, e mais aqueles que vão boiando. Não irei andar com um refugiado ao colo porque, invertendo os papéis, eu só pediria uma chance de viver.
Pessoas de bem serão sempre pessoas de bem. Nunca serei um exemplo, porque desejarei sempre que aqueles cabrões que não utilizam o pisca se espetem contra uma parede e que partam os dentes.

